Notícia

Entrevista

Daniel Sampaio: Saídas à noite só depois dos 15 anos

O conceituado psiquiatra dá dicas aos pais sobre o uso abusivo do telemóvel, o grave problema do 'cyberbulling' e muito mais.
Por Paula Santos Ferreira | 11 de janeiro de 2017 às 19:48
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Daniel Sampaio: Saídas à noite só depois dos 15 anos
Foto: Liliana Pereira

Daniel Sampaio tem mais de 45 anos de carreira, três filhos, sete netos e milhares e milhares de horas a ouvir crianças e adolescentes e respetivos pais. Além dos 26 livros publicados. Pioneiro da terapia familiar em Portugal e é o melhor especialista naquela que é uma das mais fascinantes e complexas matérias do mundo: ensinar um filho a ser feliz. No seu escritório, em casa, o seu lugar especial, Daniel Sampaio fala ao site FLASH! sobre aqueles que considera os maiores problemas das crianças e jovens de hoje.Edeixa os seus sábios conselhos.

Comecemos pelo telemóvel, o maior amigo das crianças e jovens – e de muitos pais – e que está sempre presente em todas as horas do dia. Como se pode hoje ter conversas em família, entre pais e filhos, com este "intruso" sempre presente, sendo que já é tão difícil, por vezes, os miúdos desabafarem sobre os seus problemas?
As conversas em família estão a desaparecer. É preciso deixar um espaço natural de conversa que não seja invadido por telemóveis. Há que estabelecer tempos do dia sem este aparelho. Os pais têm de perceber que há momentos crucias na vida de uma família: a hora de levantar, as refeições, incluindo o pequeno-almoço, e a hora de deitar. São momentos que a família tem para estar em conjunto. Sem telemóvel, nem televisão. Para se falar.

A regra aplica-se também aos pais.
Sim, não há telemóvel nem para as crianças nempara os pais.Esta é uma decisão familiar para se levar a sério.Não sou a favor de que se tiremos telemóveis,mas há que definir regras.

É motivo de zangas?
Sim, o telemóvel transformou-se num conflito familiar. Como as questões não são trabalhadas em conjunto, muitos pais tiram o telemóvel, os filhos protestam e o telemóvel tornou-se uma arma de arremesso familiar e nas escolas é a mesma coisa.

O que é que as crianças ganham com isso?
Em primeiro lugar, ao conversar as crianças aprendem a falar. Estamos a assistir a crianças e adolescentes que não sabem articular um discurso, estão a perder a capacidade de se exprimirem, de exprimirem uma ideia.

Sobretudo olhos nos olhos…
Olhos nos olhos e saber articular uma ideia. Se falar hoje em dia com uma criança, de nove ou dez anos,muitas vezes a criança não tempensamento articulado nem ao nível da expressão oral nem da expressão escrita. Com o os adolescentes passa-se a mesma coisa.

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Tem de existir momentos do dia sem telemóvel para pais e filhos conversarem

Tem três filhos e sete netos. Em sua casa, respeitam-se os tempos sem telemóvel?
(Sorriso)Às vezes é difícil,mas fazemos que se cumpra, quer pelos filhos, quer pelos pais.

Junta os netos todos aqui em casa?
Os meus netos vão dos cinco aos 16 anos.Cá em casa fazemos de propósito para não juntar todos, senão não conseguimos usufruir do tempo que passamos com eles.

É bom ser avô? É mais fácil do que ser pai?
É muito bom, é muito mais fácil.A relação é muitomais simples,é mais de brincadeira, de transmissão de valores, das histórias de família que eles gostam muito de ouvir.

Como é que são os jovens de hoje?
É muito interessante. A diferença que eu noto entre os meus filhos e os meus netos é enorme no que toca ao quotidiano. Cá em casa e nos jovens em geral. Por exemplo, a importância da imagem.Hoje em dia vivem obcecados pela imagem. Mas há uma coisa muito boa nas pessoas novas, são muito curiosas e se conseguirmos estabelecer diálogo com eles, eles gostam muito de questionar e falar com pessoas mais velhas.

