Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Um céu só nosso

Não sei como isto aconteceu, quando dei por mim já estava fora de pé, sem bóia nem colete de salva-vidas. Se tudo tivesse sido de repente, talvez a minha capacidade de reação fosse diferente.
26 de outubro de 2018 às 13:11
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Um céu só nosso
Não sei como isto aconteceu, quando dei por mim já estava fora de pé, sem bóia nem colete de salva-vidas. Se tudo tivesse sido de repente, talvez a minha capacidade de reação fosse diferente. Depois do choque inicial perante uma mudança radical e irreversível como um terramoto, um tsunami, um acidente de carro ou um ataque cardíaco, o corpo e o espirito reagem para salvar a pele, a alma e o coração. Isto sou eu a pensar enquanto olho para o telefone à espera de notícias do meu amigo Gustavo que está nos cuidados intensivos há 15 dias é só Deus sabe se irá sobreviver. 

Conheci o Gustavo numa tarde fria de Outono, já lá vão três anos. Já nessa época ele andava de médico em médico.  Eram tantos os problemas de saúde que nenhum conseguia decidir o que seria melhor fazer primeiro. Cruzámos-nos num café da moda, eu estava a beber um carioca de limão com um amigo daqueles da raça pirata que se metem com tudo o que mexe. Quando o Gustavo passou pela mesa e o cumprimentou eu vi ali um bom rapaz.
 

Um bom rapaz vê-se à distância e quantos mais são os piratas que passam pela vida de uma  mulher, mais valor se dá a essa espécie humana que responde pela designação genérica de boas pessoas. Nessa noite começámos a seguir-nos mutuamente no Instagram e foi assim que se iniciou uma das maiores aventuras da minha vida. 

Nunca estivemos apaixonados, longe disso. A nossa relação foi desde o primeiro instante feita dessa matéria tão pura e divina que é amizade. Era um homem bonito, com olhos de gato e um belo sorriso, mas havia qualquer coisa de muito frágil no seu olhar que me despertava o sentido maternal acima de todos os outros. Era um homem só, sem mãe nem pai, apenas com um irmão que sempre foi o seu melhor amigo. É dele que espero notícias do Gustavo, cada dia que passa mais mergulhada na ansiedade e na tristeza. 

Há três noites que quase não durmo, na minha mente inquieta o Gustavo aparece-me já em modo de anjo e temos longas conversas sobre a vida, o amor e a morte. Ela fala da mãe com saudade e um nó na garganta. Nunca me disse que se suicidou, soube-o através de amigos comuns mas nunca toquei no assunto, Para quê? Os amigos servem para isso mesmo, quando nos querem contar tudo, nós ouvimos, mas quando nos escondem as coisas mais importantes não nos zangamos. 

Tenho medo que ele morra naquela cama e que nunca mais o possa abraçar nem dizer-lhe como fomos felizes na nossa amizade tão pura e casta, nos nossos passeios pela cidade em busca das melhores geladarias, nas músicas que enviávamos um ao outro como se fôssemos namorados. 
As noites vão esfriar., dizem que a temperatura vai baixar de repente e o meu coração fica mais apertado quando penso como será se o Gustavo não se sentar ao meu lado à lareira a ver séries no projetor. 

Amanhã quem sabe, o telefone toque. Até lá, vou fechar os olhos e imaginar que estamos os dois a passear de braço dado pela cidade enquanto as folhas do Outono dançam aos nossos pés como estrelas caídas de um céu só nosso.

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