Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

Notícia

O amor é...

... sinónimo e antónimo de ilusão, e de desilusão também.
20 de março de 2019 às 22:11
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O amor é...

[a explicação das inacções]

As perguntas retóricas, devo confessar, enfadam-me. São a prova de que quem as profere não é uma pessoa de actos. Quando algo assim nos acontece não se pergunta porquê nem como; afirma-se já: já te digo como elas mordem, já te mostro como se faz, já te dou uma lição. Só os cobardes fazem perguntas retóricas. Aliás, o próprio conceito de pergunta retórica causa repulsa. Gastar tempo, e palavras, com algo com produtividade zero, com resultados nulos, é uma imbecilidade. As perguntas retóricas são não-perguntas, que resultam, obviamente, em não-acções. Depois de uma pergunta retórica fica-se lamentador profissional: alguém que se queixa, que se lamenta, ai, coitado de mim, ai, o que vai ser mim?, ai, o que me foram fazer? Deixem-me só fazer uma destas, mas das boas: o que seria do mundo se só houvesse pessoas destas?

[a explicação da ilusão]

Duzentas vezes por dia. Estatísticas que consultámos em qualquer lado, não nos recordamos ao certo onde, mas podem acreditar em nós nisto, indicam que o ser humano mente, em média, duzentas vezes por dia. Poderá, neste momento, parecer uma informação pouco credível. Lá estão os artistas, essa ralé de más pessoas, a exagerar, sempre em busca da melhor hipérbole só para vender uma ideia, estarão muitos a pensar desse lado. Poderiam ter razão, já muitas vezes o fizemos e não hesitaríamos de novo em fazê-lo. Neste caso, apesar de tudo, não precisamos. Os dados são mesmo esses, não há aqui mentira nenhuma, viva a ironia. Mentimos em média duas centenas de vezes por dia, e basta pensarmos em falsos elogios como "esse penteado fica-lhe bem" ou em justificações como "estava muito trânsito e por isso me atrasei" para todos os fios se ligarem e todos entendermos os merdas que somos. Mentirosos compulsivos, todos, ou quase todos, criadores incansáveis de inverdades, de pai para filho, de filho para pai, de marido para mulher, de neto para avô, de amigo para amigo, de inimigo para inimigo. Uma corja doente, e doentia. 

Assume: ninguém vive sem mentir. De onde vem a mentira? Do receio das consequências, desde logo. Da insegurança ou reduzida baixa-estima, também. Por pressão externa, porque alguém nos pressiona demais e não aguentamos. Por acreditarmos que isso nos vai trazer benefícios próprios e claros. E, finalmente, por razões patológicas.

Há causas variadas para a mentira. O que é infalível é que ela existe, ela está por aí, e torna-nos seus reféns. É ela que, repetidamente, vende produtos, conquista audiências, elege governantes. Porque as pessoas, nós, preferimos uma boa mentira a uma razoável verdade, porque queremos esperança, e uma mentira na hora certa nos faz aguentar, prosseguir. Valerá uma ilusão feliz todas as desilusões do mundo?

Saúde: s.f. Aquilo que, quando falta, nos traz a consciência do que nunca nos faltou; a arrogância resiste a tudo — menos à doença.

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