'

Notícia

THE MAG - The weekly magazine by Flash!

40 anos depois, Tim recorda a gravação do primeiro disco dos Xutos & Pontapés: “Estávamos na fase do deslumbramento”

A história tinha começado quatro anos antes, mas foi em 1982 que os Xutos & Pontapés começaram a materializar em vinil aquele que é o maior projeto da música portuguesa. Esta é a história de três putos conhecidos pelas alcunhas de ‘Faz Kalu Tudo’ na bateria, ‘Timbalão’ (Tim) no baixo e voz, e ‘Podrezinho’ (Zé Pedro) na guitarra, que concretizaram o sonho de gravar o primeiro disco, ‘78/82’, aquele que permitiu duplicar os concertos e aumentar o cachet de 25 para os 50 contos.
Miguel Azevedo
Miguel Azevedo
04 de agosto de 2022 às 21:37
A vida de Zé Pedro desde o inicio dos Xutos
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés
Zé Pedro com os Xutos & Pontapés

Tinha Tim acabado de assumir as "despesas" do microfone ainda com "muito pouco à vontade e jeito para cantar" confessa, [o vocalista Zé Leonel tinha deixado o projeto por progressivo desinteresse] e o guitarrista Francis tinha-se juntado à formação uns meses antes, quando os Xutos & Pontapés entraram em estúdio para gravar o primeiro álbum. ‘78/82’ é o disco de que muito poucos falam [é mais comum ouvir idolatrar ‘Cerco’, ‘Circo de Feras’ ou ‘Dados Viciados’] mas a verdade é que esse, viria a ser um álbum basilar no trajeto do Xutos por ter "formatado o som do grupo daí para a frente", explica Tim.

Considerada hoje a maior e mais consensual banda de rock nacional, os Xutos & Pontapés eram, ainda em 1982, uma espécie de banda de culto do novo rock português. Consigo carregavam já alguns episódios que ficariam icónicos; o famoso primeiro concerto de sete minutos nos Alunos de Apolo [janeiro de 1979]; a atuação na festa de finalistas do Liceu do Pedro V ao lado dos Raios e Coriscos, Minhas e Armadilhas e Aqui D’el Rock [maio de 1979], as primeiras apresentações fora de Lisboa, na praça de Touros de Vila Viçosa a abrir para os UHF [agosto de 1979] ou a primeira parte de Wilko Johnson no Pav. dos Belenenses (fevereiro de 1980).       

Foi já depois de Tim ter feito a estreia como novo vocalista dos Xutos, num concerto em Abril de 1981, que o grupo assinou, em novembro desse ano, um contrato com a Rotação, uma nova etiqueta dedicada à nova música portuguesa e que estava ligada à editora Rossil do radialista António Sérgio. Nesse mês ainda, a RTP exibia no programa ‘Porque Hoje é Sábado’, um documentário de 30 minutos intitulado ‘Trabalhadores do Rock’ sobre os Xutos & Pontapés realizado por Jorge Alves da Silva e o ‘buzz’ antevia que estavam para vir feitos maiores. Seguiram-se os lançamentos de dois singles, o primeiro editado em Novembro de 1981 e o segundo já em março de 1982, mas, no mês seguinte, o grupo entraria finalmente em estúdio para gravar o primeiro álbum. E é sobre ele, que Tim desfia memórias em entrevista à The Mag.    

Emoção. Metallica prestam homenagem a Zé Pedro dos Xutos e tocam 'A Minha Casinha'


Que recordações tens da gravação do primeiro disco dos Xutos?
A memória mais viva que tenho é mesmo a do deslumbramento de ir, pela primeira vez, para um estúdio. É verdade que uns meses antes tínhamos gravado dois singles porque o António Sérgio, que era o produtor, quis que nós o fizéssemos - eram dois singles com quatro músicas, o 'Sémen/Quero Mais' e o 'Toca e Foge/Papa Deixa lá', tudo gravado numa sessão - mas quando voltámos para o famoso 'Angel I', o estúdio do José Fortes [lendário engenheiro de som que esteve por detrás de alguns dos maiores projetos musicais nos anos 80] já foi para gravar à séria o primeiro álbum. Lembro-me da sensação indescritível de ouvir o nosso som. Estávamos mesmo na fase do deslumbramento.

E como é que eram os Xutos como banda nessa fase?
Estávamos ainda no início e tínhamos apenas quatro anos enquanto banda. Felizmente tínhamos conseguido ultrapassar a saída do primeiro vocalista e eu já era, entretanto, o vocalista assumido, embora ainda não tivesse muita vontade nem muito jeito para cantar (risos).

"O disco ‘78/82’ coincide também com uma altura em que o Zé Pedro começa a tocar à seria, porque até então ele era talvez o mais incipiente a tocar"

...
Ze Pedro com os Xutos & Pontapés

Até então ainda não tinhas gravado nada com a tua voz?
Não. Nós estivemos três anos com o Zé Leonel e eu apenas o ajudava nos coros, embora o Kalu também ajudasse. O que já acontecia, mesmo ainda com o Zé Leonel no grupo, é que eu acabava muitas das letras. Ele tinha ideias e eu finalizava-as. Foi, aliás, assim que comecei a escrever letras. E depois o disco ‘78/82’ coincide também com uma altura em que o Zé Pedro começa a tocar à seria, porque até então ele era talvez o mais incipiente a tocar. Mas como banda estávamos muito bem, lucrando também com a ajuda do António Sérgio.   

