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Filho de Paula Rego: "Fiz este filme para conhecer e entender a mãe"

Os abortos. As infidelidades. A depressão crónica. Nick Willing, filho da pintora, realizou 'Paula Rego, Histórias & Segredos', que estreia esta quinta-feira, 6 de abril, nos cinemas. Antes falou com a FLASH! e revelou o lado secreto da pintora.
Por Isabel Laranjo | 06 de abril de 2017 às 09:00
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Nick Willings é o filhos mais novo de Paula Rego e do pintor britânico, já falecido, Victor Willings. Dirige o museu dedicado à mãe, em Cascais, a "Casa das Histórias - Paula Rego". E foi em busca das histórias mais secretas da mãe que se embrenhou, no documentário que agora estreia em Portugal.

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Nick Willing, 56 anos de idade, realizador é o filho mais novo da pintora e o guardião das suas obras na "Casa das Histórias - Paula Rego", em Cascais. Agora, realizou um documentário sobre a vida da mãe
O realizador, que viveu parte da infância em Portugal, lembra-se de a mãe se isolar, para pintar, e deixar os 3 filhos entregues a si próprios, na floresta que rodeava a casa onde moravam, na Ericeira. "O pincel sempre foi mais importante", explica Willings, em entrevista ao site FLASH!.

Nick Willings pediu à mãe, apesar de saber do seu feito reservado, para aceder a fazer este documentário. O objetivo era muito íntimo: "Fiz este filme para entender e conhecer a mãe. Para compreender por que é que o pincel era mais importante do que eu". 

Fala português e bem. Por que é que resolver fazer o documentário em língua inglesa?
Porque fi-lo para a BBC. Senão, seria em português. Gosto muito mais de falar em português, é uma língua mais engraçada. Só que a mãe também é muito popular em Inglaterra. Eles gostam muito dela.
Quando comecei a fazer o documentário comecei a fazê-lo para mim próprio. Fiz este filme para conhecer  e entender a mãe melhor. Acabei por mostrar, pouco depois do início, à BBC, porque precisava de dinheiro para fazê-lo bem feito. E eles adoraram!

Gostaram desta ideia, então?
Sim. A minha mãe sempre foi muito reservada e as obras sempre foram muito misteriosas. Ver algo coisa assim, que dá um olhar mesmo sobre a mente da minha mãe, é algo especial para os ingleses. Para mim também, claro. Mas só por isso é que falámos em inglês.

Estreia do documentário 'Paula Rego, Histórias e Segredos' revela intimidade da pintora, pelo olhar do filho
Uma das imagens de abertura do documentário, que tem a duração de aproximadamente 90 minutos
Paula Rego
Nick Willing, 56 anos de idade, realizador é o filho mais novo da pintora e o guardião das suas obras na
O documentário 'Paula Rego - Histórias & Segredos' estreia na quinta-feira, 6 de abril, nos cinemas portugueses
O filho da pintora ficou a saber de muitas histórias íntimas da mãe que desconhecia: os vários abortos, casos extraconjugais e toda uma série de quadros que pintou, em segredo, num período de depressão profunda
Nick Willing prepara a próxima exposição, com obras mais antigas da mãe, e outras mais recentes, como as da série sobre o aborto, feitas em 1998
O museu dedicado à obra de Paula Rego situa-se em Cascais
Em entrevista ao site FLASH!, o realizador recorda também o pai, o pintor britânico Victor Willing, que começou a namorar com a mãe quando ainda era casado com outra senhora. O casal teve sexo no primeiro encontro, uma história secreta que chocou o filho
Uma perspetiva da anterior exposição que esteve patente na
Paula Rego
Paula Rego

Sendo a mãe uma pessoa tão fechada, por que é que acha que ela aceitou fazer este documentário, em que faz tantas revelações inéditas, sobre a sua própria vida?
Porque eu pedi. Tenho muito charme e ela não pode dizer 'não', às vezes. Somos muito amigos. E naqueles tempos estávamos mais perto. Foi numa altura em que estava a fazer um negócio para a "Casa das Histórias", durante a crise, aqui em Portugal. Visitava a mãe todas as semanas e passava os sábados com ela. Discutíamos isto e aquilo, esta exposição, o que vamos fazer aqui e ali. Por vezes ríamos, às gargalhadas, e ficámos mais próximos. Depois, eu perguntava coisas sobre as obras e ela contava-me histórias que eu nunca tinha ouvido.

