Foi na baliza do Benfica que muitos portugueses conheceram Robert Enke. Chegou à Luz em 1999, com apenas 21 anos, e tinha pela frente uma missão difícil: suceder a Michel Preud'homme. Acabou por conquistar rapidamente os adeptos e tornou-se uma das figuras da equipa durante as três temporadas em que vestiu a camisola encarnada.
Hoje, porém, é impossível recordar Enke apenas pela sua carreira desportiva. Por detrás do guarda-redes escondia-se, afinal, um homem que lutava contra uma doença que durante anos tentou manter longe dos olhares do público.
A depressão não surgiu apenas no final da sua vida. Segundo a família e o seu psicólogo, os primeiros problemas foram diagnosticados em 2003, numa altura em que a carreira atravessava uma fase particularmente complicada. A doença voltaria a manifestar-se em diferentes momentos, mesmo quando, aos olhos de todos, a vida profissional parecia correr bem.
Mas a derradeira machadada veio com a maior perda da sua vida. Robert e Teresa Enke eram pais de Lara, uma menina nascida em 2004 com uma doença cardíaca grave. A pequena enfrentou desde o nascimento problemas de saúde e passou por vários tratamentos. Em setembro de 2006, depois de uma simples operação aos ouvidos, Lara morreu. Tinha apenas dois anos.
A Fundação Robert Enke explicou que Lara sofria de síndrome do coração esquerdo hipoplásico e síndrome de Turner. Para os pais, foram dois anos de enorme preocupação, mas também de momentos de felicidade que guardaram para sempre. A morte da filha deixou uma marca profunda em Robert.
A família tentou reconstruir-se. Em maio de 2009, Robert e Teresa adotaram Leila, ainda bebé. A chegada da menina trouxe uma nova alegria, mas também aumentou os medos do guarda-redes. Robert receava que, se a sua doença mental se tornasse pública, pudesse perder a filha e ver a carreira destruída.
Era esse o paradoxo que vivia diariamente: quanto mais precisava de ajuda, maior era o receio de admitir que não estava bem. Por fora, continuava a ser um dos melhores guarda-redes alemães. No Hannover 96 tornou-se uma referência e aproximava-se de um dos grandes objetivos da carreira: representar a Alemanha no Mundial de 2010. Poucos meses antes da morte, era apontado como um dos favoritos para ocupar a baliza da seleção.
Mas, longe dos estádios, a situação era muito diferente. No outono de 2009, Enke voltou a atravessar uma fase particularmente difícil. A ansiedade, o medo de falhar e os sintomas depressivos regressaram. Chegou a ser ponderado o internamento psiquiátrico, mas o guarda-redes resistiu, receando que isso significasse o fim da carreira.
A 10 de novembro de 2009, Robert Enke morreu aos 32 anos. A notícia provocou uma enorme onda de choque na Alemanha e no mundo do futebol. Só depois da sua morte se percebeu verdadeiramente a dimensão da batalha que travava há anos.
A tragédia de Robert Enke acabaria por dar origem a um legado inesperado. Em janeiro de 2010 foi criada a Fundação Robert Enke, dedicada à prevenção e sensibilização para a depressão e, por vontade de Teresa Enke, também ao apoio a crianças com doenças cardíacas e às suas famílias. São precisamente as duas realidades que atravessaram a história da família: a doença que levou Lara e a doença que, durante anos, atormentou Robert.
Na Luz, a memória também permanece. Enke foi o primeiro guarda-redes alemão da história do Benfica e deixou uma marca muito particular durante os três anos em que representou o clube. Esta segunda-feira, no dia em que completaria 49 anos, o Benfica voltou a recordar o antigo guarda-redes: "Robert Enke faria hoje 49 anos. Para sempre na nossa memória!", lê-se na partilha feita nas redes sociais do clube da Luz.