Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas

Notícia

COMO F*DER UM CASAMENTO 18. PASSAR UM DIA SEM UM BEIJO.

Saíste. E nem um beijo. Simplesmente foste. Tinhas certamente muito em que pensar, a empresa, as preocupações, as contas para pagar, os desafios que te esperam, mas foste sem um beijo. Deixaste um até logo distante, que quando foi falado já não estava aqui.
14 de fevereiro de 2020 às 23:00
...
COMO F*DER UM CASAMENTO  18. PASSAR UM DIA SEM UM BEIJO.

Todas as relações acabam quando as palavras ficam sozinhas.

E ficaram. Quando saíste hoje de manhã as palavras ficaram sozinhas. Tu não estavas lá. Não eras a minha mulher. Eras tu. Na tua vida. Nas tuas emoções. E eu estava fora delas. E por isso fora de mim.

Nada nos deixa mais fora de nós do que de repente sentirmos que estamos na parte de fora de um amor que ainda vivemos por dentro.

Ao longo do dia, falámos. Falámos duas vezes. Conversas curtas, práticas, prosaicas. Decisões para tomar, horas para marcar, compromissos para agendar. E no final o mesmo. No final o mesmo vazio, o mesmo vácuo para onde me atiraste. Nem um beijo. Aquele até logo que me mata. Aquele até logo que me consome. Um até logo que nem sequer é uma despedida porque já é dito por quem já não está.

Onde ficou o que um dia fomos?

Onde estás quando estás comigo?

Depois chegaste. Ao fim do dia chegaste e eu já estava e tu vieste e deste um abraço à tua filha e a mim nada. Ficaste logo ali, com ela. A perguntar-lhe da vida. A perguntar-lhe do dia. E eu gosto tanto que a ames assim mas também gostava que depois tivesses vindo e me tivesses olhado e me tivesses dado um olhar, bastava um olhar, e um beijo, bastava um beijo. Podia ser um beijo simples, sem mais do que presença.

Um beijo tem de ser no mínimo um sinal de presença.

Mas não. Não houve beijo nem olhar. Ficaste uns minutos na sala e depois foste tratar de ti. E eu ali, a olhar-te, a tentar disfarçar a cratera que me crescia no peito.

É tão grande o espaço que um vazio ocupa, não é?

Acabou a tarde, começou a noite. Trocámos palavras como se trocássemos  obrigações, como se fôssemos obrigados a partilhar o que só é partilhado quando não é uma obrigação.

Amar acabou quando se ama por obrigação.

Ali continuámos, os três. Jantámos, dissemos banalidades sobre assuntos banais, demos conselhos à nossa menina como se não fôssemos nós que precisássemos desesperadamente de aconselhamento. Depois ela foi dormir (é tão bonita a nossa menina, não é? Podíamos ter sido as criaturas mais infelizes do mundo juntas, e não fomos, que ainda assim teria valido a pena tudo o que vivemos para ela poder existir e ser assim; obrigado por ela, sim? Vou agradecer-te sempre por ela, prometo) e ficamos nós. O problema é quando ficamos só nós. Quando estamos só nós eu percebo que nós não estamos: estou eu, estás tu. Mas nós não estamos.

Um amor acabou quando no momento em que quando estamos os dois não estamos nós.

E acabou a noite. Tu disseste vou-me deitar e foste. Eu disse já vou lá ter e fui. Antes fiquei a ver algumas fotografias nossas. Fotografias do que nunca voltaria. Nunca voltaria aquela sensação de tudo, de estarmos tão inteiros um no outro que nem um milímetro ficava por preencher. Nunca voltariam aqueles beijos a toda a hora, aquela precisão a toda a hora, aquela urgência de teres a minha presença na tua a toda a hora. E eu continuo assim, garanto-te: continuo a ser o mesmo homem dependente da tua pele de sempre, e o mesmo desgraçado viciado em ti de sempre, continuo a sonhar com o dia em que voltes a ser a mulher que quis para sempre desde que continuasse a ser essa mulher para sempre.

Quando deixaste de ver em mim o que eu ainda continuo a ver em ti?

Quando cheguei à cama já dormias. E agora aqui estou, a pensar em tudo isto e a dar conta, pela primeira vez, de que pela primeira vez desde que nos conhecemos passámos um dia inteiro, vinte e quatro horas, vinte e quatro miseráveis horas da nossa vida, sem um beijo. Pela primeira vez na nossa vida desde que a vida é nossa não te senti os lábios que ainda são os donos dos meus. Pela primeira vez na nossa vida desde que a vida é nossa conseguimos aguentar sem  o outro como o outro teria de ser em nós. Pela primeira vez na nossa vida desde que a vida é nossa deixámos que a vida deixasse de ser nossa.

Esqueceste-te de mim e ficaste sem mim.

Finalmente estaremos a sentir o mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais notícias de COMO F***DER UM CASAMENTO Manual Prático para Mulheres e para Homens

COMO F*DER UM CASAMENTO  18. PASSAR UM DIA SEM UM BEIJO.

COMO F*DER UM CASAMENTO 18. PASSAR UM DIA SEM UM BEIJO.

Saíste. E nem um beijo. Simplesmente foste. Tinhas certamente muito em que pensar, a empresa, as preocupações, as contas para pagar, os desafios que te esperam, mas foste sem um beijo. Deixaste um até logo distante, que quando foi falado já não estava aqui.
COMO F*DER UM CASAMENTO 14. CEDER À PREGUIÇA

COMO F*DER UM CASAMENTO 14. CEDER À PREGUIÇA

CARTA AO PREGUIÇOSO ARREPENDIDO: Meu grandessíssimo burro, como querias tu que a paixão resistisse, que a nossa vida, tal qual a sonhámos resistisse, se simplesmente te deixaste cair na preguiça? Como?
COMO F*DER UM CASAMENTO  15. SER RACIONAL.

COMO F*DER UM CASAMENTO 15. SER RACIONAL.

Eu sei: a culpa é minha. A culpa é minha e desta minha cabeça que não pára de pensar. Que não pára de questionar. Que não pára de querer entender tudo e mais alguma coisa.
COMO F***DER UM CASAMENTO  11. MAGOAR.

COMO F***DER UM CASAMENTO 11. MAGOAR.

Somos do tamanho do que impedimos em nós para magoar quem amamos. Em mim impeço tudo. Se sei que te pode magoar, paro. Se sei que te pode magoar, respiro, acalmo. E não faço.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!
;