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Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Como F**er um Casamento?

Notícia

Como F**er um Casamento? 6. Abdicar da paixão

Não me beijes como se estivesses a lavar a loiça. Deixa-me ser a tua mulher, não apenas a tua esposa.
15 de novembro de 2019 às 20:02
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casal Foto: istock

Fala-se que a paixão acaba e o amor não,

que estupidez,

a paixão é um amor mais quente, a parte mais quente do amor, o amor que queima, que tumultua,

e não deixa de ser amor,

ama-me no intervalo entre o tumulto e a paz,

amar é no buraco da agulha, no interior do caos,

e da calma,

não acredito num amor quieto, estático, incapaz de um laivo de insensatez, de um momento periódico de inconsequência,

o fim da inconsequência tem consequências trágicas, ficas agora a saber,

beija-me de língua antes que a paixão passe,

não deixes que ela vá,

com ela vou eu, completa,

preciso de falta de respiração, de borboletas na barriga, de uma forma de realidade forjada,

preciso que sejas a minha ilusão mesmo que sejas também a minha realidade,

o desmoronar da ilusão é um veneno sem antídoto,

preciso que me consumas sem moderação,

o moderado que se vá encher de moscas,

nunca um moderado mudou o mundo, nem mesmo o seu mundo, muito menos o mundo de quem o ama,

o moderado é uma tristeza,

o beijo sem sal, sem língua, o beijo por obrigação,

não me beijes como se estivesses a lavar a loiça,

beija-me com amor,

e com paixão, sempre com paixão,

como foi o teu dia hoje, meu amor?,

e ficamos nisto, numa reunião pacata de companheiros, parceiros de uma vida sem lume,

sem amor,

o amor é um céu instável, de sol e de nuvens,

nunca um azul sem mexer,

que seca é um céu sempre azul, que porcaria é um casamento que se mantém sem nuvens,

são as nuvens antes e depois que dão ao sol a beleza que tem,

diz-me que me queres como um desgraçado, abraça-me com as mãos todas, aperta-me com o corpo todo,

deixa-me ser a tua mulher e não apenas a tua esposa,

entendes a diferença?,

eu entendo,

só não sei até quando te entenderei a ti.

 

*

 

Desculpa.

Estou a deixar-me vencer pelo cansaço. Pela falta de sono. Pela falta de mim no espaço dos dias.

A vida vai acabando quando deixas de a iniciar todos os dias como se fosse o começo. Porque é. Todos os dias são o começo da tua vida. Acordas todos os dias para o começo de ti. Ou então acordas todos os dias para o final de ti. Agora escolhe.

Desculpa.

Não sou capaz de ser o sonho que dissemos que seríamos — e que fomos, felizmente fomos, durante muito tempo. Agora sou um resto do que sou. Uma ausência de mim. Uma espécie de sucedâneo do que acreditei ser.

O sonho é escorregadio, fácil de perder. Para o segurar temos de ter mãos fortes, um coração vivo — e sobretudo uma atenção extrema ao lugar onde o guardamos.

Desculpa.

Deixei que o sonho que nos prometemos caísse. Uma vez, e outra. E outra. E com tantas quedas fomo-nos esquecendo do quão frágil ele é — do quão frágeis nós somos. Fui-me entregando ao quanto baste. Que abominação é o quanto baste, que merda é o quanto baste.

Desculpa.

Já não sei a que sabe o teu beijo. Não sei quando raios deixei de o querer inteiro, absoluto. Matamo-nos quando deixamos de nos dar vida. Amar é dar vida. Amar é sempre dar vida.

Desculpa.

Mas vou corrigir — vou corrigir-me. Já marquei a data para o final deste emprego que me afasta de ti — e mais ainda de mim. É uma decisão inconsequente, eu sei. É uma criancice, talvez: onde é que já se viu abandonar um emprego de tanto tempo sem ter sequer outra saída à vista? Mas tem de ser. Temos de ser. Estou a ver-nos desaparecer.

Desculpa.

Depois vamos ser só nós. Depois hei-de encontrar outro caminho. Outra solução. Havemos de sobreviver desde que nos tenhamos juntos para viver. Tudo em nós passou. Menos nós.

Desculpa.

E até já.

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