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E depois de Gal? Caetano, Bethânia e Gil choram a perda da ‘irmã do meio’. As histórias, as memórias e as canções que ficam para sempre

A morte de Gal Costa, aos 77 anos, transporta-nos aos quatro magníficos da música baiana que outrora, bem lá atrás, impulsionaram o Tropicalismo e formaram juntos os Doces Bárbaros. Gal, a cantora da “voz de cristal”, ajudou a escrever um dos mais importantes capítulos da Música Popular Brasileira.
Miguel Azevedo
Miguel Azevedo
17 de novembro de 2022 às 22:30
Morreu Gal Costa, uma das maiores vozes da música popular brasileira
Gal Costa, cantora, brasil, morreu
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Corria o ano de 1964, quando Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Maria da Graça - ainda antes desta assumir o nome artístico de Gal Costa - se encontraram em palco pela primeira vez, então num espetáculo de inauguração do Teatro Vila Velha, no Passeio Público de Salvador da Bahía, que promovia um encontro de jovens músicos da MPB. Daí nasceria uma amizade e cumplicidade artísticas que se arrastaria até aos dias de hoje. Juntos, os quatro foram, por exemplo, figuras de proa do Tropicalismo, movimento de rutura que abanou a musica brasileira em período pós bossa nova e mudou os critérios de gosto vigentes, juntando à MPB, o rock e em especial a guitarra elétrica que muita polémica causou por ser considerada um elemento estrangeiro. Do movimento do Tropicalismo, que também teve implicações a nível político, da moral e dos costumes, Gal Costa ficaria para sempre como uma das musas inspiradoras.

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Caetano, Gal, Betânia e Gil Foto: arquivo

Mas juntos, ‘Gaú’ - naquele sotaque bem brasileiro - Bethânia, Caetano e Gil, formaram também, em 1976, os Doces Bárbaros, um grupo musical contra-cultura (à data visto apenas como um grupo de hippies baianos), com a finalidade de percorrer o Brasil para celebrarem os dez anos das respetivas carreiras a solo e darem ao mesmo tempo alguma cor a um país que ainda vivia debaixo de uma ditadura militar. "Essa digressão foi um sucesso. Mudou o cronograma da música popular na Bahia", relembraria mais tarde Djalma, músico percussionista que acompanhou o grupo. 

Dos anos 60 para cá, os quatro baianos, nunca deixaram de colaborar, participando, produzindo, dirigindo, tocando ou cantando em trabalhos uns dos outros e acompanhando sempre as carreiras de perto. Agora, Maria Bethânia (76 anos), Caetano Veloso (80) e Gilberto Gil (80) tiveram de despedir-se prematuramente da amiga Gal, a irmã do meio, que morreu na passada quarta-feira, aos 77 anos. "Triste demais, difícil demais. Eu nunca pensei em um dia falar para vocês sobre a dor de perder Gal", reagiu Bethânia. "Gal era uma menina que morava na Rua Rio de São Pedro na Graça. A emissão da voz em Gal, era já música", escreveu Caetano. "Muito triste e impactado com a morte de minha irmã", acrescentou Gilberto Gil. 

Neta de português, da ilha da Madeira, Gal Costa nasceu em Salvador da Bahía a 26 de Setembro de 1945. A sua mãe, dizia que tinha passado o período de gestação a ouvir música clássica com a esperança que, de alguma forma, isso pudesse vir a influenciar a filha. O facto, é que nos anos 60, João Gilberto já dizia que Gal era "a maior voz do Brasil" (talvez por isso, alguns lhe tivessem posto mesmo a alcunha de ‘João Gilberto de Saias’). Nos anos 70, tornou-se uma espécie de musa dos hippies e, com pouca roupa e pernas ao léu, enfrentava o palco sozinha. Em 1973, surgiu mesmo semi-nua na capa do disco ‘Índia’, o que provocou  grande controvérsia num Brasil ainda dominado pela censura. 

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Foto de capa do disco Índia, de Gal Costa

UMA VIDA PESSOAL INTENSA 

Por causa de um problema nas trompas, na adolescência, e de uma menopausa precoce, nunca foi mãe, mas como o desejo sempre falou mais alto, acabou por adotar um rapaz, Gabriel, hoje com 17 anos
, e que, a própria, chegou a dizer que tinha nascido do seu "cordão umbilical espiritual". Foi ele, de resto, que serviu de inspiração para o disco ‘A Pele do Futuro’, lançado em 2018. Era ainda madrinha de Moreno Veloso, filho mais velho de Caetano Veloso e de Preta Gil, filha de Gilberto Gil.

Bissexual assumida, Gal Costa sempre foi muito reservada sobre a sua vida pessoal e nunca lhe foram conhecidos grandes relacionamentos. Chegaram a atribuir-lhe um romance com o próprio Caetano Veloso, algo que os dois nunca admitiram, embora tenham chegado a reconhecer que foram apaixonados um pelo outro.  

Quiseram também atribuir-lhe algumas polémicas, incluindo com a própria Maria Bethânia dizendo que as duas não se falavam há anos, mas Gal apressou-se a desmentir dizendo que noticias eram uma ‘bobagem’ e que as duas apenas estavam separadas pela geografia, uma a viver em S.Paulo e outra no Rio de Janeiro.

Atribuíram-lhe também uma falsa rivalidade com Elis Regina, algo que a filha desta, Maria Rita, já esta semana fez questão de ironizar. "Embora os fofoqueiros de plantão sempre a colocassem como uma inimiga da minha mãe, Gal sempre me tratou com muito carinho e respeito… Estou no chão. Estou zoada", escreveu num post em reação à morte da cantora.

TUDO NUM FILME 

Da vida de Gal Costa, que agora se sabe que vai dar um filme para estrear no próximo ano (a atriz Sophie Charlotte será a protagonista) fica um número quase infindável de canções e mais de 40 discos gravados.

Fãs emocionados no velório de Gal Costa
Velório de Gal Costa
Velório de Gal Costa
Velório de Gal Costa
Velório de Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa
Velório de Gal Costa
Velório de Gal Costa
Velório de Gal Costa
Velório de Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa
Gal Costa


Deixa mais de mil gravações registadas oficialmente no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição - ECAD (a Sociedade de Autores do Brasil), organismo segundo o qual, as três músicas mais tocadas da cantora, na última década, no Brasil foram: ‘Um dia de Domingo’, Chuva de Prata’ e ‘Quando Você Olha para Ela’. Mas há mais: seguem-se ‘Sorte’, ‘Meu Bem Meu Mal’, ‘Azul’, ‘Baby’, ‘Dom de Iludir’ ou ‘Açaí’.

Colada à pele ficará também para sempre ‘Modinha para Gabriela’, que Gal Costa gravou para a novela ‘Gabriela’ em 1975. Ainda segundo a ECAD, os herdeiros da cantora vão continuar a receber os seus direitos autorais durante os próximos 70 anos.    

 

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