Houve alguma história que o espantasse?
Eu? Fiquei espantado com quase tudo!

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A artista, no seu atelier, em Londres
Ela conta histórias incríveis e até, de certo modo, chocantes: a maneira como a mulher era vista em Portugal, a decisão difícil de ter a sua irmã mais velha, os abortos que fez, as relações extraconjugais. O Nick sabia disso?

Bem, as histórias que eu conhecia, conhecia de uma maneira um bocadinho diferente. E há muitas histórias desconhecia. Sabia que a mãe tinha feito um aborto ou dois, mas não sabia que era daquela forma tão frequente.

Quando a mãe fez as obras sobre o aborto, em 1998, ela disse que não tinha feito abortos. Ela fê-lo porque não queria que o público virasse as atenções para ela. Queria que as pessoas vissem as obras como se ali estivessem representadas as filhas deles próprios, as irmãs, as mães. Agora é um tempo diferente. Já estamos a viver num tempo mais civilizado. Temos clínicas próprias para fazer aquilo e é bom.

No documentário, a Paula diz que pode pôr, nas obras, todos os sentimentos. É interessante, porque chega a dizer que, num dos quadros que fez sentiu compaixão por Salazar, que era alguém que odiava.
Sim. É interessante. Isso quer dizer que não nos conhecemos a nós próprios assim tão bem. Com a arte a mãe podia descobrir coisas que não sabia. E é por isso que ela faz arte. Podia descobrir coisas que sentia. E isso aplica-se a quase tudo o que ela faz. É costume ela começar com uma história qualquer – que pode ser conhecida, como ‘O Crime do Padre Amaro’, ‘Peter Pan’ – mas ao fazer a obra a história muda. Por vezes ela não sabe onde vai parar, o que vai acontecer. De repente vê que tem uma memória de infância. E lembra-se de coisas que tem reprimidas. É a isso que chamo o segredo da pintura. 

Como é que é a Paula Rego para lá da pintora? Como é que define a sua mãe, enquanto pessoa?
É uma pessoa que ri muito. Tem muita alegria. Quando estou com ela estamos sempre às gargalhadas. É alguém que gosta muito de histórias: de as ouvir e de as contar.

Daí o nome deste museu ser "Casa das Histórias"?
Sim. Porque todas as obras que faz contam histórias. E isso é o mais importante para a mãe. De resto, é alguém que adora cinema, que está interessada em tudo e também é uma pessoa que sofre de depressão. Sempre sofreu. Mas acho que é uma boa pessoa. É honesta, não tem feitios. A mãe nunca teve feitios.

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A pintora com o marido, Nick Willing, nos anos 60, quando moravam na Ericeira
Quando era criança, a mãe isolava-se para pintar. Não vos dava, a vocês, filhos, grande atenção.
E ainda hoje é assim. O mais importante para a mãe é a pintura. Era uma escolha entre o pincel e o bebé. E o pincel sempre ganhou, sempre foi mais importante. Percebi isto muito bem desde sempre. Agora, queria perceber as obras melhor, para entender porque é que eram tão importantes. Porque é que eram mais importantes do que eu. É irónico, porque agora sou eu que tomo conta das obras dela, neste museu (risos).

Em miúdo, estranhava esse comportamento da mãe? Sentia-se triste?
Claro! Eu gostava tanto de estar com a minha mãe. Não era tanto por ela estar escondida no estúdio. Era mais quando desaparecia para outro país. Quando ia viajar com o meu pai, desaparecia para Londres, e eu ficava com os meus avós no Estoril. E tinha saudades dela, e do meu pai também. Mas sempre foi assim, desde pequeno. Era assim.

Como é que olha para a história de amor dos seus pais?
É uma história… Eu tenho um bocadinho de ciúmes desta história. É de muito sofrimento mas de uma paixão muito intensa. E é por isso que tenho um bocadinho de ciúmes. Gostava de viver uma igual. Eles não só se entendiam um ao outro, como entediam as obras, os trabalhos. Discutiam o que estavam a fazer, o que era importante.

A relação dos seus pais começou de uma forma diferente do comum, porque o pai ainda era casado. A evolução também não foi a mais comum. Aliás, a dada altura a sua mãe diz que é possível amar uma pessoa, com a mesma intensidade, e ter outra, porque essa paga as contas. Isto choca-o?
Não. Eu também conheci o Rudy. Era um grande homem, fantástico. Gostava muito dele, tinha uma piada enorme. E a mãe teve muitos namorados depois de o meu pai morrer.

