Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Palco

Palco: s.m. Espaço só conhecido pelos corajosos — e só invejado pelos cobardes. Falhado não é o que é assobiado — é o que se esconde com medo do assobio.
26 de fevereiro de 2018 às 10:46
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Palco

Quando acordar vou brincar,

os legos, os playmobile, a bola no parque,

chuta, puto, que pareces o Ronaldo,

o meu pai parece Deus,

desenhei-o no outro dia no infantário e a Dona Mindinha adorou,

desenhei o meu pai, não Deus,

deus desenho amanhã,

hoje não que vou brincar,

acordamos para brincar,

qualquer criança vê isto,

e mais ainda pratica isto,

anda daí, puto,

parece que já ouço o meu pai,

toma o pequeno-almoço, Pedro,

a minha mãe,

a chata mais linda da história do mundo,

e eu tomo,

leite com sopas, claro, para crescer e ficar grande como o Action-Man, cheio de músculos,

à homem, puto,

e daqui a pouco acordo,

para brincar, havia dúvidas, não?,

acordamos para brincar,

já tinha dito isto, não já?,

Quando acordar vou tremer,

a setora de inglês, o exame,

e a Carlota,

ai, a Carlota,

se vier com a camisola preta justa juro que não me aguento e lhe digo a verdade completa,

só ainda desenhei Deus nu porque ainda não te vi nua,

Deus me ajude,

e a dispa, já agora,

sou o melhor aluno da escola só para a poder impressionar melhor,

há muitos motivos para sermos os melhores em alguma coisa mas o amor é sem dúvida o melhor deles,

e na verdade o único, se pensarmos bem nisso,

ainda bem que ela aprecia a inteligência,

se apreciasse o talento para jogar à bola, por exemplo, estava bem lixado,

a bola para mim é bicuda, um objecto estranho,

sou o anti-Ronaldo, digamos, a completa antítese de tudo o que é saber o que é uma bola de futebol,

uma bola qualquer, sejamos sinceros,

acordamos para tremer,

qualquer pessoa vê isso,

muito mais um adolescente cheio de dúvidas como eu,

ninguém é adolescente muito tempo, valha-nos isso,

mais a mim, que ainda o sou,

a Carlota com a camisola preta justa,

e eu de todas as cores a vê-la passar,

a setora de inglês, o exame

que medo,

de a Carlota não me chamar de volta, que mais?,

acordamos para tremer,

já tinha dito isto, não já?,

Quando acordar vou chorar,

a minha menina, a minha princesa,

quatro anos de lágrimas felizes acabados de fazer,

deste-te bem, puto, sempre soube que eras um génio, só me enganei no talento, e ainda bem,

sim, pai, sou,

génio é amar,

e eu amo,

quatro anos da minha princesa,

obrigada,

amo-te, rainha,

a minha Carlota,

como consegui que me amasses, como?,

talvez tenha sido aquele desenho teu que coloquei às escondidas no altar da Igreja do bairro,

fiquei meses sem sair de casa de castigo,

a cara de choque da aldeia toda a ver uma mulher nua ao lado de Deus,

blasfémia, eu sei,

tinhas de estar acima dele, claro,

deuses estão no altar, como não perceberam logo,

descrentes, pessoas sem fé, é o que é,

o teu riso,

amo a vida a cada vez que amas a vida,

acordamos para chorar,

nada do que não me fez chorar existiu,

somos o que nos faz chorar,

a negativa naquele exame de inglês, a cara de desilusão da professora,

e no entanto a tua resposta,

sim, sim,

sim,

no recreio da escola,

sim,

a minha vida a mudar para sempre,

a minha vida a começar para sempre,

amar é o nascimento interessante, aquele que sentimos mesmo, sabes?,

a negativa mais feliz da história do mundo,

chora-se para sangrar por dentro,

um sangue bom, um sangue com liberdade dentro,

um sangue revolucionário, pode dizer-se assim,

chora-se para não explodir,

para não implodir,

a minha menina,

quatro anos de lágrimas felizes,

deste-te bem, puto, és o Ronaldo da tua vida,

génio, pai, é o que sou,

quando morrer agradeço à mãe, prometo,

e tomo o leite com sopas com ela lá, combinado, velhote?,

obrigada,

obrigado eu, minha Carlota,

acordamos para chorar,

já tinha dito isto, não já?,

Quando acordar vou amar,

(...),

mas não acordou,

Palco: s.m. Subida perigosa ao topo de ti; é quando mais te expões perante o outro que mais precisas de ti para te segurares.

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