Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

Notícia

O amor é...

... a forma mais confortável, e mais insuportável, de explicar a maldade.
27 de fevereiro de 2019 às 15:33
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O amor é...

[a explicação da loucura]

A ciência existe para nos fazer perceber a malha de insuficiências de que somos compostos, a rede de loucuras de que somos feitos, e isso obviamente enlouquece-nos. No final é sempre isto o que temos: uma pessoa desesperada soa sempre a uma pessoa desesperada. De nada vale a educação, o berço, o treino, a experiência. De nada vale nada. O desespero despe-nos: deixa-nos em esqueleto. Somos o que fica de quando perdemos tudo. É isso o que o desespero nos faz ser: o que sobra de alguém que perdeu tudo. Até a vergonha.

[a explicação do casamento]

O casamento é uma construção abstracta: uma obra subjectiva, uma pintura de Pollock. Ninguém, no limite, o percebe com certezas, muito menos aos seus ínvios caminhos. Há uma miríade de motivos para casar, o mais extremo dos quais, e o mais pernicioso, é o amor. Alguém que entra num casamento por amor é alguém fatalmente perdido, sem esperança ao fundo do túnel: incapaz de perceber o que é a verdade. Certo é que quem entra num casamento não sairá dele ileso, para o bem e para o mal.

[a explicação da verdade]

A televisão é a arena dos gladiadores dos tempos modernos. É lá que tudo o que interessa acontece, depois disseminado pelos canais intermináveis das redes sociais, como uma rede de esgotos onde o mais malcheiroso ganha mais espessura a cada metro que percorre, varrendo cada pedaço de merda que os tubos dos outros contêm. Aos poucos, a verdade ganha novos contornos – e cada verdade tem vários ângulos para ser observada, o que faz com que, no limite, cada verdade contenha em si uma variedade considerável de verdades. Há uma verdade para cada desejo, na verdade. Cada um vai encontrando, ao longo do seu percurso, a verdade que melhor lhe serve, a verdade com a qual melhor pode conviver. A verdade suportável, arriscamos.

[a explicação da guerra]

É à mesa que as guerras se travam. O começo das guerras, pelo menos. Os líderes, esses, são escravos de uma tentação incontrolável para a megalomania. Estar em posição de comando é, muito mais, estar em posição de submissão, de joelhos perante os instintos mais primários: dominar, controlar, ditar, determinar. É quando estamos no controlo que, por mais elementar que possa parecer, mais nos descontrolamos, a jóia a escorregar-nos por entre os dedos, e a nossa impotência a sobrevir, a fazer-nos fazer o que for preciso para continuar com a jóia na mão. É esse, podemos dizê-lo, o ponto de ruptura, o lugar onde as águas se separam: o que fazes quando a jóia te escorrega por entre os dedos? Pior: o que serias capaz de fazer para continuares com a jóia na mão?

Sapo: s.m. Aquilo que todos os cabrões merecem engolir.

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