Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Sombras e Labirintos

Como todas as pessoas da minha geração quis ir ao Cheers beber um copo e fui, mas as mulheres americanas é que conseguem sentar-se sozinhas ao balcão de um bar e aguentar a pose. Como sou europeia, só consigo fazer isso numa esplanada.
25 de agosto de 2017 às 23:13
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Sombras e Labirintos

Pouco antes da minha vida mudar, embarquei numa aventura calculada e rumei ao Norte da América. O destino final era uma maravilhosa cidadezinha, Rockport, com mansões milionárias e veleiros de cortar a respiração.

É costume dizer-se que na América quando as pessoas se reformam ou vão para a Florida, ou vão para o Maine. À Florida nunca fui e ao Maine nunca mais voltei, mas acho que essa ideia corrente confere com a realidade. Vi milhares de velhinhos felizes no estado mais a norte da chamada Nova Inglaterra.  

Antes de mudar de vida sentia-me muito só. Os livros ainda não tinham disparado, vivia num terceiro andar sem elevador, num prédio antigo cheio de mulheres velhas de batas floridas e pantufas espatifadas. O Maine tinha à minha espera um maravilhoso curso de argumentista e eu sonhava com esse trabalho enquanto a minha imaginação incubava informação para o meu segundo romance. 

Aterrei em Boston onde não conhecia ninguém e passei 3 dias a visitar a cidade. Como todas as pessoas da minha geração quis ir ao Cheers beber um copo e fui, mas as mulheres americanas é que conseguem sentar-se sozinhas ao balcão de um bar e aguentar a pose. Como sou europeia, só consigo fazer isso numa esplanada. 

Entrei, estudei o ambiente e saí tão depressa que ninguém deve ter dado por mim.

Quando cheguei ao Maine, dediquei-me ao curso com afinco. Aprendi os arquétipos e o arco do herói e fiz bons amigos.

Dividia o quarto com uma miúda de 23 anos que era amante do vizinho desde os 18, o clássico cliché da babysitter seduzida pelo executivo musculado provider, aparentemente um bom tipo, obviamente com os seus vícios privados. O seu maior vício chamava-se Laurie, tinha os olhos piscos, cara de bolacha, um peito imenso e aceitava a sua condição como se fosse natural. E se calhar até era. 

Perguntei-lhe como convivia com a solidão, mas não fixei a resposta.

Não percebo como as pessoas aguentam a solidão. Aguentam porque não têm outro remédio. 

É como se estivessem fechadas numa prisão.

Eu vivo em esforço permanente para aguentar a minha. Treino o estoicismo diariamente, mas a casa, a mesa e a cama vazias corroem-me, às vezes tiram-me o sono e roubam-me o ânimo.

Assim que voltei, consegui fazer o meu primeiro argumento, o livro entrou para o top e a minha vida mudou.

Só a solidão vai e volta, e sempre que se demora traz com ela uma sombra maior. 

Cada vez que penso que é um monstro, a vida traz-me sempre alguém que vive numa solidão ainda maior, mais sombria e intrincada, como um labirinto malvado. 

Acredito que caímos no abismo quando nos habituámos à solidão. Se tal fatalidade te acontecer, corres o risco de nunca mais amar ninguém. Amar a ponto de querer abrir a tua casa e o teu coração. Já foste apanhado pelo teu maior inimigo e ficas refém dele, talvez para sempre. 

Antes a morte que tal sorte.

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