Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Como F**er um casamento?

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Como F**er um casamento? 9. Lembrar tudo

A ausência é constantemente o que dói: o que de repente, ou não tão de repente assim, deixamos de ter. Melhor ainda: o que de repente, ou não tão de repente assim, deixamos de sentir.
06 de dezembro de 2019 às 00:00
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Como F**er um casamento? 9. Lembrar tudo

Tenho a sensação de que o mundo é um pássaro de barro, sabes? Uma ironia cruel: para quê ter asas se não as podemos mexer?

Estou deitado no quarto fechado. À minha volta as lembranças.

À nossa volta estão sempre as lembranças, uma espécie de barro que nos impede o movimento.

Magoa-me o que já fomos, muito mais do que aquilo que ainda somos.

A insuficiência não é o motivo para a infelicidade, somente a felicidade recordada.

Somos o que conhecemos.

Nunca ninguém que nunca foi verdadeiramente feliz é verdadeiramente infeliz.

A ausência é constantemente o que dói: o que de repente, ou não tão de repente assim, deixamos de ter. Melhor ainda: o que de repente, ou não tão de repente assim, deixamos de sentir.

Qual é mais infeliz: o que nunca amou ou o que deixou de amar?

Eu estou algures entre os dois. Magoa sentir algum espaço vazio no que outrora ocupava tudo.

O que fere não é o espaço vazio: é o espaço desocupado, o espaço que outrora nos fazia plenos e agora nos faz incompletos.

Fomos o irrespirável, o arfar, o gemido, a ansiedade, a ânsia, até a angústia, e a saudade, e o medo, a aventura, o arrojo, o risco, o suor, a roupa espalhada, os lençóis amarrotados. É nisso que penso quando nos olho agora.

A infelicidade é pensar no que já não é, no que jamais voltará a ser.

O que somos é bom, muito bom. Somos a respiração calma, a paz, as palavras doces, o abraço protector, o beijo envolvente, o cuidado, a ternura, a segurança, o refúgio, a amizade maior, a intimidade serena, a cumplicidade, o afago, a gentileza, a preocupação. Tudo tão bom. E no entanto.

A puta da recordação.

A puta da recordação deixa-me triste, a comparação deixa-me triste. Talvez porque já não volta o que já fui, talvez porque é a prova de que o tempo passou — e com ele nós, o que fomos nós, passou.

O tempo só passa quando não tem volta.

Não temos. Não temos volta. Tudo o que lembro de nós é melhor do que tudo o que sinto de nós.

 A morte é apenas o momento em que tudo o que te deixa feliz já aconteceu.

E nós, lamento, somos cada vez mais o que fomos.

 

*

 

Estamos tão crescidos, meu amor,

lembras-te do quão inconsequentes éramos quando nos metemos por aquela estrada de madrugada e fomos sem destino só à procura de nós?,

o amor é irmos à procura de nós, eu sei,

mas é isso o que também agora fazemos, não é?,

temos um espaço partilhado,

temos um templo de amor, não achas?,

sabemo-nos tão bem,

o amor é sabermo-nos bem, eu sei,

quando um está triste o outro sabe e aproxima-se, sem querer salvar mas apenas para querer estar, cuidar, ouvir,

amar,

o amor é estar, cuidar, ouvir, eu sei,

sou a tua mulher e tu és o meu homem, que silêncio haverá maior do que este?,

a felicidade tem tantas faces, há tantas maneiras de sermos felizes, graças a deus,

e a nós, sobretudo,

que soubemos andar juntos, ficar mais fortes juntos, entender que é muito mais o que se ganha do que aquilo que se perde quando se ganha idade,

envelhecer só acontece aos velhos,

aos que se deixam derrotar com a idade, como se mais um ano fosse menos uma possibilidade,

cada dia é mais um dia de nós, já viste que sorte?,

estás no quarto, dormes e eu penso em ti,

amo-te, eu sei,

quando penso em ti amo-te ainda mais,

por vezes apetece-me abraçar-te só por me teres dado a oportunidade de viver contigo tudo o que passámos a ser,

somos tão grandes quando amamos, não somos?,

a idade leva-nos tudo menos o amor,

obrigado,

amo-te,

nunca te esqueças.

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