Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Zona de Conforto

A memória é um computador caprichoso, guarda umas coisas e deita outras fora sem autorização prévia.
27 de dezembro de 2019 às 19:36
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Zona de Conforto

Espero-te à saída da tua zona de conforto, sem a régua e o esquadro que usaste para desenhar a vida e espartilhar o coração. Consta que esse vive agora dentro de uma caixa-forte, que imagino de cor azul, de um azul tão profundo e intenso como o mar que me ampara as madrugadas frias e claras de mais um Inverno sem ti. Espero-te já sem te esperar, como deve ter feito a paciente e sábia Penélope, cansada dos fios e do tear. Imagino-a serena, apesar da condenação involuntária à cama vazia, a desligar o coração e os ouvidos para não se deixar abater pela solidão nem pelo sussurrar venenoso dos conselheiros errados. Imagino-a primeiro a recordar os traços da cara de Ulisses, a cor dos seus olhos e a linha dos ombros, os tornozelos fortes e as pernas musculadas, o seu peito grande e os seus braços fortes, até o dia em que preferiu esquecer tudo, para que a dor da ausência começasse enfim a desvanecer-se. E talvez tenha sido nessa altura que o herói regressou a casa e Penélope voltou a ligar-se ao mundo.

Espero-te à saída da tua zona de conforto na qual trabalhas quase tantas horas quantas cabem num dia, como se a vida fosse um jogo de playstation e dissesses todos os dias a ti mesmo que vais alcançar o próximo nível. O que mais me intriga não é o pouco tempo que tens para mim, mas todo aquele que roubas a ti mesmo e que nem sequer percebes, a não ser quando passou mais um ano, o cabelo está mais cinzento e a pele das costas das mãos quase tão fina como uma folha de papel. O meu também deve estar, mas eu desafio o tempo com alquimias de cabeleireiro, as mulheres possuem tantas armas tão secretas que se os homens fossem espertos, há muito que as teriam contratado para agentes infiltrados em missões de estado.

No fundo, somos todas um bocadinho Penélopes e um bocadinho Mata-Haris, metade ingénuas metade dissimuladas, apenas umas revelam mais os trunfos do que outras. A pele das minhas mãos também foi perdendo a espessura, sempre que me quero lembrar da minha idade cronológica, tão diferente da do meu corpo e do meu coração, olho para elas e tento, sem sucesso, recordar como eram. O tempo também já apagou essa memória, mas não outras bem mais antigas, como as aulas de ballet da professora Vera, a primeira vez que senti o calor do corpo de  um rapaz encostado ao meu, o primeiro pifo que apanhei numa discoteca de província e o aroma do pão quente com chouriço que me enchia as narinas de vontade quando regressei à casa de praia, já com o sol a subir pelas colinas e a baía clareava timidamente. A memória é um computador caprichoso, guarda umas coisas e deita outras fora sem autorização prévia. Às vezes vamos à procura de coisas que não existem, algumas porque foram roubadas pela vida e outras, porque nunca existiram. Outras vezes, serve-nos de bandeja imagens que queremos esquecer, momentos tão felizes ou tão tristes que mais valia ficarem para sempre no arquivo morto e que, ainda assim, nos atormentam.

É nestas e em outras coisas com as quais o meu pensamento se distrai, cogitando ao ritmo do traço descontínuo qual de nós será o maior refém em causa própria, enquanto guio pela estrada escura a caminho da casa de praia que enfeita a baía da minha infância. Vou sozinha, entregue aos meus pensamentos, amanhã chegam mais amigos, terei a casa cheia, a mesa posta e a lareira acesa para os receber de braços abertos na noite em que foi decretado que este ano acaba e começa outro. No fundo nunca nada acaba nem começa, os dias colam-se às noites e eu vou tecendo um tear de paciência para ocupar a minha cabeça e forrar o meu coração que te espera, já sem esperar, à saída da tua zona de conforto.

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