"As pessoas acham que me conhecem, mas não me conhecem. E ainda bem que não." As palavras são de José Mourinho que abriu uma exceção na sua habitual reserva para entreabrir a porta da sua vida num documentário de três episódios, que estreou esta semana na Netflix. Com o rosto fechado que é a sua imagem de marca, o técnico desculpa-se que não gosta de falar do seu lado mais pessoal, ainda que, para explicar a sua paixão pelo futebol aceite, por exemplo, falar sobre a família ou os bastidores de alguns dos casos que marcaram a sua carreira, como a guerra com o antigo guarda-redes Iker Casillas.
Aconteceu pouco depois de 'Mou' chegar ao Real Madrid. Os dois coabitariam durante três anos, ao longo dos quais a relação entre capitão de equipa e treinador se acabaria por degradar, até chegar a um momento de grande tensão. Sobre o assunto, o português explicaria no documentário que não gostou de algumas reivindicações de Casillas logo desde o início. "A primeira vez que falei com Casillas, sugeriu que os jogadores que regressavam dos seus compromissos internacionais tivessem alguns dias adicionais de folga. A segunda vez, quis adiar o treino devido ao trânsito. A terceira vez, sugeriu que os jogadores não tivessem de se reunir antes do jogo. Percebi que os jogadores estavam mimados", relatou o treinador, acrescentando: "Acho que os jogadores estavam fartos de mim enquanto líder e eu também estava farto deles. Eu também estava farto deles, não eram apenas eles que estavam fartos de mim."
Outro dos assuntos passados em revista foi a famosa chamada que o guarda-redes fez para Xavi, seu rival no Barcelona, precisamente antes do clássico entre os dois clubes. "Isto é um Barcelona-Real Madrid. Quando forem para a Seleção podem dar dois beijos, mas agora não. Isto é guerra", enfatizou Mourinho, acrescentando: "Há coisas que não aceito nem aceitarei nunca. Quando alguém não me respeita, torna-se um problema."
No documentário, Sami Khedira, que atualmente faz parte da equipa técnica de Mourinho no Real Madrid, recorda como o conflito entre o treinador e Casillas se agravou ao ponto de se tornar insustentável. "Iker era uma lenda do Real Madrid, muito querido pelos adeptos. Mourinho sentou-o no banco e deixou de lhe falar, falava mal dele nos meios de comunicação... O balneário tornou-se um inferno."
Segundo Khedira, aquilo foi apenas o princípio de um conflito que acabaria por atingir grandes dimensões:
"Depois disso, a relação entre José e muitos jogadores, como Cristiano Ronaldo e os espanhóis, ficou quebrada. E esses jogadores eram muito importantes para o ambiente do balneário, que acabou por ficar envenenado."
A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA E O FUTEBOL , QUE É VÍCIO E PAIXÃO
José Mourinho dedicou toda a sua vida ao futebol, não sem custos pessoais, que sabe que tem de pagar, diariamente. Pelo meio da sua carreira, a família foi-se espartilhando e, à medida que os dois filhos cresciam, a distância aumentou. Se inicialmente Matilde, a mulher com quem está junto desde a juventude, o acompanhou para onde quer que fosse, algures, quando o técnico se mudou para Manchester, deixou de o fazer, com o clã a estabelecer a sua base em Londres.
Hoje, Mourinho sabe que a dedicação ao futebol o fez perder muita coisa, mas admite que não conseguiria ser de outra forma. "É difícil para eles. Às vezes sentes-te culpado, às vezes sentes: 'eu devia estar lá. Não estou lá.' Mas não quero que pensem quer a família é menos importante para mim. Estão numa posição que nem se compara ao futebol. Mas para dizer a verdade, sei que desfrutam muito mais da vida sem mim", explica, referindo-se ao mediatismo que, por vezes, rouba a privacidade à família. "É a verdade, irem a um restaurante sem mim é diferente de irem comigo. Eu tento protegê-los o máximo possível, mas muitas vezes não consigo, falho. Não é fácil."
José Mourinho explica ainda que tem muita dificuldade em encontrar outras paixões para lá do futebol. "Invejo os meus colegas que têm maneiras de relaxar e se divertir. Invejo-os. Eu não sou assim. O futebol é um trabalho que me absorve e eu sou assim. Não faço jardinagem, não cozinho, não jogo golf, não jogo padel, nada", diz o técnico que apenas ficou sem palavras quando o assunto foi um: a morte do pai, o seu grande ídolo: Félix Mourinho. "Não me façam chorar, não quero."