Iryna Shev partilhou um relato dramático no programa da RTP 'Break the Wall', da autoria de Tomás Duran, que explora a literacia mediática e a memória histórica.
A correspondente do Expresso e da SIC na Ucrânia, país onde nasceu e vive, começou por admitir que "adorava" ir aos territórios ocupados pela Rússia, mas explicou porque motivo não o faz.
"Eu moro lá, eu sei como é que são as coisas, mas as pessoas que estão de fora, ainda por cima num país tão longínquo como Portugal, não têm que saber que não é assim tão simples ir ao outro lado. E eu vou explicar porquê", começou por dizer.
"Com um exemplo muito concreto que dá para entender logo tudo. Que é o exemplo de uma jornalista que se chama Viktoriia Roshchyna. Portanto, Viktoriia achava que tinha como missão ir ao outro lado, e ir ao outro lado não é passar a linha da frente. Ir ao outro lado é sair da Ucrânia, Polónia, Bielorússia, entrar na Rússia e por aí fora (...) Ela faz isto, ela dá esta volta toda uma vez, outra vez... e começam a ameaçá-la. Ela começa a dar nas vistas. E regressa, e os amigos e os pais imploram para ela não ir. Mas ela tem essa missão", continuou.
"Ela atravessa a fronteira uma última vez, é detida, fica quase um ano em cativeiro. Durante esse ano é torturada. Só pode fazer um telefonema aos pais quase um ano depois de estar detida. E quando regressa à Ucrânia, ela regressa num saco preto, a pesar 30 quilos, sem olhos e sem cérebro", contou então.
"Portanto, ser jornalista neste tipo de sítios é muito diferente daquilo que é ser jornalista fora de um sítio em guerra. E ir para território onde o jornalista é visto como inimigo – e em ditaduras o jornalista é visto como inimigo, e a Rússia é uma ditadura – é este o resultado que se tem", concluiu.
Viktoriia Roshchyna tinha 26 anos quando desapareceu, em 2023. Além da profanação do cadáver, o seu corpo apresentava marcas de eletrocussão. Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia, descreveu a sua morte como "um duro golpe" para os jornalistas ucranianos.
Entre os muitos comentários ao vídeo de Iryna, está o testemunho do jornalista Bruno Amaral de Carvalho, que aponta o dedo ao lado ucraniano.
"Bom, eu também não pude ir ao outro lado e gostava. Aliás, neste momento, estou na lista negra do Estado ucraniano, uma lista em que as pessoas aparecem com a palavra eliminado quando morrem ou quando são mortas. Houve jornalistas mortos por russos como por ucranianos, como o meu amigo Nikita Tsitsagi, com um colete a dizer PRESS, assassinado por um drone lançado pelas forças ucranianas", escreveu.