Miguel Vieira, 60 anos de idade, emocionou Milão ao encerrar a edição feminina da Semana da Moda com a coleção 'De Volta ao Preto', numa altura em que continua a travar uma dura batalha contra o cancro. Acabou por ser uma presença triunfal numa das passarelles mais importantes do mundo, mas por detrás dos aplausos escondem-se meses de sofrimento, medo e uma luta diária pela vida.
Há poucas semanas, o designer português admitia não saber sequer se teria forças para marcar presença no evento. Agora, e depois de uma ovação de pé na capital italiana da moda, a sua presença ganha um significado maior. A verdade é que Miguel Vieira vive um dos períodos mais difíceis da sua vida. Em julho, foi submetido a uma delicada cirurgia no IPO do Porto, que obrigou à remoção de metade do pulmão esquerdo após um novo diagnóstico de cancro. E nem assim abandonou o trabalho que o apaixona há mais de 40 anos.
Dois dias antes da operação, apresentou uma coleção no Portugal Fashion. Mais tarde confessou que enfrentou esse momento a "disfarçar as dores profundas". Em setembro, o estilista recorreu às redes sociais para partilhar um desabafo profundamente comovente. Depois de meses de dores intensas e sem explicação, novos exames revelaram que a doença tinha avançado.
"Foram quatro meses de uma incerteza sufocante desde o diagnóstico de cancro no pulmão esquerdo, e dois meses desde a cirurgia que me levou o tumor e metade do pulmão. Mas o pior... o pior era a dor diária, insuportável, um sofrimento que parecia não ter fim, nem resposta", escreveu. A resposta acabou por chegar através de um exame PET: "A notícia que me tirou o chão: as células cancerígenas na pleura tinham duplicado de dimensão e estavam alojadas nas minhas costelas, a corroer o osso. Era daí que vinha parte daquela dor horrível".
Apesar de enfrentar a doença com determição e confiança inabaláveis, Miguel Vieira não escondeu a vulnerabilidade perante o agravamento da doença. "Chorei e voltei a chorar. Acho-me sempre o Super-Homem, mas descobri que afinal não sou", confessou, numa mensagem comovente.
Apesar de tudo, o criador recusa baixar os braços. Há cerca de um mês deixava uma promessa aos seguidores que hoje ganha ainda mais força: "A luta é muito dura, mas o meu amor pela Vida e pela minha arte é infinitamente maior." E talvez seja precisamente esse amor pela vida e pela criação que explica o momento vivido em Milão. Entre tratamentos, exames e dias de incerteza, Miguel Vieira voltou a fazer aquilo que lhe dá oxigénio: criar e inspirar.