Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Trapézios e Juízo

Destaque: Nunca fui de voar sem rede, fora de questão correr mais riscos do que aqueles que o juízo me permite
31 de maio de 2019 às 13:36
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Trapézios e Juízo

Fecha os olhos e imagina que sou uma acrobata ou uma domadora de elefantes. Não, imagina que sou uma trapezista. No circo as roupas são sempre parecidas, as habilidades é que são diferentes. Estou vestida com um maillot vermelho vivo, bordado a mil e uma lantejoulas, talvez com umas franjas curtas no decote ou no remate em baixo, a enfeitar as coxas, também vermelhas, que ondulam a cada movimento das minhas ancas. Agora imagina que subo por uma escada de corda, os holofotes viram-se na direção da minha silhueta, a sombra projeta-se ao fundo enquanto a orquestra toca uma melodia festiva e vagamente desafinada de origem indistinta. Subo pela escada suspensa com rapidez e agilidade, sempre a sorrir, fico de pé do pequeno estrado e saúdo a multidão cá em baixo antes de agarrar a barra e me lançar em voo para o outro lado da tenda.

O meu corpo alado parece rasar o teto da tenda feito de panos de várias cores que o tempo castigou e esbateu, mas isso não quer dizer que me sinta mais perto do céu. Nada disso. O céu não é no ar, o céu é na paz de cada coração e o meu bate demasiadas vezes demasiado depressa para alcançar esse lugar interior. O primeiro voo é apenas um ensaio para medir forças e calcular bem a distância que me separa do outro lado, onde os meus pés pousam com a suavidade de um pássaro bem treinado.

Estou só, o mundo ficou lá em baixo, preciso de um par para voar comigo, um par com quem possa em conjunto efetuar belas acrobacias. É um rapaz croata ainda muito jovem, talvez com idade para ser meu filho, que viaja na companhia desde que os pais morreram num acidente de carro. Os pais também eram trapezistas, voaram tantas vezes sem rede e afinal encontraram a morte num cruzamento ao fim da rua. A ironia é a rainha má da vida e o inesperado manda mais do que todos os planos desenhados a régua e esquadro com cálculos matemáticos e outros truques da inteligência humana. Vamos imaginar que este rapaz se chama Igor e que se apaixonou pela filha do Senhor Antero Esteves, neto de outro Antero, fundador do Circo Estevali, num tempo em que a televisão, que já é obsoleta, ainda nem existia. A miúda chama-se Cláudia, é bonita e malandra, o Igor encantou-se por ela, mas sabe que não tem hipótese. Finalmente o meu par voador chega ao palanque, faz uma vénia ao público e juntos começamos o nosso número.

Nunca fui de voar sem rede, fora de questão correr mais riscos do que aqueles que o juízo me permite. Também já aprendi a não me lançar em voo sem saber onde vou pousar, embora isso seja resultado de uma aprendizagem tardia. O importante não é a queda, mas aterragem, disseram-me há uns anos, mas agora já não caio nessa. O importante é saber voar. E para voar em segurança é preciso seguir uma série de procedimentos, nomeadamente os de segurança. Caso contrário, a aeronave fica no hangar com os mecânicos até estar em perfeitas condições e regressar à pista.

Deve ser mais fácil consertar os quatro motores de um avião daqueles que nos levam pelo mundo, do que um coração partido. Aos motores trocam-se as peças, são consertados enquanto estão desligados, o tempo de reparação é calculado pelas horas de trabalho e pode atrasar, se a peça que falta não existir em stock. Um coração não tem peças que se desencaixem, é orgânico e inteiro. Se tiver um defeito de fabrico, é necessária uma equipa inteira de médicos, anestesistas e enfermeiros para o consertar. E não se pode desligar. Um coração não pode ir para o hangar à espera de reparação. Tem de continuar a bater, como o meu, cá em cima, a voar no trapézio para cá e para lá, lado a lado com o Igor e a fazer piruetas no ar. Treinei a vida toda desde criança para isto e às vezes, a meio de uma pirueta, falha-me a mão e caio na rede. Faz parte da vida cair quando nos falha uma mão, seja a nossa ou de alguém que parece estar tão perto e depois, afinal, nem sempre está lá. Não é por mal, não tem nada a ver com gostar ou não gostar. Cada um dá o que tem e a mais não é obrigado.

Lá em baixo, o público suspende a respiração cada vez que largo um trapézio para agarrar o outro que o Igor me lança. E, nesses instantes, tão curtos para quem vê e tão longos para quem voa, lembro as tuas mãos na minha cintura, o teu olhar fixo no meu quando me atravesso contigo às portas do meu coração e penso que há histórias de amor que são mais arriscadas que outras. No fundo o meu sonho era que, além de voar nos teus braços, tu também fosses a minha rede, o meu porto de abrigo e eu fosse a tua casa quando regressas de todos os voos e voltas que a vida dá.

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