O impacto das explicações de Cristina Ferreira sobre a polémica declaração a respeito da alegada violação em grupo de uma menor refletiu-se em números esmagadores na noite desta terça-feira, 21 de abril. O 'Jornal Nacional' da TVI assumiu a liderança absoluta das audiências, registando 9.3 de rating e 19.1% de quota média de mercado.
O bloco informativo conduzido por José Alberto Carvalho conseguiu fidelizar uma média de 922.900 espetadores, mas o verdadeiro pico de interesse ocorreu durante a entrevista à apresentadora, momento em que a estação superou a marca de um milhão de espetadores, atingindo um máximo de 1.3 milhões de pessoas. Com a TVI a bater nos 25.5% de share, a SIC e a RTP1 ficaram a uma distância confortável.
Contudo, este sucesso na guerra de audiências não fica a salvo das críticas, muito pela forma como o canal de José Eduardo Moniz fez a gestão da polémica. Para a ativista Francisca de Magalhães Barros, a transformação de um erro público num "evento" televisivo sugere que a polémica é tratada como um ativo a rentabilizar. "Se todos erramos? Sim, mas nem todos lucramos com isso", começa por apontar a ativista, sublinhando a natureza estratégica desta emissão.
"É irónico que, quando o público se manifesta organicamente contra declarações que perpetuam a cultura da violação, esse movimento seja rotulado como 'oportunismo'. No entanto, quando um canal transforma esse mesmo erro num 'evento' televisivo, isso é vendido como jornalismo ou arrependimento", critica a ativista pelos direitos fundamentais.
Francisca de Magalhães Barros defende que um pedido de desculpas honesto e uma retratação direta teriam sido suficientes, mas a opção por uma entrevista "espremida" acaba por desviar o foco do problema estrutural – a violência sexual – para a narrativa pessoal da apresentadora Cristina Ferreira. "O erro torna-se o clímax de um guião feito para gerar audiência. Há um valor comercial no arrependimento. As estações sabem que o público que criticou vai ver a entrevista por indignação, e o público que apoia vai ver por solidariedade", explica.
Para a ativista, o perigo reside na desumanização do tema, quando em vez da vítima, e neste caso, o foco passa a estar em Cristina Ferreira: "O maior problema de 'espremer' estas situações para obter audiência é que a discussão deixa de ser sobre a violência sexual ou de género e passa a ser sobre os sentimentos de quem falou mal. A vítima real da violência torna-se, mais uma vez, um detalhe secundário num debate sobre a imagem pública de uma celebridade".
A análise de Francisca de Magalhães Barros aponta para a existência de um 'negócio' em torno da redenção pública. "A necessidade de transformar o pedido de desculpas num espetáculo sugere que, para a própria indústria, a polémica não é apenas um problema a resolver, mas um ativo a rentabilizar", conclui.