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Da dor uma força! Como Cristiano Ronaldo construiu a mentalidade vencedora e mantém o foco para superar os maus momentos

No dia a seguir à morte do pai, em 2005, disse a Scolari que queira jogar, pois nada mais havia que pudesse fazer pelo progenitor. O exemplo é antigo, mas representa bem a mentalidade vencedora de Cristiano Ronaldo que não cruza os braços perante os problemas e faz, muitas vezes, da dor a sua força.
Cristiano Ronaldo
Cristiano Ronaldo

Na passada terça-feira, dia 23, Cristiano Ronaldo foi o símbolo da resiliência lusa, contra o Uzbequistão. Marcou dois dos cinco golos de Portugal e foi considerado o 'homem do jogo' numa conquista com particular importância para o craque, pois surgiu no seguimento de uma semana difícil. Criticado devido à exibição na primeira partida, CR7 conseguiu dar a volta e, após o desafio, era a imagem da confiança e felicidade. "Foi uma semana difícil, escura, parecia que já estava retirado do futebol, mas aguentei-me como me aguento sempre porque acredito mais no trabalho do que noutra coisa. Foi difícil, tenho que confessar, mas estamos de volta", disse aos jornalistas após o jogo, acrescentando que os obstáculos não o demovem, pelo contrário.

"Eu chego sempre, mais cedo ou mais tarde eu estou lá. Por isso, é continuar o meu trabalho. Acredito muito naquilo que faço, acredito muito que quem trabalha Deus ajuda. A minha carreira foi sempre assim, não iria mudar nada. Estou muito feliz, para mim o mais importante e o principal é a equipa, estar unido com eles, estarmos unidos com as nossas famílias, que isso sabemos que podemos controlar."

E a verdade é que Cristiano Ronaldo sempre foi assim e o seu percurso é, precisamente, a maior prova de como o capitão da Seleção sempre fez das dores a sua força. Começou bem cedo quando, separado da família, se fez homem na Academia do Sporting para perseguir o sonho de ser futebolista e persistiu sempre. Numa idade mais avançada, a imagem é, talvez, uma das mais impactantes da sua carreira. Ronaldo estava em estágio com Luiz Felipe Scolari quando soube que o pai, gravemente doente, tinha falecido. 

"Foi muito difícil. Foi o momento que criou um laço muito forte entre nós, um laço que ultrapassa a relação entre treinador e atleta. Quando a notícia chegou até nós, antes de um jogo contra a Rússia, ninguém sabia como contar-lhe e ninguém queria fazê-lo também. Então eu disse-lhes que faria isso porque sabia como era perder um pai, pois tinha perdido o meu uns anos antes", começou por contar Scolari, acrescentando que, em vez de se retirar, Ronaldo disse precisamente o contrário. Queria entrar em campo. "Foi muito triste, mas é o tipo de momentos que nos faz criar uma relação de amizade verdadeira. No dia seguinte, o Cristiano fez um jogo maravilhoso e regressou a Portugal. Ele pediu para jogar. 'Não posso fazer nada pelo meu pai hoje, então vou jogar amanhã e depois vou embora'".

Mais do que um episódio isolado, o que a história de 2005 mostra é outra coisa: Ronaldo construiria na dor uma mentalidade vencedora, que em vez de o paralisar o empurra para a frente. Essa combinação de disciplina emocional e exigência competitiva é uma das razões pelas quais o futebolista se mantém, há tantos anos, como uma figura central em contextos de máxima pressão no futebol mundial. Mesmo que, competitivo, se irrite facilmente quando o questionam sobre os seus 'rivais', como Messi, ou que tenha pavio curto para polémicas que se alastram para fora das quatro linhas.

AS DORES ULTRAPASSADAS POR CRISTIANO RONALDO

No final do jogo contra o Uzbequistão, CR7 referiu também a importância da família, que no seu caso concreto construiu ao lado de Georgina Rodríguez, com quem tem quatro filhos. A modelo espanhola tem sido o grande pilar do jogador fora dos relvados, com os dois a unirem-se nas conquistas - que são muitas - mas também nos momentos de dor, que à semelhança de tantas outras famílias lhes batem à porta.

Um dos mais difíceis de gerir aconteceu, sem dúvida, em 2022, quando perdeu o filho Angel - gémeo de Bella Esmeralda - no momento do parto. O jogador, que estava numa fase particularmente sensível, em rota de colisão com o Manchester United, lembra os momentos difíceis, mas também a união da família. "Apoiámo-nos muito", começou por contar o futebolista, revelando que, dentro da dor, a família conseguiria encontrar uma forma de se reerguer, com base no amor comum. "O que aconteceu consolidou a nossa relação. Uma coisa que aprendi com o passar do tempo é que mesmo nos piores momentos é preciso fazer com que as coisas avancem. É preciso encontrar um equilíbrio."

Apesar da dureza do momento, Ronaldo admite que a dura perda o fez valorizar ainda mais tudo o que já tem, e nomeadamente as pessoas que o rodeiam. "Vi a vida com outra perspetiva. Bella, que agora tem três anos, é a rainha da família, a alegria da casa. Tudo acontece por uma razão, acredito nisso. Somos muito abençoados".

Um mantra que CR7 parece levar e adaptar a tudo numa vida que, apesar das conquistas profissionais, já o tem colocado várias vezes à prova. Da perda do pai, quando ainda era muito jovem, aos muitos sustos de saúde com a mãe, Dolores, Cristiano Ronaldo mantém sempre a fé intacta e a crença de que o amanhã será melhor, tal como acontece agora num Mundial que o craque espera que seja épico para a Seleção.

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