Na sua consulta acontece-lhe ter pais que foram seus pacientes em criança ou jovens e que agora vão lá com os filhos? Os problemas são muito diferentes?
Acontece, sim. Sabe, há um problema comum, central emtodas as adolescências, tanto nas de ontemcomo nas de hoje que é o problema da autonomia. "Como é que eu vou ficar diferente dos meus pais e ser autónomo?" É um problema eterno. Estamos a falar da diferenciação familiar. Para os jovens ser diferente da família é ser autónomo. Esse movimento acontece sempre.

O que se está a passar agora?
A adolescência está-se a prolongar.A autonomia acontece mais tarde.Estão muito dependentes da estrutura familiar.Outro aspeto é a internet que revolucionou a forma para comunicar, no bom sentido, para todo o mundo.Os jovens hoje são jovens internacionais.

E os maiores problemas?
Um deles é a questão da ética no relacionamento. O que se pode fazer e não se pode nas relações, nomeadamente entre namorados. 

No namoro entre jovens há dados assustadores sobre violência psicológica e física.
Há violência no namoro porque as famílias e as escolas têm de abordar essas novas questões.Em casa, os pais têm de perguntar aos filhos,"como te dás com os teus amigos", "se há bullying na escola"."Começaste a namorar o que achas que é importante no relacionamento com a namorada".

Para si, o ‘cyberbullying’ é hoje um dos problemas mais importantes?
É a situação que me preocupa mais neste momento.O bullying na internet que se fala pouco mas está a tomar uma dimensão importante. Quer estejamos a falar de casos de namorados que acabam e um deles coloca as filmagens ou imagens mais íntimas feitas entre os dois, nas redes sociais, ou as imagens que se fazem nas casas de banho das escolas, ou num recanto. Todo o mundo as vê.O‘cyberbullying’ é porque a imagem vai parar a todo o lado.

Por outro lado pode ser muito oculto.
Se for bullying no pátio da escola alguém acaba por ver, na net não. É oculto e passa muito despercebido. Por seu lado, as vítimas estão sempre ao computador ou telemóvel e a ser agredidos. Os pais têm de ser alertados em relação isso.

Porque é que os filhos não contam aos pais que estão a ser vítimas?
Não dizem aos pais porque acham que têm de defender a sua intimidade para se tornarem autónomos. O tal problema de autonomia. Têm medo de contar e ficar presos aos pais. Muitas vezes são vividas em silêncio. Temos de alertar para isso, sem exagerar. Porque quando a família e a escola começa a controlar em excesso, os filhos ainda omitem mais.

Qual é então o ponto equilíbrio?
Os pais podem e devem perceber como é o grupo de amigos, abrindo as portas de casa aos amigos.Outra questão importante são as saídas à noite que começam cedo demais. Aos 12,13 anos,no início da adolescência é-se muito novo para sair à noite. Nunca se deve fazer estas noitadas antes dos 15. 


O que se faz? Diz-se não?
Neste caso, diz-se não com firmeza. Já se sabe que o argumento que se vai ouvir é que "todos os colegas fazem assim". E, não é verdade. As saídas à noite são uma situação que têm de acontecer muito progressivamente e de acordo com responsabilidade do jovem. Se ele começar por cumprir as horas à medida que vai avançando pode-se ir alargando o horário. Se não cumpre, não deve ser permitido o passo a seguir.

No seu último livro, 'Sala de Espera' diz que os pais nunca estiveram tão próximos dos filhos como hoje mas depois são muito permissivos, perdoam tudo.
É verdade. Têm uma educação indulgente. São muito afetuosos com filhos, estão de um modo geral disponíveis,mas depois não conseguem estabelecer limites às crianças, são muito tolerantes. Os pais de hoje têm de criar uma autoridade que resulta de uma relação estabelecida. Senão cumpre o horário tem de ser sancionado.Assim, ganha-se um respeito mútuo.

Que filhos estamos a criar hoje?
Estamos a criar filhos muito curiosos, criativos, muito divertidos. Os pais devem responsabilizá-los pelas suas ações e dar-lhes cada vez mais responsabilidade à medida que vão avançando na idade. Na adolescência é muito importante ajudá-los a saber parar e a pensar.É uma fase em que é tudo muito impulsivo e muito rápido.Há que evitar o confronto.

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