Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas

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COMO F***DER UM CASAMENTO 11. MAGOAR.

Somos do tamanho do que impedimos em nós para magoar quem amamos. Em mim impeço tudo. Se sei que te pode magoar, paro. Se sei que te pode magoar, respiro, acalmo. E não faço.
26 de dezembro de 2019 às 00:00
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COMO F***DER UM CASAMENTO  11. MAGOAR.

Amo-te contra mim, se necessário. Contra os meus impulsos, as minhas tentações, as minhas necessidades, até.

O amor é maior do que tudo, até do que eu.

Tu não.

Tu magoas.

Tu atacas.

Tu feres.

Tu vais em frente mesmo quando sabes que vai doer, e doer muito, em mim se fores em frente. E tu vais.

Como pode ser amor magoar porque sim?

Perdoo. Tenho perdoado este tempo todo. Tenho fingido que sim, que faz parte. Mas não faz.

Magoar nunca pode fazer parte de amar.

Só sem querer, só por acidente. Só porque aconteceu sem que nada pudesse ser feito para o impedir. Só assim pode ser, talvez, perdoável. Digerível. Suportável.

Não aguento o que não suporto, lamento.

Sou só uma pessoa. Melhor: sou uma pessoa e isso em si é tão grande, tão intocável. Sou uma pessoa e mereço isso: ser uma pessoa. Uma pessoa não magoa outra pessoa. Uma pessoa não magoa, nunca nunca nunca, uma pessoa. Muito menos uma pessoa que ama, ou que diz amar.

Quando se ama não se magoa.

Parece simples e custa tanto, não é? Porque ser pessoa também é isso: também é raiva, também é maldade, uma pitada de monstro no meio do anjo. E é quando chega esse monstro que todas as pessoas têm em si que tem de chegar o amor, sabes o que é?, para se colocar à frente dele e dizer-lhe: parou. Acabou. Volta para trás. Aqui não entras. Aqui não atacas. Aqui não feres. Desanda, meu grande cabrão.

Amar tem de ser aquilo que afasta os monstros do meio de nós.

Eu consigo, já to disse. Consigo. Às vezes custa. Às vezes apetece mesmo dizer que se foda e ir em frente. E magoar. Mas aguento. Seguro o que sei que pode deixar-te lascas pelo caminho.

Amar é limpar, lasca a lasca, o nosso caminho.

Provavelmente estou a desistir. Provavelmente vou deixar de tentar. Vou deixar de tentar entender porque me fazes isto. Porque me dizes palavras que sabes que vão doer-me. E dizes. E redizes. E voltas a dizer. Como se quisesses ter a certeza de que chegaram fundo, de que remexeram fundo, de que me deixaram pedaços cortados, em carne viva, no interior do que te sinto.

Nunca se desiste de um amor que magoa propositadamente — porque se é um amor que magoa propositadamente não é amor nenhum.

Amo-te. Não sei se algum deixarei de amar. Se me perguntarem quem quero para sempre ainda digo que és tu. Pode acontecer que nunca diga outra coisa. Mas não te quero.

Tenho o direito de querer quem não amo se quem amo só me fizer mal, não tenho?

Tenho. Tenho de ter. E se não tiver passo a ter. Os direitos não existem; conquistam-se. Eu conquistei, em nós, o direito a ser feliz — mesmo que isso seja fora de nós.

O amor é o que tira de ti e te entrega a ti mais forte do que nunca.

O nosso não. O teu não. O teu tira-me de mim e nem sempre me entrega de volta. E quando me entrega de volta eu estou fraquinha, pequena, mirrada. Um resto do que fui antes de ti.

O amor é o que nos torna maiores, o que nos dá volume, densidade, espessura. O amor faz-nos pessoas porque uma pessoa é o que ama, pouco mais. Nada mais.

Podes não fazer por mal. Acredito mesmo que não o faças por mal. Acredito que saibas que é mau o que fazes, que é mau magoares-me assim. Mas fazes.

És o que fazes, não o que sentes — por mais que para ti sejas muito mais o que sentes do que aquilo que fazes.

Que nunca um amor justifique uma maldade.

É tão fácil dizer que é por amor. É tão fácil dizer que tinha de ser, que o fazes porque amas. Que treta.

Amor não é motivo para magoar pessoa nenhuma.

Magoar nunca é solução, só problema. Só causa de mais mágoa. E mágoa traz mágoa, e dor traz dor. E isso mata.

A dor mata mais do que a morte.

Quando voltares não sei se estarei. Estou aqui, perdida, a pensar no que vou fazer sem ti. Tal como tenho andado aqui, perdida, a pensar no que poderia fazer sem mim. É assim que tenho andado: sem mim. É isso o que me fazes: tiras-me de mim.

Quando voltares não estarei mesmo.

A única dúvida é se não estará o meu corpo também.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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