Paulo Futre continua a ser uma figura difícil de encaixar numa definição. Aos 60 anos, o antigo futebolista mantém uma irreverência que atravessa gerações e que parece não ter sido apagada pelo tempo. É precisamente essa personalidade fora do comum que Luís Osório destaca na sua mais recente crónica 'Postal do Dia', onde lhe dedica um retrato cheio de admiração, sem esconder o lado mais inesperado do antigo internacional português.
"Foi um dos meus ídolos. E continua a ser um dos maiores", começa por confessar o escritor e jornalista, que considera que Futre nunca perdeu a capacidade de olhar para a vida com a espontaneidade de uma criança. "É absolutamente louco. E absolutamente único", escreve, antes de recordar a facilidade com que o antigo jogador continua a circular entre adeptos de clubes rivais, sendo recebido com a mesma familiaridade por sportinguistas, benfiquistas e portistas.
Mas há outro lado de Paulo Futre que Luís Osório não deixa de sublinhar: a versatilidade com que se apresenta ao público, sem perder a autenticidade. "Quando vende comprimidos para a ereção, bebidas energéticas, Queijo da Serra ou carros em segunda mão, acreditamos que é mesmo ele que nos está a falar", observa. Uma capacidade de surpreender que, na visão do cronista, faz parte da mesma personalidade que um dia conduzia um Porsche amarelo pelas ruas de Madrid.
A admiração não se fica pela irreverência ou pela imagem pública. Luís Osório recorda também a generosidade de Futre, nomeadamente os gestos de ajuda a colegas que atravessavam dificuldades financeiras e o envolvimento em ações humanitárias. A crónica ganha um tom mais íntimo quando o jornalista aborda a relação do antigo futebolista com a mãe, Maria Augusta, que sofreu de Alzheimer e deixou de o reconhecer. Luís Osório recupera uma das perguntas que terá marcado profundamente Paulo Futre: "Quem és tu?", terá perguntado a mãe, já sem conseguir identificá-lo.
"Sou o Paulinho, mãe. Sou o teu Paulinho", foi a resposta do antigo jogador, numa tentativa de recuperar uma ligação que a doença estava a apagar. A morte de Maria Augusta, pouco depois da pandemia, foi seguida de um episódio grave para Futre: sofreu um enfarte durante o funeral da mãe.
No final, Luís Osório acrescenta: "É uma criança de 60 anos." Para o cronista, Futre foi um dos melhores jogadores portugueses de sempre e poderia ter chegado ainda mais longe na história do futebol. Mas deixa uma interpretação pessoal sobre o percurso do antigo atleta: acredita que talvez não tenha querido carregar o peso dessa ambição, por ser demasiado grande para alguém que sempre precisou de se sentir livre.