Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Ratoeiras e labirintos

Todos vivemos numa labirinto, mas acredita que é muito pior ficar presa numa ratoeira montada por um oportunista emocional que usa a tua fraqueza temporária para te fechar numa gaiola definitiva.
26 de maio de 2017 às 06:00
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Ratoeiras e labirintos

Minha querida irmã do coração, fiquei pregada ao chão quando te avistei no meio da multidão há poucos dias, nas imagens que chegavam de Brasília para todo o mundo. O povo rebelou-se a destruiu a fachada de quatro ministérios. Houve feridos e detenções, o caos instalado na cidade desenhada a régua e esquadro por Óscar Niemeyer, esse grande visionário das cidades grandiosas, com os seus edifícios imponentes e austeros e as suas rotundas largas e elegantes.

O nosso pai contava que Brasília era uma das cidades mais modernas no Brasil. Aqui na Europa, onde tudo é mais pequeno, as pessoas pensam que o Brasil é um país, sem alcançar que dentro das fronteiras existem muitos territórios, tão diversos em paisagens e em população que nem a gente entende como um dia alguém os conseguiu unificar.

Porém, se pensar um pouco, sei a resposta: o povo brasileiro é brando, deixa-se levar, vai empurrando com a barriga, como tu fizeste com o Mateus durante três anos. Sempre que te visitava, ponderavas entre casar com ele e ter uma vida boa e sossegada, ou larga-lo para sempre e abraçar o mundo. Todas as mulheres precisam de paixão e de segurança, mas umas precisam mais da primeira e outras, da segunda.

Quis a genética que fossemos parecidas em tudo, até nisto: Nascemos as duas no mesmo mês, com dez anos de diferença, com mães diferentes e ainda assim, se fossem a mesma, talvez não existisse entre nós tanta parecença. Somos ambas geminianas, ambiciosas, independentes, sedutoras e valentes. Nunca desistimos daquilo em que acreditamos e nunca baixamos os braços. E sempre que nos sentimos cansadas ou tristes, ficamos quietas e disfarçamos as fraquezas. Podemos falar horas no Whatsapp, mas se cada um sair à rua na sua cidade, ninguém vai perceber que carregamos um peso, por mais forte que seja, porque a leveza e a alegria são o nosso escudo para a vida.

Não fossem as maravilhas das novas tecnologias e teria gelado de pânico quando te vi no meio da multidão. Ainda bem que me ligaste pouco tempo depois e mandaste fotografias a provar que tinhas escapado ilesa da confusão. As irmãs mais velhas nunca deixam de se sentir responsáveis pelos mais novos da família, o facto de estares do outro lado do Atlântico aflige o meu coração cansado. Preferia ter-te por perto, debaixo da minha asa protetora, pois acredito que os laços familiares a e amizade pura salvam muito mais do que o amor, a paixão, ou o que lhe quiseres chamar.

Essa história com o Mateus nem era bem de amor e tu sabes disso. Ele era louco por ti e tu amavas a ideia dele fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para te ter. E como é que inevitável nas grandes paixões, a fatura a pagar por tanta dedicação e empenho era triste e sombria: ele espiava as tuas mensagens, tinha a password do teu computador, o que lhe permitia entrar no teu Facebook e no teu e-mail. Não sei se me fez mais confusão saber dessa enormidade ou saber que lhe perdoaste o deixaste voltar para a tua vida.

Fiquei feliz em saber que já resolveste esse imbróglio, da única maneira possível, apaixonaste-te por outra pessoa. Também percebi que foi sol de pouca dura, o novo namorado, depois de promessas inflamadas e noites em branco, afinal era um profissional e colecionava conquistas que ia sobrepondo como cartas equilibradas em castelos improváveis. Ainda assim, queria irmã, promete-me que não voltas para os braços do louco que te persegue e que te promete o mundo em troca de um anel no dedo, porque isso não existe. Todos vivemos numa labirinto, mas acredita que é muito pior ficar presa numa ratoeira montada por um oportunista emocional que usa a tua fraqueza temporária para te fechar numa gaiola definitiva.

Deixa lá as manifestações e ocupa-te a viver a tua vida. Nem um nem outro te interessam, só se sente só quem não tem família nem amigos.

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