Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Vou ali e já venho

Tenho 44 anos e herdei um andar no Dafundo, perto da estação. Era a casa dos meus avós, como sou filha única e neta única do lado da minha mãe, ela ofereceu-mo quando me licenciei. Agora estou fechada em casa como o resto do mundo e dou aulas aos meus alunos pelo computador.
27 de março de 2020 às 19:54
...
Vou ali e já venho

"Vou ali e já venho" é uma frase que nunca mais será dita da mesma maneira. Vais aonde? Fazer o quê? Não sabes que não se deve sair de casa a não ser para ir ao médico, abastecer o carro, comprar bens essenciais, ir ao banco ou dar assistência à família? 

Nada disso, vou só ali ao paredão esticar as pernas e respirar o ar do mar, enquanto não fica interdito. O ar do mar ajuda a salvar o corpo e alma - concluiu a Maria, que se instalou temporariamente cá em casa paraatravessarmos juntas o período incerto de quarentenaautoimposta

Tenho 44 anos e herdei um andar no Dafundo, perto da estação. Era a casa dos meus avós, como sou filha única e neta única do lado da minha mãe, ela ofereceu-mo quando me licenciei. Agora estou fechada em casa como o resto do mundo e dou aulas aos meus alunos pelo computador. Sou professora de português, nunca casei nem tenho filhos, só dois gatos, o Picasso e o Matisse, irmãos de ninhada adotados. Picasso é listrado e brincalhão, Matisseé preto e introvertido, cada um tem o seu feitio, um é mais cão do que gato. A Maria, que é mais nova do que eu,nunca casou nem tem filhos, gosta de dizer que eu sou o listrado e ela é o outro. De facto, existem algumas parecenças, a Maria tem o cabelo preto, liso, comprido e muito bonito e eu faço madeixas desde os trinta. Quando os cabeleireiros reabrirem é que vamos saber quantas loiras verdadeiras existiam em Portugal. Não sou uma delas.  

Comecei a fazer-me loira depois de ter vivido três anos com o Filipe que era um tipo calado, talvez um pouco depressivoembora cortês e sorridente, jogava na linha do Homem Tranquilo. O Homem Tranquilo é aquele tipo de homem que nunca perde a cabeça. Não sou de ligar a signos, mas parece que os homens do signo Caranguejotendem para o sossego do lar, por contraponto aos do signo Sagitário querem é andar no laré, usando uma expressão muito repetida pela minha avó Joana, quando se referia ao meu avô que saía para dar um volta e às vezes demorada s três dias a voltar. O Filipe era outro estilofugia para dentro. Sempre que era invadido por dúvidas amorosas ou metafísicas – dado o seu elevado nível de introspeção penso que seriam a mesma coisa – sentava-se noutro sofá que não o habitual e ficava ali, feito estátua, com os olhos fixados na vista de mar até eu o conseguir arrancar da tristeza e do marasmo na qual se deixava engolir. A tristeza é irmã do medo e o medo é a maior baleia do mundo, uma baleia assassina que mata a vontade, o otimismo e o desejo. Quis a sorte que essa baleia nunca me tenha apanhado, nem tao pouco à Maria, que consegue processar um desgosto de amor em 24 horas e continuar a avançar sem medo pelo labirinto das relações amorosas em que o mundo se transformou. Anda tudo no limbo do mais ou menos, e eu já encostei à box, mas a Maria vai fazer 35 anos, é bonita e tem um corpo de sereia, tem mais é de aproveitar a vida.

Não queres vir comigo? Fazia-te bemapanhavas um bocadinho de sol, a vitamina D protege-nos do mundo, diz-me a minha amiga que podia ser atriz de novelas ou apresentadora de programas de televisão e que prefere gerir apartamentos de outras pessoas. São seis da tarde, daqui a pouco o sol vai-se esconder, calço uns ténis e uns calções e saímos as duas.

- Nunca me constaste porque é que te separaste do Filipe – questioa-me, sem fazer usos da entoação interrogativa, depois de alguns minutos de caminhada silenciosa.

- Na verdade não sei bem. Eu gostava dele, mas não aguentava aquela tristeza sistemática, sou como um cão, os meus humores copiam os do meu dono, aquilo estava a dar cabo de mim.

- E não tens saudades?

Saudades temos sempre, pensei eu, sem nada dizer. A saudade é o que fica quando tudo acaba. Já foi há mais de dez anos e ainda viro a cabeça quando passo por um homem na rua que usa o mesmo perfume. Mas o melhor é nem falar nisso, é melhor não dizer à Maria que isto foi sempre piorando, que o Filipe era espetacular, eu é que não soube vencer os seus defeitos e que o amor é isso mesmo, vencer os defeitos do outro com a nossa tolerância e paciência, as mesmas que esbanjamos nas amizades verdadeiras. Agora sou uma quarentona que vive com dois gatos e que tem sempre a cama do segundo quarto da casa pronta para receber um amigo. Fomos ali é já voltámos, mudo a areia aos gatos e ponho-me a cozinhar o jantar. 

Se não fossem os amigos, o que seria de nós?

Mais notícias de Pessoas Como Nós

A menina Clarinha e eu

A menina Clarinha e eu

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor.
Mergulhar no futuro

Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
Com cinco letras apenas

Com cinco letras apenas

É engraçado como as palavras mais belas e mais importantes têm três, quatro ou cinco letras. Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, filho, paz, saúde, sonho, amor, fado. Beijo, abraço, toque, sim, não, já, agora, calma, vem, fica.
Claras em Castelo

Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!
ESTRELA D'ALVA* 28.03.2020

Eram precisamente 3H 15m (27.03.20) desta madrugada, quando telefonei para a saúde 24 (Está registada a minha chamada (linha 3) e pedi ardentemente que fosse utilizado a vacina que se utilizava contra o PALUDISMO, Malária. Sei que hoje foi dada ordem, para que tal acontecesse.
Sinto-me aliviado e feliz, porquê? Só o futuro o poderá dizer.

ESTRELA D'ALVA* 28.03.2020

Que DEUS, na sua eterna misericórdia (pedindo perdão aos que não acreditam NELE), Se lembre de apaziguar a nossa ânsia, a uma doença "VIRAL" que de repente nos tornou, objectos de pensamentos esfarrapados e cheios de dúvidas, movidos por um sentimento de fraternidade, entre todos, e não faça de nós vitimas pelo todo mal que percorre o Mundo. Com a Sua superior sabedoria nos ajude a combater, com a Sua eterna bondade, toda esta calamidade que nos atinge escamoteando a Fé, sempre presente num amanhã melhor, que não sabemos se chegará.
Como homem, como ser humano, eu lhe peço Senhor, ordenada e esperançosamente que guie com toda a sua luminosidade, o nosso caminho e as mãos de todos médicos e cientistas e aqueles que para isso trabalham e desesperadamente lutam, dando-lhe a inteligência para términus de tão terrível amaldiçoado mal, uma pandemia mortal.
PELOS DOENTES E POR TODOS,
OBRIGADO SENHOR

;