Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas

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COMO F*DER UM CASAMENTO 14. CEDER À PREGUIÇA

CARTA AO PREGUIÇOSO ARREPENDIDO: Meu grandessíssimo burro, como querias tu que a paixão resistisse, que a nossa vida, tal qual a sonhámos resistisse, se simplesmente te deixaste cair na preguiça? Como?
28 de janeiro de 2020 às 17:51
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COMO F*DER UM CASAMENTO 14. CEDER À PREGUIÇA

CARTA AO PREGUIÇOSO ARREPENDIDO:

 

Meu grandessíssimo burro,

como querias tu que a paixão resistisse, que a nossa vida, tal qual a sonhámos resistisse, se simplesmente te deixaste cair na preguiça? Como? Diz-me: acreditas mesmo que algo resiste ao mais-ou-menos, ao deixa-ver-se-chega-assim, ao cada-vez-mais-a-mesma-coisa?

O amor precisa de muita coisa, mas precisa mais do que tudo de trabalho.

Trabalho de sapa. Construir. Incansavelmente. Construir. Todos os dias. Sem parar. Tijolo a tijolo. E depois de estar construído tem de ser solidificado. Até nenhuma tempestade o poder derrubar — ou sequer abanar.

Só é amor quando resiste a todas as tempestades: só é amor quando nenhuma tempestade o consegue sequer abanar.

O nosso abanou. E abana. Abana a cada desilusão, abana a cada momento menos bom. Porquê? Porque deixaste de trabalhar, meu preguiçoso. Deixaste de te entregar todo, deixaste de dar tudo. Pensaste que não era preciso. Que só era necessário continuar. Manter o amor em velocidade de cruzeiro.

O amor ou é de prego-a-fundo ou está parado.

E um amor parado começa a cheirar mal, a apodrecer. E morre. Morre por falta de tentativa, por falta de arrojo, por falta de criatividade, até. O amor morre quando um dos dois que amam não ama activamente: quando simplesmente se deixa amar: se deixa andar.

Um amor que se deixa andar é um amor que não vai a lado nenhum.

Não sei, não sei mesmo, para onde vamos. Não sei mesmo se vamos para qualquer lado. Sei que estamos dentro de um labirinto para o qual só encontra saída quem trabalha em conjunto. Um tem de se colocar ao colo do outro, às cavalitas do outro, para tentar saltar os muros que nos rodeiam. Mas tu não estiveste disponível para a salvação. E agora provavelmente estaremos perdidos.

Um amor perde-se quando um dos que amam se deixa perder na preguiça.

Agora queres. Agora queres fazer tudo, mudar o mundo tudo, dar a volta ao que houver para dar a volta. Agora que te disse que me sinto a caminho de fora de nós queres vir inteiro para o meio de nós. Queres arregaçar as mangas. Queres colocar mãos à obra.

Não adianta deitar mãos à obra quando o edifício já caiu.

Estamos a cair. E eu ainda te amo. Ainda te quero. Ainda és o meu amor. Mas ainda és tu. Também ainda és tu. Também ainda és o homem que não quis construir comigo. Também ainda és o homem que não se deu ao trabalho.

Amar é darmo-nos ao trabalho.

Porque amar é maravilhoso mas dá trabalho. Tem de dar trabalho. O compromisso dá trabalho, a fidelidade dá trabalho, a paciência dá trabalho, a tolerância dá trabalho, o passar dos dias todos os dias dá trabalho. Um trabalho danado, um trabalho pesado. Um trabalho ao qual só os apaixonados resistem.

Amar é um desporto de alta competição.

Para atletas a sério. Que treinam. Que se entregam. Que ultrapassam limites. Que batem recordes — ou que pelo menos fazem tudo, tudo mesmo, para bater recordes.

Amar é a vitória suficiente para quem ama.

Não é preciso mais do que isso para todo esse trabalho valer a pena. Basta simplesmente a possibilidade de amar. A maravilha de amar. A benção de amar.

Amar é a recompensa de amar.

Simples, não é? E não o quiseste. Preferiste abdicar. Porque era mais fácil. E era. Ó se era. Era. Ainda é. É sempre mais fácil não amar. É sempre mais fácil culpar a vida, o mundo, o que nos acontece. Mas o que nos acontece às vezes é apenas o que fizemos com que nos acontecesse.

Amar é o que acontece a quem faz com que amar aconteça.

O amor pode até aparecer do nada, sem trabalho nenhum. Mas um amor que fica é um amor que foi trabalhado, burilado, até adaptado.

O amor só fica quando se adapta.

E a adaptação dá trabalho. Exige coragem. E responsabilidade. E força. E vontade. E sacrifício. Amar só é um sacrifício quando alguém que ama não está disposto a sacrificar-se por amor.

Quando se ama todos os sacrifícios não são sacrifícios nenhuns.

Por isso, meu grandessíssimo preguiçoso arrependido, de nada vale esse arrependimento se não vier acompanhado de trabalho. De trabalho a sério. De nada serve esse arrependimento se não quiseres carregar calhaus gigantes para levares o nosso amor para onde ele merece ir. Para onde ele tem de ir. Só aí deixarás de ser um burro e passarás a ser um apaixonado. Agora escolhe. Mas rápido, que isto de estar a carregar a nossa relação sozinha está a dar-me cabo das costas.

 

Com desilusão mas ainda tua,

Eu

 

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