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Nova lua-de-mel para Letizia e Felipe. Como os reis enterraram a grande crise no casamento

Após 22 anos de vida em comum e uma gigante crise conjugal, os reis de Espanha parecem ter conseguido ultrapassar finalmente o mau momento. Com as filhas longe de casa e novos desafios para gerir, tornaram-se no apoio um do outro.
Rute Lourenço
Rute Lourenço
Letizia e Felipe VI
Letizia e Felipe VI

Letizia e Felipe são os maiores guardiões da sua própria privacidade. Se há polémicas, estas chegam à praça pública por palavras de terceiros, sendo que dos reis aquilo que sabemos é o que podemos, muitas vezes, adivinhar pela própria linguagem corporal. E se é verdade que nos momentos mais tensos, como quando a rainha foi acusada de ter sido infiel ao marido com o antigo cunhado Jaime del Burgo, muitas vezes havia um distanciamento físico entre os monarcas nos mais variados atos oficiais, a verdade é que esse fosso parece ter-se esbatido e nos últimos tempos temos assistido a um casal mais próximo, como aconteceu numa aparição recente, em que a troca de olhares cúmplices e sorrisos entre Felipe e Letizia não passaram despercebidos. Há quem diga que é uma espécie de nova lua-de-mel para quem tem travado duras tormentas no casamento.

Ao longo dos anos, Felipe e Letizia habituaram o público a uma relação marcada pela discrição. Raramente trocam demonstrações públicas de afeto, mas os pequenos gestos acabam por dizer tudo. Especialistas em linguagem corporal têm apontado repetidamente a forma como comunicam através do olhar, das expressões e da proximidade física, revelando uma confiança construída ao longo de mais de duas décadas de vida em comum. 

A história dos dois também ajuda a explicar esta ligação. Quando anunciaram o noivado, em 2003, a relação gerou polémica por Letizia ser jornalista, plebeia e divorciada. Ainda assim, o então príncipe Felipe manteve-se firme na decisão de construir uma vida ao lado daquela que viria a tornar-se rainha. Vinte e dois anos depois do casamento celebrado em Madrid, a união transformou-se num dos pilares da monarquia espanhola, resistindo a desafios familiares, institucionais, à pressão constante da opinião pública e às diversas crises que vão surgindo.

A relação tem conseguido, no entanto, superar todas as crises e mudanças, como foi o caso do crescimento das filhas, Sofia e Leonor, que saíram de casa para prosseguir a sua vida, deixando os pais isolados, mas mais unidos, no Palácio.

UMA UNIÃO DE ALTOS E BAIXOS

Foi há 22 anos que Felipe e Letizia trocaram alianças num casamento em que o mundo se rendia à beleza da atual rainha espanhola, uma plebeia que deixava, então, a carreira de jornalista para entrar na família real, convertendo-se na princesa das Astúrias. Com uma personalidade forte, cedo se percebeu que Letizia iria deixar a sua marca e a verdade é que, nas duas últimas décadas, ela tem sido protagonista de algumas das mais bonitas mas também polémicas histórias da monarquia do país vizinho. Converteu-se num ícone de estilo, na mãe sempre presente para as suas filhas, mas como no melhor pano cai a nódoa, há um ano e meio, a Casa Real vivia um dos momentos mais difíceis, com os rumores de que a rainha tinha sido infiel ao marido com o antigo cunhado, Jaime del Burgo.

Desde então, muito se tem falado acerca do estado do casamento dos reis, com constantes especulações de que o divórcio está por um fio, de que apenas vivem um casamento de fachada, e que levam vidas separadas no Palácio. No entanto, nunca nada foi confirmado oficialmente.

À revista espanhola 'Lecturas', Lara Ferreiro, especialista em terapias de casal, que analisa frequentemente assuntos da realeza, revelou que, o que se sente quando se presencia uma imagem dos reis, é que o muito que passaram serviu para os unir. "Passaram mal, mas com isso atingiram uma fase de muito maior profundidade, estão numa fase de amor profundo", avança a especialista, acrescentando que, ao longo dos últimos 20 anos de casamento, os dois têm passado por muitas crises e provas de fogo, mas que têm sempre conseguido superar as adversidades.

