Se, para muitas pessoas, o fim dos tratamentos representa o início de uma nova vida, para Joana Gonçalves, a realidade é mais dasafiante. Quase três anos depois de ter recebido um diagnóstico que lhe mudou a vida, a empresária e CEO de uma agência de comunicação continua a aprender a conviver com as marcas deixadas pela doença.
Tinha 36 anos quando soube que tinha cancro da mama. Hoje, aos 39, esta mulher que faz parte do círculo de amizades de Herman José e partilha a vida com o jornalista Luís Pedro Nunes há nove anos, garante que recuperou grande parte de si própria, mas reconhece que há coisas que não voltam a ser iguais.
Fisicamente, muito mudou. O cabelo voltou a crescer, a condição física regressou e a resistência também. Mas, emocionalmente, as marcas permanecem. “Há, realmente, um antes do cancro e um depois do cancro”, admite, em entrevista à SIC Caras, ao mesmo tempo que assume que quem passa por um cancro dificilmente irá irá sentir que a doença fica completamente ultrapassada.
“A Joana é doente oncológica para a vida”, disseram-lhe poucos dias após o diagnóstico. Reconhece agora que, por muito duro que tenha sido ouvir aquela frase, havia verdade naquelas palavras. “Pelas consequências que ficam, quer no nosso corpo, quer na nossa cabeça”, explica na mesma entrevista.
Mesmo com o fim dos tratamentos, há o medo que fica. A cada consulta ou exame de vigilância, regressa a ansiedade. “Duas semanas antes de ir fazer exames já fico muito ansiosa”, confessa. Joana só consegue respirar de alívio quando ouve que está tudo bem. “O medo da recidiva é muito grande”, assume. Um sentimento que diz ser comum a quem passou pela doença e que faz parte de uma realidade pouco falada. “O pós-cancro, de que pouco se fala, é realmente difícil de gerir.”
Além do impacto psicológico, existiram também alterações físicas. Durante os tratamentos, Joana enfrentou uma hepatite tóxica provocada pela imunoterapia e viu o corpo alterar-se de forma drástica. O aumento de peso e a perda de cabelo foram apenas algumas das consequências. Recuperar a imagem que tinha de si própria foi um processo demorado. “Já me olho ao espelho e volto a sentir-me eu”, conta. Cada pequena conquista teve um significado especial, como o momento em que voltou a prender o cabelo.
“O cancro não me ensinou nada. Só me tirou, destruiu e causou sofrimento”, afirma. A doença trouxe mudanças, mesmo da forma como reage ao mundo. Joana é, atualmente, mais impaciente, menos tolerante a situações que não lhe trazem felicidade e mais seletiva com o que a vida lhe atira, tanto pessoal como profissionalmente.
Joana Gonçalves recusa viver condicionada pelo medo e continua a viajar, a trabalhar, a rir e a estar com os amigos. “Voltei a sorrir, a ser feliz e a aproveitar a vida”, garante.