Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Retrato de um namorado parasita

A minha mulher é um furacão. É mais bonita do que eu, mais nova do que eu, mais bem educada do que eu, mais forte do que eu. Mas sou eu quem manda, porque ela gosta mais de mim do que dela e essa regra, meus amigos, só se aprende depois dos quarenta.
14 de fevereiro de 2020 às 18:43
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Retrato de um namorado parasita

Vivemos todos num labirinto. Olho-me ao espelho e mal reconheço o homem que ele reflecte. Estou gordo. Ou melhor, inchado. Tenho olheiras. Pele cinzenta à volta dos olhos. E baça em toda a cara. E pêlos, pêlos horríveis que saem todas as semanas do nariz e das orelhas. Faço 55 anos em Outubro. 

Nos braços nasceram-me sinais. Nascem todos os anos, o médico diz que é natural, tão natural como a barriga do álcool e a falta de vista. Agora, ando sempre de óculos na ponta do nariz. Até me dão um ar vagamente interessante. Se quiser, ainda seduzo mulheres com menos de 40 anos. Faço 55 anos em Outubro. 

A minha mulher é um furacão. É mais bonita do que eu, mais nova do que eu, mais bem educada do que eu, mais forte do que eu. Mas sou eu quem manda, porque ela gosta mais de mim do que dela e essa regra, meus amigos, só se aprende depois dos quarenta. Tinha tudo para me apaixonar por ela quando a conheci: era rica, jovem, com posses. Prédios de família, uma quinta do Douro, duas lojas de decoração, um andar na Lapa. Só lhe faltava ser bonita, mas apaixonou-se perdidamente por mim e foi assim que me agarrou. Nunca a amei como ela ainda hoje me ama. Uso-me do seu dinheiro, da sua generosidade, dos seus amigos, dos seus negócios. Finjo que trabalho com ela. Às vezes finjo bem, outras vezes finjo mal. Os filhos dela detestam-me, eu finjo que não reparo. Estou cansado, faço 55 anos em Outubro. 

Olho para o espelho e não me vejo como sou. Na imagem estou lá eu, há vinte anos atrás, antes dos pêlos indesejados, da miopia que chegou de um dia para o outro, da barriga que não pára de crescer, quando ainda acreditava que só valia a pena estar com uma mulher por quem tivesse o maior tesão do mundo. Não o tesão habitual que um homem pode ter por qualquer corpo quando olha e cobiça. O tesão do poder, da posse, da carne, o tesão que te dá vontade de cravar um ferro em brasa com as tuas iniciais no corpo dela, para que ela seja só tua, mesmo que fuja e nunca mais volte. 

Afinal, casei com uma mulher que tinha tudo, mas isso não. Bebo, fumo e como muito para esquecer. Bebo muito porque ela também bebe. Como muito porque ela também come. À noite na cama, quando as nossas barrigas se tocam involuntariamente, sinto frio. Há muitas noites em durmo noutro quarto. Prefiro adormecer exausto, depois de pensar que estou com outras mulheres do que entrar no corpo dela. Às vezes faço-o, por brio de macho, puro sentido de cumprimento do dever. As mulheres precisam de peso em cima, senão, perdem o controlo. Sou um fraco e faço 55 anos para a semana.

Os amigos dela ignoram-me cordialmente, as amigas fingem que me acham charmoso, simpático, chamam-me o Sedutor. Riem-se do meu cabelo talvez demasiado comprido para a idade, que teimo em exibir como marca da minha rebeldia. Mas sei que no fundo me chamam parasita, canalha, escroque, palerma, idiota. Sou um parasita e faço 55 anos em Outubro.

A minha mulher já não é jovem, nem bonita. Os traços da cara tornaram-se fortes, duros, marcados como linhas a tinta da china. Só o olhar se mantém vivo, atento, expressivo, como uma da leoa. Tenho medo do olhar dela, por isso escondo o meu atrás dos óculos, uso a miopia como arma de defesa. Não sei se amo, sei que não posso viver sem ela. Estamos os dois a envelhecer, estamos os dois cansados de beber e de comer e de fumar tanto. Estamos os dois perdidos no mesmo labirinto. Às vezes, encontramo-nos no meio das nossas bebedeiras civilizadas e eu vejo-a de nova, jovem, bela, magra, ainda poupada às minhas ausências e falhas e penso que estou quase outra vez a apaixonar-me por ela. Penso que tenho muita sorte, porque não passo de um pulha que sempre abusou do charme para fazer das mulheres o que quer, dentro e fora da cama. E tenho remorsos. Então volto a conquistá-la com presentes, palavras doces, mimos, sexo apaixonado e outras habilidades. E ela vem, primeiro contrariada, zangada, ofendida, perdida no nosso labirinto. Depois entrega-se, exausta de esperar de mim o melhor sabendo que não sou boa rês, que nunca estive apaixonado por ela, aceitando a sua existência a meu lado como uma fatalidade.

E nesses momentos mágicos de redenção e entrega, tenho pena dela e ainda mais pena de mim, apetece-me arrancar os olhos e é então que reconheço que sou um fraco, que o meu labirinto sou eu e que nunca fiz nada de jeito na vida a não ser usar o charme para viver como um rei. Sou um rei, sou um pulha, sou um parasita, sou uma besta e faço 55 anos em Outubro.

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