É verdade que esse disco foi gravado em duas semanas?
Sim. Na primeira semana gravámos tudo o que foi bateria, baixo e instrumentos e depois parámos uns dias. O Francis tinha pedido um tempo para preparar os solos. Ele era o que estava mais habituado a estar em estúdio, tinha mais traquejo do que nós e por isso a presença dele nesse disco é muito forte.     

O grande salto dos Xutos dá-se com a entrada na editora Polygram, mas nesta altura ainda estava numa pequena editora, a Rotação. Que editora era esta?

Sim. Era uma editora que era subsidiária da Rossil que era do António Sérgio. Era uma pequena editora num terceiro andar de um prédio em Lisboa, mas não me queixo de nada, até porque foi a primeira vez que tivemos produção a sério com entrevistas, fotografias e tudo a que tínhamos direito.

"Assim que o 'Avé Maria' chegou à Rádio Renascença para tocar foi logo proibido. Foi visto como quase uma música maldita, ainda por cima tínhamos metido um coro infantil a cantar connosco, que tínhamos ido buscar ao Jerónimos."

Este disco ‘78/82’ é marcado por três singles 'Sémen', 'Quando Eu Morrer'e 'Avé Maria'. Sentiram logo que esses temas iriam ser uma pedrada no charco?
Sim, principalmente o 'Avé Maria' porque quando o disco chegou à Rádio Renascença para tocar, esse tema foi logo proibido. Foi visto como quase uma música maldita, ainda por cima tínhamos metido um coro infantil a cantar connosco, que tínhamos ido buscar ao Jerónimos. Só que isso acabou também por ser mais um motivo de promoção para nós (risos). 

E o ‘Sémen’, como é que nasceu essa canção?
O 'Sémen' era uma letra do Zé Leonel, que tinha uma batida a imitar os Clash. Um dia o António Sérgio ouviu-nos a ensaiar e disse-nos logo que queria lançar aquilo. É engraçado porque é uma música mesmo do nosso início que foi ficando e que se mantém até hoje. 

Vocês terão sido provavlemente a primeira banda a usar a palavra ‘sémen’ numa música. Não tiveram problemas por causa disso?
Era quase uma palavra tabu, mas por acaso não tivemos problemas. O pior foi mesmo com o ‘Avé Maria’.     

"O 'Sémen' era uma letra do Zé Leonel, que tinha uma batida a imitar os Clash. Um dia o António Sérgio ouviu-nos a ensaiar e disse-nos logo que queria lançar aquilo."

Consta da vossa biografia, que o disco ‘78/82’ não vendeu aquilo que se esperava. Porquê?
Não faço ideia. Eu acho que, na altura, só havia uma editora verdadeiramente forte no mercado, que era a Valentim de Carvalho, aquele que tinha, por exemplo, o Rui Veloso e os UHF. A Rossil/Rotação era uma pequena editora, e embora fosse esforçada, a verdade é que não tinha grande presença na distribuição. Mas isso para mim passou-se um bocado ao lado. Passados dois anos é que fiquei um bocado chateado, porque eles fizeram uma edição de refugo para despachar o material que tinham e puseram o disco com desconto (risos).

Nessa altura já sentiam que estavam a contribuir para esse novo movimento do rock português?
Sim. Tínhamos de tal forma consciência disso que chegámos a ter reuniões com os UHF e com outras bandas para fazer uma espécie de associação para arranjar concertos e para pôr o mercado a mexer. Tínhamos a sensação de que estávamos todos no mesmo barco. Muitas vezes o que se fazia era uma banda, que tinha um concerto, convidar outra para fazer a primeira parte. Cada um tinha a sua música mas estávamos todos a remar para o mesmo lado. Havia até um acordo de, nas entrevistas, as bandas referenciarem-se umas às outras.

A carregar o vídeo ...
Última entrevista de Zé Pedro ao CM

Tens ideia de quantos concertos deram depois do lançamento do ‘78/82’?
Epá! Não quero mentir, mas antes do disco, nós devíamos dar 8 a 10 concertos pequenos por ano, em locais que podiam ir dos bares aos liceus, passando pelas associações dos bombeiros. Mas depois do disco sair, saltámos de facto para outro patamar, começámos a fazer concertos com outras exigências e a ter outras condições. O cachet subiu de 25 contos para os 50, ou por aí. Foi quando passámos então a fasquia dos 18 ou 20 concertos por ano. E a partir dai foi sempre a subir.

Sentiste que esse disco foi impulsionador da carreira dos Xutos?
Sim, foi o que nos permitiu começar. O grande empurrão veio com o 'Circo de Feras', cinco anos depois, e já com uma grande editora que era a Polygram. Esse é que nos pôs lá em cima. Mas o '78/82' permitiu-nos, por exemplo, ir até às rádios apresentar um som melhor do que o de uma simples cassete. Foi ele a porta de entrada para tudo e foi o disco que nos levou a formatar os nossos álbuns daí para a frente.  

 

Vai gostar de

você vai gostar de...

Newsletter

Newsletter

Subscreva a newsletter e receba diariamente todas as noticias de forma confortável
Subscrever