Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Papão

Papão: s.m.: aquele que não é necessariamente bicho; mau não é querer comer muito — mau é querer comer aquilo a que não temos direito.
03 de abril de 2018 às 22:21
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Papão

quando te disseres que a vida custa,

que te dói o trânsito interminável, as filas inacabáveis,

e a constipação, cabrona, que não te deixa respirar direito,

quando te convenceres de que és um coitado,

com o teu horário das nove às cinco no teu escritório no centro da cidade,

e o teu patrão que é um chato,

e a tua mulher ou o teu homem que só te chateiam com pedidos e coisas e tal,

quando acreditares que sofres muito,

porque tens de lavar a loiça,  a roupa, passar a ferro, estender tudo,

dar a comida aos filhos, levá-los à escola, estudar com eles,

dar-lhes um banho ou um carinho, um grito ou um castigo,

e no final do dia já se acabou o dia, e tu com ele,

quando tiveres a certeza absoluta de que és infeliz,

pois não tens o carro que a tua amiga tem, a casa que o teu amigo acabou de comprar,

e estás cansado ou cansada de continuar, desgraçado,

toda a vida a ver a vida passar, como aguentas?,

quando te acontecer tudo isso que te acabei de dizer

é bom que te lembres de que houve um dia um homem que esteve sete dias fechado numa caverna com ratos e cobras e saiu de lá com um sorriso grande de uma vida inteira,

saberás o que é estar feliz quando se sai de uma caverna com ratos e cobras?,

claro que não sabes, como saberias?,

tu és o coitado que aguenta o trânsito e as filas, seu herói,

e depois podes também lembrar-te de uma criança que perdeu os pais num acidente de viação, e depois perdeu a irmã para uma doença, e que aos seis anos ficou sozinha com os seus sonhos,

e essa criança hoje, vê lá tu, é a presidente de um país importante, criou os seus filhos, tem o seu marido,

e tu sofres que nem um cão, não é?, a lavar a tua loiça, a tua roupa, e de seguida a estendê-la e a passá-la, que herói,

podes ainda lembrar-te daquele adolescente que era um craque da bola e um dia ficou paralítico, ninguém sabe como, nem os médicos,

era o melhor da equipa e de repente não andava, nunca mais andaria,

vi-o ontem de olhos a brilhar porque conseguiu finalmente encontrar a mulher da sua vida, e ela empurrava-o feliz, e ele era empurrado feliz,

nada que se compare ao teu triste destino de não teres o carro que a tua amiga tem, ou a casa que o teu amigo acabou de comprar,

é claro que a ambição existe, e ainda bem,

é claro que podes e deves querer mais, porque não?,

é claro que o tempo a passar é só tempo a passar se não tiveres nele mais do que só tempo a passar,

mas por favor deixa-te de peninhas, deixa-te de queixas, deixa-te de tentares fazer de ti o coitado que não és, o desgraçado que nunca foste, o infeliz que nunca serás,

és um homem como eu e tu, e faltam-te coisas e tens coisas, e és exactamente o que te deixares ser por mais que não te deixem ser tanta coisa,

hoje vais errar, amanhã vais falhar, depois de amanhã vais voltar a errar e a falhar,

mas o que nunca vais ser é incapaz absoluto,

se nem o homem que ficou fechado numa caverna com ratos e cobras o foi, se nem a criança que perdeu os pais e o irmão o foi, se nem o adolescente que ficou paralítico o foi,

adapta-te mas não te resignes, Deus te livre,

reconstrói a rotina, dá-lhe um toque de imprevisível,

compra uma rosa e dá a quem amas, ou não dês rosa nenhuma e dá apenas um beijo sem que ela espere,

passeia à beira-mar e se não tiveres mar à beira passeia na mesma,

os passeios não são pelos lugares em que passeias, são pelas pessoas com quem passeias,

e se os filhos te dão trabalho, e se a tua mulher ou o teu marido te exige atenção, talvez seja bom agradeceres por teres filhos que te dão trabalho, por teres pessoas que te exigem atenção,

já viste que sorte?,

vai, corre para eles e mostra-lhes que os queres, que os precisas mesmo que amiúde te pareçam a mais, demais,

nunca há amor a mais, fixa isso,

e pratica isso, mais do que tudo,

se estiveres sozinho pensa e emociona-te, relembra e vive o que já viveste e mais ainda o que podes viver,

não te deites à sombra da bananeira mas nunca temas deitar-te à sombra da bananeira se é lá que és feliz,

abraça os teus filhos, os teus pais, os teus netos, os teus sobrinhos, os teus amigos e as tuas amigas,

abraça até os teus colegas de trabalho, porque não?,

diz-lhes que são pessoas e que és uma pessoa, e que todos vão morrer,

porra, todos vão morrer, porque não chega saber disto para todos se fazerem bem?,

canta, canta que nem um louco, canta as cantigas de que gostas e até as de que não gostas,

viver é muitas vezes ser capaz de sentir o que não se gosta, ser capaz de encaixar o que não se gosta,

dizia-te para cantares, e digo-te outra vez,

canta, canta para ti, para quem te quiser ouvir, mesmo para quem não te quiser ouvir, que aguente, ora essa,

quando te quiseres ver como o que não consegue ser o que tanto gostaria de ser pensa no homem e na caverna, na criança e na solidão, no adolescente que parou de andar,

e se eles conseguem tu consegues, como todos conseguem,

e vai, vai para o teu emprego das nove às cinco como se fosses a pessoa mais afortunada do mundo,

porque se calhar,

já pensaste?,

és mesmo.

 

Papão: s.m.: Criatura que passa a vida a querer mais e mais e mais — e que não tem medo de o assumir.  O mesmo que humano: antes papão do que sonsão.

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