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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Turistas emocionais

Não devemos ter pressa na vida, nem devemos perder tempo com quem não interessa.
31 de janeiro de 2020 às 20:52
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Igreja Sangue de Cristo, na localidade de Teotitlan del Valle, perto de Oaxaca, México Foto: Getty Images

Sempre que as pessoas visitam um país, pensam que ficam a conhecê-lo. Podem ir apenas a uma cidade ou a uma praia, mas basta-lhes ouvir a língua nativa, trocar meia dúzia de palavras com alguns locais, ver duas igrejas ou um museu, passear pelas artérias principais e provar as especialidades gastronómicas para se convencerem. No amor é a mesma coisa: podemos almoçar com um par de vezes, conversar durante algumas horas, passar um fim-de-semana romântico com alguém que nos interessa e que anda a rondar a porta do nosso coração, e quantas vezes não caímos no erro de acreditar que conhecemos o outro?

Não conhecemos, porque não houve tempo para isso, porque só com tempo permite viajar pela vida do outro, pelo seu passado, dentro do seu corpo e da sua cabeça. Não conhecemos porque o caráter tem muitas máscaras, nem sempre são para esconder a falta dele, mas tem. Não conhecemos porque é nos momentos de crise, um acidente, uma doença, um conflito familiar que as pessoas se revelam. Não conhecemos porque é no momento da despedida que se define a qualidade e o nível das pessoas. 

Eu já tinha ido duas vezes ao México e foi necessária uma terceira para perceber que não sabia nada daquele país. Precisei de estar sentada vários dias à mesa com um amigo mexicano para ele me explicar como o país entrou em derrapagem na última com três presidentes inaptos num regime presidencialista: um corrupto, um palyboy sem sentido de estado e um religioso que quer combater o narcotráfico com abraços. Foi preciso viajar até á província mais recôndita e indígena, Oaxaca, para compreender até que ponto os tentáculos castradores da fé cristã marcaram um povo e atravessar uma cordilheira montanhosa, a Sierra Madre del Sur para entender que todas as crianças possuem o dom de brincar, mesmo na aldeia mais pobre e inóspita. Escalam pedras e árvores, jogam à bola com cocos e parecem felizes enquanto adormecem embalados pelas mães e amacas a céu aberto.

Eu pensava que conhecia o México e de facto conhecia, mas como turista. Ser turista é uma coisa, ser viajante é outra. Há anos que escolho destinos pouco explorados e atravesso países com o intuito de os conhecer melhor. Com as pessoas é igual. Não me interessa cultivar nenhum tipo de relação que não tenha profundidade e lealdade, que não tenha entrega e verdade, seja profissional ou pessoal, de amizade ou amorosa. Tenho de sentir que estou a construir alguma coisa sólida e bela, ou então não vale a pena. Até agora não me tenho dado mal, nem nas viagens nem na vida. A minha família e os meus amigos sabem que podem contar comigo, porque eu não tenho um coração de hotel. Quem lá entra, só sai se as coisas correrem mesmo muito mal. Só sai se revelar a tal ausência de caráter num momento importante. Se não estiver à altura daquilo que sabe que eu espero e mereço. 

Não devemos ter pressa na vida, nem devemos perder tempo com quem não interessa. Existe um equilíbrio frágil entre dar tempo ao tempo e perder tempo. Existe uma linha muito ténue entre ser generoso e ser uma banana com olhos. Não é fácil marcar limites e desenhar fronteiras sem construir muros. Nas grandes viagens, tal como no amor, é preciso desejar o melhor sem esperar nada, aceitar as mudanças e sobretudo tudo aquilo que não conseguimos mudar. O México é um país imenso, muito para lá dos mariachis, do guacamole, dos boleros e do mezcal. Voltarei um dia, para conhecer melhor um país que me seduziu pela sua simpatia e calor. Mas ainda assim, sei que aquilo que conheço é apenas superficial. E há muito que a vida me mostrou como é inútil deslizar à superfície das coisas. 

O coração é um território demasiado valioso para deixar que nele entrem turistas ou terroristas emocionais. O coração de cada um também é um país. O meu é grande. E o seu?

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