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Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Como F**er um casamento?

Notícia

Como F**er um casamento? 5. Deixar de rir

Manual prático para mulheres e para homens.
08 de novembro de 2019 às 16:03
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Pedro Chagas Freitas

Onde foi que nos esquecemos de nós?

Onde estamos quando não estamos juntos? 

Pior ainda: onde estamos quando estamos juntos?

Quando estamos juntos temos de estar juntos. Um no outro. Podemos ter as nossas carreiras, as nossas preocupações individuais, claro, somos pessoas únicas e assim seremos sempre — mas nunca podemos ir para longe a fazer de conta que estamos perto, nunca podemos abrir a porta de casa e ir sem nunca sair do sofá ou da cama. 

Quando me amas estás mesmo a amar-me?

Não sei o que pode magoar mais do que isto, do que sentir que já não sou a pessoa que te faz estar, sempre estar, a pessoa que te agarra por dentro, que te prende pelas entranhas e te traz até ao que és.

Desde quando deixaste de rir comigo?

Faço o que posso, digo as piadas idiotas de sempre, faço os trocadilhos patetas que sempre te fizeram desmanchar — e nada. Ficas estática, parada. Simulas um riso aqui, outro acolá. Mas não ris. Não estás.

Talvez o final do amor seja o final do humor.

Talvez já não sejamos um para o outro o que pensava que éramos. Talvez esteja enganado. Talvez estejamos os dois enganados. Mas porque raios não ris? Porque raio não me dás esse riso? Porque raios não vens inteira como só inteira tens de vir?

Talvez o começo do fim esteja no final do riso. 

Chego a casa, faço uma careta, invento uma piada qualquer. E o teu sorriso abre-se. Meio sorriso, no máximo, para dizer a verdade. A verdade é que me ouves como ouves um carro a buzinar lá fora, ou a água a correr: inevitabilidades da tua vida, algo que está lá mas que não apaixona, que não mexe, que não te tira de ti. 

A verdade é que se já não te faço rir provavelmente já não te faço amar-me.

Nenhum amor resiste à ausência de humor, de ironia, de uma fuga ao sério. Levar um amor a sério é deixá-lo, regularmente, abrir a válvula do que é de brincar.

Um amor que não brinca é um amor que não existe. 

O amor ou é um parque de diversões ou é um funeral. 

Qual queres escolher?

*

Vou ser despedida e só quero que não me despeças também,

amas-me mesmo se eu for uma fracassada?,

já sei há uns meses que vai ser assim,

a empresa vai cortar postos de trabalho e tem de ser,

tanto tempo a trabalhar, tantos anos a dar tudo por aquela casa, por aquele nome,

e agora isto,

valemos tão pouco quando nos pisam, não valemos?,

somos carne para o canhão da ambição, para a voragem de quem não descansa enquanto não tem tudo,

e nunca se tem tudo, e por isso nunca se descansa,

nós que só queríamos o que tínhamos, só aquilo,

um tudo completo,

amar-te é um tudo completo,

vou ser despedida,

perdoas-me se te desiludo?,

que desgraça a minha,

não será a tua, eu sei,

estás tão bem no teu trabalho, na tua vida,

estávamos tão felizes mas isto dói, sabes?,

até a vontade de rir perdi,

não notaste, pois não?,

gosto tanto de quando rimos juntos, de quando fazemos palhaçadas,

a grande asneira é abdicar de fazer asneiras, não é?,

mas isto dói,

tenho medo de dizer que falhei, de dizer que perdi,

como dói o que falhamos, como dói, meu Deus,

sou tão pequena para tudo o que és, sou só uma pessoa normal e tu és esse gigante que salva vidas, que conquista, que arrebata, de quem toda a gente gosta,

por favor entende que te amo mais do que nunca mas não consigo rir como sempre,

certamente vais compreender, vais dizer que não faz mal, que cá nos arranjaremos,

e o teu olhar, o que farei quando o teu olhar baixar sobre mim e eu sentir que te deixei ficar mal?,

aguento tudo menos magoar-te,

porque magoar-te é o começo de todas as mágoas,

quando encontrar outro emprego conto-te tudo e vamos rir juntos, prometo,

prometes que esperas por mim no final do riso?

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