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Betty Grafstein e a vida como um "rato na ratoeira". A pressão social, as aparências e a força secreta que a levou a pôr fim à violência doméstica

Durante anos, a fachada em que vivia falou mais alto, bem como o medo da vergonha e condenação social. Porém, aos 97 anos, com a saúde muito frágil e já parcialmente cega, Betty decidiu repor a sua verdade, num testemunho duro e honesto em que aceitou contar tudo o que garante ter vivido às mãos de José Castelo Branco.
Rute Lourenço
Betty Grafstein, uma "rato na ratoeira", enfrentou pressões sociais e violência doméstica
Betty Grafstein, uma "rato na ratoeira", enfrentou pressões sociais e violência doméstica Foto: D.R.

Até à última terça-feira, dia 29, a dúvida persistia. Iria Betty Grafstein quebrar o silêncio sobre o caso de violência doméstica? O estado frágil da socialite, de 97 anos de idade, acamada e já parcialmente cega, bem como o facto de nunca ter querido falar sobre o assunto poderia fazer crer que a antiga joalheira se iria remeter ao silêncio, no entanto, Betty usou toda a sua força para colocar um ponto final num caso que, segundo a própria, marcou a sua vida, durante 30 anos, o tempo que durou o casamento com José Castelo Branco.

Betty Grafstein revela receio de Castelo Branco e agressões durante casamento
Betty Grafstein revela receio de Castelo Branco e agressões durante casamento

Ouvida através de videconferência desde Nova Iorque – e sem o filho, Roger, por perto, por impedimento do tribunal – Betty não se negou a responder às perguntas mais difíceis, mesmo que recordar o passado lhe exigisse um esforço hercúleo. Está frágil, fruto da idade e dos problemas de saúde, que fazem com que já praticamente não tenha mobilidade e também mal consiga ver. Ainda assim, e de como a própria afirmou, muitas vezes já não se lembrar do que fez "na semana passada", há marcas que não esquece e que ficaram gravadas, pelo perpetuar da violência que, segundo Betty, começou quase a par e passo com o início da relação.

Enquanto a ainda mulher falava, José Castelo Branco assistia ao depoimento, mas com a câmara e microfone desligados, por imposição do Tribunal de Cascais, o que impediu Betty de ouvir as reações deste às acusações, e que poderiam coagi-la ou despertar gatilhos. Falou, então, pela primeira vez sem constrangimentos e já liberta da pressão social que, assume, a impediu de, durante anos, denunciar a violência de que sofria.

Betty Grafstein e José Castelo Branco
Medialivre
Betty Grafstein e José Castelo Branco

"A violência acontecia normalmente no dia a dia", assume, acrescentando que os dois tinham um estilo de vida muito peculiar. "Nós tínhamos um estilo de vida difícil, não era igual ao das pessoas normais. Não consigo dizer mais do que isso. Era muito internacional, muitas pessoas conheciam-me. Estava nas revistas e em todo o lado. As pessoas conheciam o nosso estilo de vida e isso era muito difícil. Se fosse inventado eu não estaria em tribunal. Eu não estou a inventar nada, eu tinha muitas lesões e há registos das minhas lesões", contou Betty num relato impressionante, em que garantiu que as agressões eram constantes e muitas das vezes inesperadas, com a situação mais comum a poder desembocar num episódio de violência doméstica.

Um dos casos que mais foi abordado durante o processo prendeu-se com os saltos altos que Betty usava, com a socialite a confirmar que, apesar de estes lhe causarem desconforto, era obrigada a calçá-los, sob o risco de o marido ficar muito chateado.

José Castelo Branco e Betty Graffstein
José Castelo Branco e Betty Graffstein Foto: Medialivre

"Era do tipo de sapatos que me magoavam os pés. Eu queixava-me e ele não ficava muito contente com isso. Ele forçava-me e era violento. Era aí que ele me empurrava, muito chateado. Deixava de ser simpático", recordou, adiantando que o português lhe impunha também uma dieta rigorosa para que se mantivesse magra e que as agressões eram tanto físicas como verbais. "Eu nunca sabia o que ia acontecer, ele agredia-me tantas vezes, com socos. Fui esmurrada. Eu nunca sabia onde é que ele me ia atingir, era em todo o lado. Com tanta frequência."

Negociador de arte e mulher/esposa posam durante o evento. Socilalite,
Sérgio Lemos
Negociador de arte e mulher/esposa posam durante o evento. Socilalite,

Perante o tribunal, Betty admitiu também que muitas das marcas deixadas no seu corpo por Castelo Branco eram posteriormente maquilhadas para passarem despercebidas e que o marido ergueu muros, isolando-a na sua violência, afastando-a, inclusivamente, do próprio filho. "Era como um rato numa ratoeira", disse, numa imagem simbólica representativa de como se sentia encurralada no casamento violento.

Apesar de se ter mostrado sempre solícita, Betty demonstrou alguma dificuldade em regressar ao passado, não só pelo facto de os episódios já terem ocorrido há muitos anos, mas também pelo desconforto que determinadas memórias lhe continuam a provocar. "Oh Meu Deus. Já foi há tantos anos. Está a ficar complicado ouvir isto", disse perante uma das questões, mantendo sempre a força para levar o depoimento até ao fim, naquilo que é visto como um verdadeiro ato de resistência da veterana, que desde que saiu de Portugal, em maio de 2024, está a residir numa unidade de cuidados continuados no coração de Nova Iorque, tendo recuperado a relação com o filho Roger e mantido-se afastada de Castelo Branco, que também está a viver na mesma cidade. "É um homem muito complicado e mau. Eu nunca conheci ninguém tão mau neste mundo", concluiu.

A VIDA DE CASTELO BRANCO EM NOVA IORQUE

Aproveitando uma zona cinzenta da Justiça portuguesa, José Castelo Branco conseguiu viajar para Nova Iorque, fintando o impedimento de sair do País, e não mais voltou a Lisboa, refazendo a sua vida nos Estados Unidos, onde permanece há mais de um ano e meio.

José Castelo Branco enfrenta nova batalha judicial com risco de perder casa em Nova Iorque
José Castelo Branco enfrenta nova batalha judicial com risco de perder casa em Nova Iorque

No arranque do julgamento do caso de violência doméstica, recusou prestar depoimento e assistiu às palavras de Betty por videochamada, bem como da empresária Marcella Fernandes, um testemunho-chave, uma vez que terá sido a angolana a desencadear todo o processo ao se aperceber da situação que Betty enfrentava quando esteve com o casal em Portugal, aquando do batizado da neta de Castelo Branco, Constança. A próxima audiência acontece no dia 6 de outubro e José Castelo Branco arrisca uma pena que pode chegar aos cinco anos de prisão (Artigo 152.º do Código Penal).

Aos 63 anos, recorde-se, o socialite português viu o tribunal de Nova Iorque conceder-lhe o direito a residir no apartamento alugado que partilhava com Betty, no coração da cidade, e com uma renda bastante baixa, por se tratar de um contrato já bastante antigo. As últimas informações davam conta de que tinha iniciado um trabalho como relações públicas de uma clínica dentária nos Estados Unidos, mas na verdade pouco se sabe acerca da vida do marchand d'art do outro lado do Atlântico, excetuando as informações que o próprio vai fornecendo através das redes sociais.

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