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Entrevista exclusiva

Ângelo Torres: "Foi uma vida dura"

O ator, que brilhou na novela da TVI, 'A Única Mulher', e está em Ouro Verde, abre-nos o coração e revela as dificuldades da sua infância.
Por Ana Cristina Esteveira | 09 de janeiro de 2017 às 16:52
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Ângelo Torres: "Foi uma vida dura"
Foto: Paulo Miguel Martins

Diz que em criança foi "profissional de colégios internos", "órfão de pais vivos", que sentiu na pele o racismo e o preconceito e que ainda hoje vive uma sensação de não pertencer a lugar nenhum. As revelações cruas do ator que deu alma e corpo Norberto Venâncio, de 'A Única Mulher'. 

Foi a primeira vez que participou numa novela e logo como protagonista. Como foi esta experiência?
Ainda me belisco para ver se é mesmo verdade o que me aconteceu. Quando começaram as gravações ainda estava convencido de que o meu papel era secundário, só depois é que me disseram que iria ser um dos protagonistas.

É muito abordado na rua?
Passo despercebido, pois sou muito diferente do Norberto na forma de vestir e na postura. Mas quando sou reconhecido, posso dizer-lhe que o feedback é muito positivo. As pessoas gostam da minha personagem. Não tinha essa noção, especialmente porque sou o primeiro a pôr em causa o meu papel.

É uma pessoa insegura?
Não, não sou. Acho que tem mais a ver com a minha eterna insatisfação.

Gostou de ter feito a novela?
Gostei da experiência, das pessoas que conheci... disso, gostei muito. Quanto ao meu papel, hoje faria diferente.

Sente-se melhor a fazer cinema?
Vim do cinema, é um facto, mas o meu lugar é entre ‘ação’ e ‘corta’, independentemente se é cinema ou televisão. Também gosto do subir e descer do pano. O mais importante para mim é representar, adoro o faz-de-conta.

Não tendo nascido em Portugal e tendo passado por outros países, como vem viver para Portugal?
A minha mãe vive aqui desde 1976.

Um país, portanto, que não lhe era estranho.
Nada estranho já que cresci a ouvir o meu pai a falar muito mal da política de Portugal, muito mal mesmo.

Por termos sido colonizadores?
Exatamente. O meu pai era político [foi ministro de São Tomé]. Ele falava mal da política portuguesa, mas era demasiado sportinguista para falar mal de Portugal. Enchia a boca com os ‘cinco violinos’ e eu não me chamo Peyroteo porque a minha mãe bateu o pé.

Recuemos então ao seu nascimento. Nasceu…
Na Guiné Equatorial.

Depois viveu em Espanha, em São Tomé e em Cuba. É um cidadão do mundo ou foram as circunstâncias da vida?
Foi a vida. Há quem diga que tive muita sorte, mas eu digo que foi azar. Sabe porquê? Porque isso não me deu raízes. Com o tempo descobri que faz muita falta ter um sítio que nos dê o sentimento de pertença. Não tive tempo para pertencer a lado nenhum.

Nem agora se sente de lugar nenhum?
Começo a sentir... graças ao Benfica.

Mas não cresceu a ouvir falar das proezas do Sporting?
Para contrariar o meu pai tornei-me benfiquista. Mas não só. Quando vivi em Espanha, dos poucos jornais portugueses que lá chegavam só falavam do Benfica e do Eusébio.

Considera que a vida não foi justa por não lhe dar uma pátria. Mas o seu passaporte é de cidadão são tomense, certo?
Por uma exclusão de partes acabo por ser de São Tomé. Lá é o único sítio onde não me perguntam de onde vim.

Em Portugal perguntam-lhe de onde vem?
Acho que por ser tão branco e louro (risos). Perguntam por causa da cor da minha pele. Eu próprio quando vou às escolas contar histórias, caio nesse erro. Pergunto às crianças de onde vêm. Admito que até eu tenho esse preconceito.


Sentiu na pele o racismo?

Na Guiné fui discriminado por não ser guineense e em Espanha sofri por ter uma cor de pele diferente da maioria.

Isso deixou marcas? Sofreu?
Deixa marcas e sofri muito. Acho que a sensação de não pertença é o resultado disso.

Como é que uma criança lida com isso? Arranja mecanismos para se defender dessas maldades?
É duro. Lembro-me quando deixamos a Guiné e fomos para Espanha passei a ser apontado com o dedo: ‘Mira, mira el negro’. Eu já sabia que era, mas não assim desta maneira tão dura. Ser apontado na rua é algo que estou habituado desde criança. O meu pai, preparou-nos para isso. Falou-nos da desigualdade que existe por uma questão histórica. Acho que onde o meu pai errou foi meter-me na cabeça que para ser igual ao branco – coisa que eu não queria – tinha de ser quatro vezes melhor. Acho isso muito injusto, pois criou uma grande pressão em mim. Se somos iguais porque é que tenho de ser quatro vezes melhor?

Pelo que está a dizer, a sua infância não terá sido nada fácil.
Não foi fácil, mas foi muito bonita. Cresci numa família de cinco elementos: o meu pai, a minha mãe, as minhas duas irmãs e eu. Até aos três, quatros anos éramos sempre quatro… o meu pai aparecia. Depois, passaram a viver connosco oito primos, sobrinhos do meu pai. Como ficaram órfãos vieram viver para minha casa e passaram a ser meus irmãos também. Quando fomos para São Tomé, depois de já termos passado por Espanha, conheci os meus irmãos paternos, que são 22, ou seja, o meu pai teve
25 filhos de 11 mulheres.

