Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

Notícia

O amor é...

...o vício mais saudável, e mais perigoso, de todos.
06 de março de 2019 às 16:09
...
O amor é...

[a explicação das mães]

As mães sentem o perigo quando ele se aproxima das suas crias. Um sétimo ou oitavo sentido, que as faz experimentar sensações inexplicáveis quando algo está a suceder, ou prestes a suceder, às criaturas que geraram em si. Um aperto, provavelmente, que as aperta inteiras.

Quando algo aperta, a melhor forma de o desapertar é, com frequência, apertar mais ainda, para que o nó aperte tanto que acabe, eventualmente, por rebentar. Isso: há nós que só se soltam quando apertados em excesso, seja lá isso o que for.

As mães são boas pessoas, por mais que sejam umas bestas. Uma mãe ama. Chega isso, no final do dia, para dizer que é boa pessoa. Amar alguém deveria ser condição mais do que suficiente para sermos considerados, unanimemente, boas pessoas. Bastaria comprovarmos, através de testes criados especificamente para o efeito, que amamos realmente alguém e desde logo teríamos direito a acrescentar às mais-valias no nosso currículo a menção: Boa Pessoa, com diagnóstico comprovado.

[a explicação do vírus]

Há amores que, mais do que sentimentos, são doenças. Uma doença é aquilo que, por definição, faz mal. Há amores que fazem mal, que ferem, que atacam, que nos correm no sangue como um vírus purulento se espalha no corpo, no mundo. Para que a cura do amor doente aconteça, é necessário, antes de mais, um antídoto: a vontade. É esse, na verdade, o único meio de fuga ao amor, e talvez seja por isso que não há, na verdade, qualquer fuga ao amor. Vive-se, na melhor das possibilidades, sem ele, o que é bem diferente, apesar de ser o mesmo, de viver sem ele. Nunca se vive sem um amor: está por ausência ou está por presença, mas não pode deixar de estar. Os amores serão, então, doenças sem cura, doenças crónicas com as quais temos de aprender a viver, ora sofrendo muito ora sofrendo pouco, mas nunca deixando de sofrer. Integrar a doença, por assim dizer, é o que resta.

[a explicação dos intelectuais]

Tudo o que vive um viciado é o vício, tudo o que sente um viciado é o vício, tudo o que procura um viciado é o vício. Tudo o que é um viciado é o vício.

O mundo académico, ainda mais o mundo académico de elite, é um mundo fechado, um submundo, no que isso tem de tenebroso e no que isso tem de maravilhoso. Existe, em alguns círculos, a ideia de que no meio dos génios tudo é genial, que estupidez. No meio dos génios impera, tácito, um medo de que ninguém fala, uma inveja sobre a qual ninguém se debruça. Entre os grandes intelectuais, tudo é passível de estudo, o que faz com que tudo seja passível de refutação. Há, no interior de um tecido composto por ideias, um perigo constante, sempre ao virar da esquina, uma espécie de bomba que todos sabem que carregam, e que todos sabem que os outros carregam, como uma corda pousada no pescoço sempre à espera de ser apertada. Ali, em nome de uma ideia, em nome da defesa de uma ideia, tudo é permitido. Ajudar o planeta é o alibi perfeito. Serve para justificar o que for preciso justificar. Matar um para salvar um milhão, dizem, para lavar as consciências de quem vive assim, de quem só consegue viver assim. O académico é, comprova-se sem precisar de recorrer a qualquer génio, um viciado da pior estirpe, um agarrado, um junkie. Procura reconhecimento, o miserável. É, no mínimo, pouco inteligente, reconheçamos. 

Sarar: v. Capacidade de encontrar, no meio do problema, o amor possível; não há solução sem amor.

Mais notícias de Dicionário do Amor

O amor é...

O amor é...

...aquilo que quando é inconfessável vale todas as confissões do mundo.
O amor é...

O amor é...

...aquilo que só é vergonhoso se não te fizer perder a vergonha.
O amor é...

O amor é...

...o jogo em que nunca sais a ganhar, porque se sais é porque já o perdeste.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!