Mas este surgiu enquanto a mãe e o pai estavam casados.
Sim, mas a mãe teve muitos namorados enquanto estava casada com o pai. E o pai também.

Como é que encara isso?
Quando era pequeno não sabia. Eles eram muito reservados. Não hippies, não eram boémios, eram pessoas muito tradicionais. Portavam-se muito bem, eram muito bem educados. Mas é verdade que nesses tempos as pessoas também queriam fazer o "tarara" quando lhes apetecia. Tal como hoje… E não se diz nada aos pequenos.

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Os artistas, nos anos 60, com os 3 filhos, Victora, Nick e Carolina Willing
Só soube agora das infidelidades dos seus pais?
Bem, algumas que só soube agora, sim. Quando no documentário se ouvem as minhas expressões de surpresa, é tudo real. Há muitas coisas que não sabia. Estou a descobrir a história da minha mãe ao mesmo tempo que o público.

Por isso é que lhe perguntei se ficou espantado com algumas das histórias.
Com quase tudo! Algumas sabia delas mas não da maneira mais real. A história do primeiro encontro com o meu pai. Lembro-me de ouvir aquela história de uma maneira diferente. De uma maneira mais romantizada. [Paula Rego e o marido tiveram sexo no dia em que se conheceram].

Não incluía a parte sexual?
Não de uma maneira que era violenta. Agora, foi a primeira vez que ela contou aquela história e eu percebi bem como foi aquilo. Fiquei muito chocado. Mas percebi, agora percebi. E naqueles tempos isso era mais comum. Os homens daqueles tempos portavam-se de uma maneira diferente.

É um começo muito abrupto e uma paixão que é toda ela assim. É um contínuo de paixão até ao momento em que pai parte.
Pois é. Se a mãe estivesse aqui e lhe perguntasse como é que recorda o Vic ela diria: 'Ainda sinto a mesma paixão que sempre senti. Tenho tantas saudades dele'. É o que a mãe diz sempre. E é por isso que há tantas obras que são sobre a relação deles. E a maneira que ela a sentia.

Houve uma que me deixou particularmente perplexa, em que a Paula descobre que o seu pai tem uma amante e coloca essa figura no quadro como uma imagem de mal.
Sim, como veneno! E depois a obra acabou-se mas ela estava a tentar castigar a namorada dele.

E ao mesmo tempo livrar-se da dor que sentia.
Exactamente! Queria vomitar o veneno. Estava tão aborrecida que queria vingar-se e tratar-se.

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A pintora a conversar com o filho, Nick, durante a realização do documentário que agora estreia, em Portugal
Desconhecia o lado mais religioso da mãe.
Incluí isso quase no fim do filme porque achei importante que o público percebesse a mãe muito bem. Depois de tudo, percebe-se que ela sempre foi espiritual.

Pois: é religiosa mas não o é no sentido de frequentar a igreja.
Não, não. Não gosta nada dos padres que castigam as mulheres. Ela acredita em Deus e na Virgem Maria. A Virgem Maria, para ela, é uma figura que alivia o sofrimento das mulheres, que foi algo que a marcou muito.

De facto, isso nota-se até na decisão de ter a primeira filha: a Paula tinha medo da mãe, tinha medo de ser recriminada em Portugal.
Sim. Naqueles tempos os pais educavam as crianças assim, de uma maneira ríspida. O médico disse-lhe que se fizesse outro aborto não poderia ter mais filhos. E foi isso que a levou a tomar a decisão de ter a minha irmã mais velha. Só tinha 19 anos.

Viveu em Portugal parte da sua infância. Que memórias tem desse tempo.
Nasci em Inglaterra, vim para Portugal com seis meses e vivi cá até aos 12 anos. Portugal é fundamental para a minha vida. Tenho vontade de estar cá, sinto-me mais à vontade aqui do que em Inglaterra. É verdade que em Inglaterra é mais fácil trabalhar, cá não se fazem filmes, não há dinheiro para isso. É por isso que estou lá.

Nessa época havia o Salazar, depois o Marcello Caetano. A vida era uma mistura. Vivíamos numa casa perto do mar, na Ericeira. Era uma grande libertação, no sentido mais fabuloso e mágico; uma infância mais mágica, não posso ter tido. Cresci numa quinta, sem sapatos, a correr nas florestas de eucalipto e pinheiros, a brincar… A matar dragões. Não tinha amigos e as minhas irmãs eram mais velhas. Naquela época, as raparigas não brincavam com os rapazes.