Falava da sua infância bonita…
Quando se vive numa casa cheia de gente, protegido pelos irmãos e pelos primos, só pode ter uma infância bonita. Cresci numa casa grande cheia de crianças que brincava ao Tom Sawyer, Mogli e ao Tarzan. Contudo, na altura em que o meu pai se apercebeu que brincávamos ao Tarzan chamou-nos e proibiu-nos de o fazer, já que não passa de uma metáfora da superioridade do homem branco.

Quando é que a sua vida dá uma reviravolta e percebe que afinal nem tudo era tão bonito quanto na infância?
Em 1976. Quando estava em Espanha passei muito tempo em colégios internos, portanto a data do meu aniversário, que é em abril, nunca foi muito importante para mim. Nesse ano, a minha mãe insistiu em fazer-me uma festa de aniversário. A explicação que me é dada é que essa poderia ser a última vez que estaria com a minha mãe. Não liguei, pois não sabia que ela estava muito doente, comum cancro.Quando ela embarcou em outubro rumo a Portugal, na despedida usou a palavra "adeus", coisa que ela não fazia. Perguntei-lhe: ‘Isso quer dizer que vai com Deus’, ela sorriu e não respondeu. Veio tratar-se e não regressou a Espanha tendo eu ficado como meu pai.

Depreendo que não foi fácil?
Ele era o que era: João Torres. Não tenho nada a dizer contra ele,a não ser o facto de o gajo gostar muito de mulheres. Naquela altura eu queria e precisava de um pai e ele queria mulheres.

Tem essa mágoa?
Ele era assim…é o pai que me coube.

Sempre foi assim, aceitar com um sorriso as coisas menos boas?
Depois de muito de pensar, sim. Houve uma altura em que senti uma grande raiva e revolta contra o meu pai, especialmente nos anos em que vivi em São Tomé, de 1976 a 1979. Eu e as minhas irmãs, os únicos filhos da mulher casada, ficamos órfãos de pais vivos, ou seja, o nosso pai era o que era e a nossa
mãe não estava connosco. Lembro-me que ela aparecia de vez em quando e, nessa altura, as minhas notas disparavam. Passava de aluno médio a aluno de excelência.

E como é que Cuba aparece no seu caminho?
Fui estudar para lá ao abrigo de um convénio que existia entre Cuba e os PALOP.

Chora-se muito por deixar a família?
Chora, mas eu tinha uma vantagem pois desde os seis anos que era profissional em colégios internos.

As noites eram difíceis?
Há momentos muito tristes, vazios, em que as saudades apertam mais.

Esteve sete anos em Cuba…
Os melhores da minha vida. Aquela politização que tive desde criança acabei por vivê-la na prática. Assisti a um país em construção com o socialismo em marcha. É claro que Cuba tem muitos erros, mas nunca vi uma divisão tão equitativa quanto lá. Nunca vi dividir tanto por tão pouco.

Ainda guarda Cuba no coração?
Só não voltei a Cuba com medo de lá ficar. Acabei o meu curso em junho de 1986 e desapareço,
para não ter de regressar a casa. Andava morto de amores por uma cubana e estava decidido a ficar. A única forma que o meu pai teve para me convencer foi dizer que tinha uma passagem para Lisboa. Como resistir à vontade imensa de voltar a ver a mãe?

Como foi o reencontro com a sua mãe?
Normal. Sou muito pouco expansivo na manifestação dos meus sentimentos.

Já conseguiu resolver isso?
A minha filha e a minha mulher continuam a ter essa queixa.

Está casado há 19 anos e só tem uma filha, a Mar. Nisso não saiu nada ao seu pai.
Absolutamente nada. Mas tenho pena de só ter uma filha. Se não fossem os dois abortos, acredito que hoje teria três filhas. Estou convicto que eram meninas.

E a história de amor com a sua mulher, como começou?
A primeira vez que a vi foi nas escadinhas de São Cristóvão. Eu estava a subir para ir para o Chapitô, onde estudava, e ela e a família desciam. Notei que falavam espanhol e para poder passar pedi-lhes ‘permisso’. Voltei a encontrá-la mais tarde e depois de alguns desencontros acabamos juntos até hoje. Ela é galega e estava a estudar em Portugal.

A vida compôs-se nessa altura?
Na verdade nunca se descompôs. Admito que foi uma vida dura, mas havia tanta coisa bonita no meio disso que a parte menos boa foi relegada para segundo plano. O "abandono" que vivi deu outras coisas.

Disse há pouco que chegou a ter raiva do seu pai. E da sua mãe?
Houve uma fase em que senti mágoa, não raiva. Mas a minha mãe era a vítima. Percebi isso desde cedo.

Se o chamassem para servir o seu país como político, iria?
Teria que recusar. A minha mãe não quer e seria um grande desgosto para ela. Se não fosse a promessa que lhe fiz talvez ainda ponderasse.







Está entusiasmado com 'Ouro Verde'?
Estou entusiasmadíssimo, diria. Sou o padre Sebastião, um homem tão diferente do Norberto…

Qual é a sua relação com Deus?
Depois de sete anos em Cuba, só posso dizer que o Fidel fez um bom trabalho. A minha mãe reza por mim.

Quando lhe perguntam de onde vem o que responde?
Por hábito digo que sou são-tomense. Agora estou a tratar da nacionalidade portuguesa por única razão: por tudo o que a selecção nacional me faz sentir e vibrar.

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