Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do Amor

Notícia

Pedro Chagas Freitas: Mar

Mar: s.m. Sinónimo perfeito de equilíbrio – e sinónimo perfeito de desequilíbrio; somos no interior da vida a areia no interior do mar: sabemos tão pouco de para onde vamos, e mesmo assim vamos, enrolados uns nos outros se pudermos, e soubermos, até que algum silêncio nos desassossegue do susto. Mas antes um navio afundado do que um que está sempre estacionado.
24 de julho de 2017 às 06:00
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Pedro Chagas Freitas: Mar

(o amor é o que é e o seu contrário)

Amar é anjo, é tesouro, é fogo.
Amor é saudade, chicote, doença.
Amor é medo, sacrifício, proximidade.
E crescimento, e esperança, e fé.
Amor é luz e tormento, sagrado e trégua, êxtase e primavera.
Amor é loucura, sonho, violência, refúgio.
Amor é prazer.

Amor é diabo, é banal, é gelo.
Amor é presença, afago, saúde.
Amor é coragem, satisfação, distância.
E perda, e descrença, e desilusão.
Amor é sombra e consolo, profano e guerra, desencanto e outono.
Amor é lucidez, realidade, paz, perigo.
Amor é aflição.

Amamos o que amor nos dá, por mais que o que amor nos dá seja também o oposto do que o amor nos dá.

Amamos o que amamos, e não fazemos ideia da razão por que amamos.

Amamos porque sim, e também amamos porque não, na verdade (e também muitas vezes na mentira, convenhamos).

Amamos com uma lógica especial, uma lógica inventada mas completamente coerente e absolutamente incoerente (e será assim que o que interessa nesta vida de deus e do diabo se pode viver, com tanto de coerência como de incoerência: e a soma de ambas tem de dar algo com sentido, ou sem sentido mas sentido, profundamente sentido).

Amamos o que podemos, e mais ainda, tantas vezes, o que não podemos.

Amamos com o único motivo de amar, apesar de amar não ser motivo algum, apenas todos os motivos num.

Brinco com as palavras há mais de uma página para evitar entrar no que dói, entrar no que me faz escrever-te esta carta de amor que de ridícula tem o que todas as outras têm, e que de mim tem o que só esta terá.

Brinco com as palavras para que não as veja como incapazes, como pequeninas, como sub-palavras para uma super-vontade.

Não sei como te ganhei, mas sou feliz. Não sei o que vês em mim mas amo mais ainda os teus olhos quando te vejo nos meus. Serei porventura o teu prazer culpado, a tua mania oculta, mas pouco me importa. Importa-me continuar no centro dos teus passos, ao lado do teu abismo, a proteger-te como se fosses a salvação do mundo, e farto de saber que és o fim do meu. Não te digo as frases certas, não te dou os poemas que um génio te daria, dou-te o verso incompleto, o poema impotente, a minha rendição provavelmente. Desisto de ti quando deixares de ser o que me impede de desistir, quando abdicar dos teus lábios para poder beijar, ou das tuas fantasias para poder sonhar. Desisto de ti no dia em que tiver de ser, e rigorosamente na véspera (ou no próprio dia) de me perder. Desiste-se de tudo menos do que não acaba por mais que se desista.

Amor é o que fica de nós depois de nós, e antes de nós.

Amor és tu, e se possível eu.

Amor, pode ser?

Mar: s.m. Poça de água mais sobrevalorizada do mundo; somos o que vemos no que está diante de nós: para quem ama, a praia é uma espécie de paraíso; para quem não ama é um deserto pequeno. Nada é unânime, perdoem-me o contrassenso.

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