Era sozinho.
Mas não me importava, tinha uma vida fantástica. Mas ao mesmo tempo, lembro-me de Portugal como um sítio reprimido, em que as pessoas não podiam dizer ou fazer o que queriam. E em que a maior parte das pessoas era muito pobre e não sabia o que se passava. Era horrível, era um país fechado. É por isso que também adoro a União Europeia.

Porque é que acha que a mãe não foi incomodada pela ditadura, apesar de nunca ter escondido que odiava Salazar?
É um mistério. Se ela fosse poeta, se se exprimisse por palavras, as pessoas prestam mais atenção a isso e têm mais medo. As artes plásticas nem todos compreendem tão bem.

O pai deixou uma carta de despedida à mãe, que ela guarda muitas vezes junto ao coração. Por que é que ele fez questão de deixar essa carta?
Para ajudá-la. Ele sabia que ia morrer. Ele sabia que ela precisava de ajuda, que ficaria muito sozinha sem ele, e que ficaria aflita. Mas a maneira como ele escreveu a carta, muito simples, tem a ver com o talento do meu pai. Falava de coisas complexas, de forma simples e que todos percebiam. Por exemplo, quando ele escreve ‘The kids are great!’ há muito ali escondido. O que ele está a dizer é que ela não tinha que se preocupar com os filhos, porque iríamos estar bem. Para se deixar disso e se concentrar na sua vida.

O Nick sabia dos quadros que a mãe fez quando esteve num estado depressivo mais profundo?
Não. Ninguém sabia. Ela própria tinha-se esquecido. Foi a minha irmã mais velha, Carolina, que se lembrou daqueles tempos. Quando comecei a fazer o filme foi a minha irmã que me disse para lhe perguntar pelos quadros.

Aquelas obras foram uma forma que a Paula encontrou de aliviar a depressão?
Sim, claro. A mãe estava a tentar perceber melhor o que estava a sentir. Não era bem uma terapia, porque às vezes não funcionava. Era mais para continuar a mexer-se, a trabalhar, para não desaparecer. O trabalho é uma força vital para a mãe, ela sempre escolheu o pincel. Mas não tenho mágoa. Ainda fico admirado com as obras dela. São impressionantes.

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A artista a fazer um dos seus auto-retratos, em Londres
Acha que a mãe, um dia, quererá vir definitivamente para Portugal?
O problema de Portugal, para ela, é que é um país cheio de fantasmas. E mágico mas de um encanto escuro. Não é só lembranças de infância e dos tempos que passou cá, com alegria, com o meu pai. Não é só isso: é medo.
Este país tem forças que ela desconhece. Em Inglaterra ela diz que não há fantasmas. É um país de lei e em que tudo é como deve ser, tudo está mais definido, não é preciso ter medo.

O Nick e a mãe costumam vir cá muitas vezes?
Eu venho uma ou duas vezes por mês, para tratar da "Casa das Histórias". A minha mãe não pode. O coração está muito fraco e eu tenho medo que ela se magoe. Não se trata só de se meter no avião, é também chegar cá, lembrar tudo, os fantasmas e poder sentir-se mal. E depois as pessoas à volta dela, que querem qualquer coisa, um bocadinho de cabelo, para levar para casa, e ela fica aterrada.

Tal como o seu pai deixou uma carta de despedida, acha que o facto de a mãe ter aceite fazer o documentário também pode ser uma forma de despedida?
Não! Acho que a mãe vai viver mais 50 anos e até fazer melhores obras do que tem feito! Pinta todos os dias, apesar de ter o coração muito fraco. Deita-se um bocadinho à tarde, para descansar, e está muito frágil. Tudo lhe dói. Tem dores terríveis. Ela viveu uma vida muito bem vivida, gostou muito do vinho português.

Mas causa-me estranheza ela ter aceite, por ser uma figura muito enigmática.
Por outro lado, acho que a mãe é muito inspiradora. E ajuda. Ela passou por muitos sobressaltos. É importante ver este filme. Mesmo que ajude só uma pessoa que sofre de depressão, já é bom. Ou se der força ao artista que está inseguro e não sabe o que fazer, também é bom. Se der força a uma mulher que os homens tratam mal, é bom. E é assim.

Como é que acha que a mãe é vista? Como uma mulher forte?
Nas obras é forte, mas na vida é frágil. A mãe é uma criança cheia de medo que tem uma coragem enorme nas obras mas na vida não consegue dizer ‘não’.

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