Mas quem é afinal a mulher com quem entre 2012 e 2014 o ex-primeiro-ministro José Sócrates terá tido uma relação mais íntima? O seu nome apareceu nas notícias em 2012. Imediatamente choveram notícias de várias conquistas amorosas do ex-primeiro-ministro, na sua maioria boatos. A primeira de todas foi Maria Célia Tavares, ex-assistente do programa 'Roda da Sorte', que era apresentado pelo humorista Herman José. Mas essa, provou-se mais tarde no âmbito da 'Operação Marquês', que não era boato, só segredo.
A mulher de pouco mais de 30 anos de idade era, à data das notícias que a ligavam a Sócrates, antiga 'personal shopper' da mãe do ex-político, Maria Adelaide, na Loja das Meias que funcionava num shopping de bairro no passeio fronteiro à residência de José Sócrates, na Rua Castilho, em Lisboa. Uns meses antes, a mesma senhora tinha aparecido nos escaparates das revistas nacionais como alegada namorada do popular cantor José Cid, na altura com 70 anos de idade. Uma notícia que alegadamente lhe terá valido ir engrossar, desde dezembro de desse ano, a lista do desemprego nacional.
Um colega da mulher na Loja das Meias revelou em 2017, em declarações à revista 'TV Guia', o que mudou na vida de Célia depois de Sócrates lhe dar a mão. "Ela vivia de forma bastante humilde, mas mudou de vida. Sempre teve a mania que era tia. Até que se despediu", contou um antigo colega de trabalho. "Na altura, não entendemos bem o que é que tinha acontecido, porque ela não era má funcionária", concretiza em declarações à mesma publicação.
Tempos depois surge o nome da antiga diretora da bienal Experimenta Design e organizadora de eventos Guta Moura Guedes, prima da jornalista Manuela Moura Guedes, eterna arqui-rival de Sócrates, e que acabaria por casar com o antigo homem forte da EDP António Mexia. Guta foi falada, mas nada de concreto terá acontecido, podendo ter sido uma simpatia de quem viu Célia a entrar na casa de Sócrates na Rua Braamcamp e de as ter confundido por serem fisicamente parecidas. Na mesma altura, o nome de Sofia Fava, ex mulher do antigo governante tinha voltado à baila, mas o casal ficou longe de uma reconciliação… para pena da sogra Maria Adelaide, que adorava a nora.
As mensagens com os pedidos de dinheiro a José Sócrates
Segundo o que se veio a provar em sede de investigação, Célia Tavares era uma amiga de Sócrates muito difícil de satisfazer. Trabalhara como personal shopper na Loja das Meias, mas, em 2012, quando o conheceu, estava desempregada, vivia num apartamento modesto na zona da Picheleira e voltara a estudar Direito. Sem meios para financiar o curso, era a Sócrates que recorria para pagar as propinas e cobrir outras despesas pessoais. Segundo o antigo semanário 'Sol', as conversas entre ambos acabavam sempre por embater nos problemas financeiros da mulher: "Olá querido, recebeste a minha mensagem? Tenho o seguro do carro que já venceu ontem e não tenho possibilidades para o pagar sem a tua ajuda. Desculpa. Bjs".
Célia não lhe daria um minuto de sossego em matéria de pedidos de ajuda, mesmo quando os interesses pareciam ser outros. Uma SMS enviada a 25 de maio de 2014, na noite das eleições para o Parlamento Europeu, ganhas pela lista do PS, encabeçada por Francisco Assis, ilustra o tipo de afinidade e de dependência que com ele ela mantinha: "Boa ganhámos… Zé estás bonito, estou a ver-te na RTP1. Mesmo com 60% de votos [já apurados] ganhámos. Olha, preciso de ajuda este mês, fiquei com pouco menos, como sabes. E tive muitos gastos. Obrigada, meu querido, e parabéns. Gostava que fosses tu ali em vez do Assis. Bjs".
Ouvida pelo Ministério Público, Célia admitiu que quem lhe pagava as dádivas do ex dirigente socialista, numa rotina quase mensal, eram, à vez, o seu motorista, João Perna, ou o amigo Carlos Santos Silva. Para o MP, as ajudas vinham em código e foi isso que tentou decifrar em inquérito. Em causa estão as conversas sobre "garrafas de vinho" que acabaram "num envelope". A mulher amiga do antigo primeiro-ministro confirma ter recebido "ajuda em dinheiro". Sócrates também lhe terá proporcionado outros bens. A relação terá sido mantida em segredo, ao ponto de ninguém saber dela, a não ser o círculo mais chegado de Sócrates, que incluía o amigo Carlos Santos Silva, que alegadamente emprestava avultadas quantias de dinheiro a José Sócrates, o que fez espoletar todo o Caso Marquês.
De acordo com o 'Correio da Manhã', Célia Tavares confirmou, esta quinta-feira, 18, em tribunal, no julgamento do processo Operação Marquês, ter recebido envelopes com dinheiro. Aos juízes, Célia Tavares disse que recebeu por diversas vezes à porta de sua casa envelopes com valores entre 300 e 400 euros, e cerca de 2 mil euros por transferência bancária. O dinheiro seria para pagar despesas pessoais relacionadas com a casa e a faculdade. Célia Tavares disse ainda que fez 17 viagens a Paris, França, tendo conhecido duas casas de José Sócrates.