Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Como F**er um casamento?

Notícia

Como F**er um Casamento? 7. Perder a curiosidade.

Estou a perder-te, sei que estou, e não consigo mudar, não consigo acordar, o mais perigoso é o tédio, o não saber como sair dali, de um buraco que sabemos que fomos nós que cavámos, e que quando mais nos mexemos mais fundo vai ficando.
26 de novembro de 2019 às 21:56
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Como F**er um Casamento? 7. Perder a curiosidade.

Não sabes. Não queres saber. Faço mil e uma coisas e nada dizes. Penso mil e uma coisas e nada procuras perceber.

Amar é querer saber, ficas agora a saber.

A curiosidade não é algo que faz bem a uma relação; a curiosidade é aquilo que mantém um casamento inteiro.

Sem curiosidade, sem constante procura, sem constante busca pelo que o outro é, quer, sente, deseja ou deixa de desejar, sem isso não há uma união, nem sequer uma parceria, muito menos um amor; há um espaço que aos poucos vai ficando por preencher, um espaço que vai aumentando, um vazio cada vez maior, e cada vez mais frágil.

O que apaixona é sempre a curiosidade, sempre, sempre.

O que apaixona é o novo: é querer saber mais. E se não queres saber mais da mesma pessoa vais ter de ir buscar a novidade a outras pessoas: se não podes encontrar a novidade na pessoa de sempre vais procurar a novidade que é sempre uma pessoa nova.

Por favor tenta saber de mim.

Por favor volta a tentar saber de mim. Pergunta-me o que fiz, o que quero fazer. Pergunta-me o que sonho fazer, o que nunca pensei fazer mas acabei por fazer. Pergunta-me tudo, tudo, porque quero que tudo sirva para nos salvar da ausência.

Um amor sobrevive a muitas ausências; mas nenhum amor resiste à ausência de quem nele habita.

Quando te conheci eras isso: foi também isso o que me apaixonou em ti. Essa urgência em me saberes. Era a tua mulher e era a tua musa e era a tua fonte de saber, de informação. Consumias-me como se precisasses de mim para saberes de ti.

Amar é precisar de saber do outro para sabermos de nós.

Amar é o que nos localiza: estamos localizados no lugar que amamos. Sem ti, sem que queiras saber onde estou, fico sem entender o que me segura a mim. E inexoravelmente a ti.

Onde estás quando quero dizer-te que estou triste? Onde estás quando quero dizer-te que estou cansada, ou amuada, ou desalentada, ou motivada? Onde estás? Onde estás? Onde estás?

Amar é querer saber onde está quem amamos. E ser lá o exacto sítio onde queremos estar.

Já não estou certa disso, sabes?

Não sabes, claro. Não queres saber.

Pode ser que em breve não consigas mesmo saber.

*

Estou a perder-te,

o que dói mais do que saber que estamos a perder quem nos faz não nos perdermos?,

estou a perder-te, sei que estou, e não consigo mudar, não consigo acordar,

o mais perigoso é o tédio, o não saber como sair dali, de um buraco que sabemos que fomos nós que cavámos, e que quando mais nos mexemos mais fundo vai ficando,

o mais perigoso é o cabrão do tédio,

a cabra da preguiça,

deixei-me parar aqui, diante da incomparável felicidade de te ter, e adormeci ali, a contemplar sem proteger,

um amor não se contempla,

protege-se,

com tudo o que temos, com tudo o que somos,

porque é aquilo tudo o que somos,

és tudo o que sou, é isso que te quero dizer,

e nunca digo,

mantenho-me abúlico, sitiado numa malha de incapacidade,

sinto-me pouco para ti e quanto mais me sinto pouco para ti mais pouco para ti vou ficando, entendes-me?,

apouco-me de cada vez que te vejo mais gigante,

és tão grande,

amo-te tanto, minha rainha,

e sei que não querias que me ficasse por aqui, simples servo,

queres fazer de mim o teu rei quando nem sobre o que sou consigo reinar,

és a que nunca vou merecer,

é essa a consciência que me impede de te merecer mesmo,

quando me olhas e me pedes sem uma palavra para te procurar sou eu que não me encontro,

ficarei sem ti porque não te quero perder,

que estupidez,

é o meu medo de te perder que me fará perder-te,

não sei o que faço para reagir,

e sei que me bastava mesmo isso,

reagir,

se um dia voltar a casa e não estiveres sei que te perdi por ausência,

pior do que a ausência é a falta de presença, penso agora, e percebo que são coisas bem diferentes,

nunca me ausentei mas também raramente estive presente,

estava a pensar na melhor maneira de te agradar,

e isso fatalmente te desagradava,

quando um dia te lembrares de mim recorda-me como o cobarde que nada fez porque temia as consequências de tudo o que fizesse,

mas basta-me que me recordes seja como for para cada segundo nosso ter valido a pena,

prometes, prometes?

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