"Vê-se que estão calmos e tranquilos. Eles perdoaram por tudo o que aconteceu, mesmo que outras informações venham à tona. Estão até numa fase de maior carinho, como um casal que passou por muita coisa junto e aguenta tudo. Afinal, são mais de 20 anos", explica.

De acordo com a especialista, a idade dos reis é outro fator interessante e que, na sua forma de encarar as relações, ajuda à longevidade da mesma. E explica porquê. "Eles têm cinco anos de diferença de idade (Letizia tem 53 e Felipe 58), o que é muito interessante. A idade ideal no amor é de um ou dois anos de diferença, cinco no máximo, e são estes que costumam ter relações mais longas. Daqueles que têm mais de dez anos de diferença do parceiro, 50% terminam o relacionamento e geralmente ficam pelo caminho, com discussões frequentes acerca de temas fraturantes. Aqueles com mais de 20 anos de diferença geralmente não passam dos primeiros anos de relação, em 95% dos casos".

A GUERRA COM JUAN CARLOS

Toda a vida se soube que a relação entre Juan Carlos e Letizia não era salutar, mas até há pouco tempo nada era muito mais claro do que rumores que corriam no Palácio de um relacionamento tenso, que muitos atribuíam ao feitio incompatível dos dois. O assunto foi, no entanto, pela primeira vez clarificado pelo próprio monarca, de 87 anos, quando publicou as suas memórias de vida, reunidas no livro 'Reconciliação'. Com uma saúde cada vez mais débil e longe de casa, a obra soa a ajuste de contas com o passado e também a uma vontade de não deixar pontas soltas, mas sim, tudo esclarecido.

Sobre a nora, Juan Carlos admitiu que sempre teve um ascendente forte na vida de Felipe e que as mudanças começaram logo no início da relação, com este a afastar-se "não só dos pais e das próprias irmãs" como também de alguns amigos de infância. No entanto, admite que apesar de se ter apercebido disso desde muito cedo, nunca tentou interferir nas escolhas do filho. “[Felipe] tinha trinta e quatro anos e sabia o que queria. Assim como com as minhas filhas, que se casaram com os homens que amavam. Nunca tentei influenciá-las ou fazer de cupido. E se tentei, foi em vão”, pode ler-se no livro.

Apesar das divergências, Juan Carlos tinha esperança que, com o passar dos anos, pudesse haver uma maior harmonia na família, algo que, refere, nunca aconteceu e que o rei fazia para que não fosse notório nos compromissos públicos em que tinham de estar juntos. "O sucesso deles enquanto casal era uma garantia para o futuro da Coroa."

A maior dor, afirmou Juan Carlos, prende-se com o facto de a má relação com Letizia ter interferido na convivência com as netas, Sofia e Leonor, que o rei emérito afiança que, apesar de afetuosa, nunca foi cúmplice, à semelhança do que acontecia com os seus outros netos.  “Elas são muito elegantes e afetuosas, mas entristecia-me não poder estabelecer um relacionamento mais pessoal com elas, contar histórias, partilhar refeições em restaurantes, viajar com elas, levá-las a assistir a jogos, como fazia com os meus outros netos."

No livro, Juan Carlos elogiou ainda a forma como o filho e a nora educaram as filhas, mas disse que sempre lhes faltou esse contacto próximo com a família, algo que não era apenas dirigido a si, mas também à mulher, a rainha Sofia. "A minha mulher nunca pôde recebê-las sozinha em Palma, como costuma fazer com todos os seus primos. Ela via as netas ocasionalmente, mas adoraria tê-las visto com mais frequência, especialmente porque moram a apenas cem metros de distância. Queria transmitir-lhes a nossa genealogia, história e valores familiares. E alguns conselhos de uma ex-rainha com um histórico impecável para uma futura rainha", disse, acusando Letizia de não se esforçar por contrariar a sua natureza e de ter tentado criar pontes entre a família, ao contrário do que ele próprio afirma ter feito. “Sempre fui um lobo solitário (foi assim que fui criado), mas cumpri o meu papel de homem de família de coração: reunia os meus filhos com a avó para o almoço de domingo, as minhas irmãs e as suas famílias para o Natal, e sempre estive disponível para meus primos, sobrinhos e sobrinhas, e meus muitos afilhados.”

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