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Um dos pontos mais curiosos das comemorações dos 200 anos da independência do Brasil em relação a Portugal é a bonomia entre as partes. Há países que após separados não podem sentar à mesa. Não é o caso. Aliás, se há povos que nunca recusam nada à mesa são os lusófonos. Gostamos de comer muito e de falar idem durante a comida. Seja em Ipanema ou nos Restauradores.
Também gostamos de escárnios e maldizeres. Afinal, temos de prolongar o tempo das refeições. Após comentarmos generalidades e as enfermidades que possuímos no momento, há que se fazer fofocas e criticar Deus e o mundo. Como diz sempre uma amiga portuguesa: "Vamos agora falar mal dos outros. Eles estão a falar mal de nós neste exato momento".
Foi assim que o gesto de transladar o coração de Dom Pedro ao Brasil para marcar a efeméride rapidamente transformou-se em meme em ambos lados do Atlântico.
Do do lado de cá, um dos que mais achei piada foi o que mostrou a imagem de um frasco transparente vazio com a legenda: "Em retribuição ao coração de Dom Pedro, os brasileiros enviaram a Portugal o cérebro de Bolsonaro".
Lá do Brasil, não faltaram comentários destacando o cómico que era receber um pote de azeitonas com um órgão vital falecido dentro com as honras de um chefe de estado.
Tenho pena que o momento político brasileiro impeça uma festa sincera e rija. Seria uma alegria ver Carminho a cantar com Marisa Monte. Ou Pedro Abrunhosa com Anitta. Imagino uma fila de vários quilómetros em Copacabana de cariocas a tentar fazer selfies com o Marcelo. E, claro, uma réplica da Torre de Belém em plena Baía da Guanabara enquanto um Pão de Açúcar cenográfico seria montado à beira Tejo ou à beira Douro.
Faltou isso tudo. Faltou brasilidade e portugalidade nos mais variados sentidos dessas palavras. Mas não faltou ou faltará amizade. Esta resiste até mesmo aos momentos mais sombrios. Proponho então acreditarmos na esperança e quem sabe daqui a alguns meses possamos comemorar os 201 anos num clima mais feliz. Quer coisa mais portuguesa ou brasileira que atrasar nos compromissos?
Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar a música "Língua", de Caetano Veloso: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões / Gosto de ser e de estar / E quero me dedicar a criar confusões de prosódias / E uma profusão de paródias / Que encurtem dores / E furtem cores como camaleões".