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Há um novo Poeta da Cidade. Chama-se Pedro Freitas, escreve, declama e assume: "Sou talvez um produto do romantismo"

Com o Dia Mundial da Poesia, a celebrar-se a 21 de março, a The Mag esteve à conversa com 'O Poeta na Cidade', um jovem talento que se quer tornar um nome "inevitável" na literatura portuguesa
Célia Esteves
Célia Esteves
17 de março de 2022 às 22:00
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Pedro Freitas, Poeta da Cidade Foto: dr

Não quero um inverno frio
nem ver a neve n’outra pessoa.
Quero um verão eterno, bravio,
a tua presença no sol quente e tardio
numa sala no alto da madragoa.
Quero sorrir-te à beira-cama,
beijar-te à beira-mar,
ser teu, de manhã, sem pijama,
beirar-me do teu corpo – desarmar
essa chama que me enlouquece.
És corpo de mulher – ardente
horto onde semeio o meu crer.
num sopro és átomo e eu, crente,
sou outro – metafisicamente
duas metades do mesmo ser.

O poema chama-se 'Sofá para o Tejo' e a autoria é de Pedro Freitas, jovem poeta, que daqui a menos de duas semanas, a 31 de março, completa 24 anos, e ontem apresentou em São João da Madeira, o seu primeiro espetáculo intitulado Metafisicamente d'outro Mundo, com inspiração em Ela, Metafisicamente d'outro Mundo, o seu primeiro livro de poesia.

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'Ela, Metafisicamente d' Outro Mundo', de Pedro Freitas

"Lembro-me de escrever poemas para a minha avó tinha sete, oito anos."

Autor do site O Poeta da Cidade, o estudante finalista de Ciências da Linguagem – Linguística começou cedo a escrever. "Lembro-me de escrever poemas para a minha avó tinha sete, oito anos. Escrevia para a minha mãe, para a minha namorada. Na altura, as mulheres da minha vida. E depois, à medida que fui crescendo com os desenvolvimentos emocionais, mas também físicos, fui descobrindo outras formas de interpretar a poesia. Nomeadamente, com o pai do Sam The Kid, o Napoleão Mira, que foi uma das minhas grandes inspirações. Ele mostrou-me a arte de dizer poesia e comecei a fascinar-me pelo mundo da declamação. E a partir daí, foi uma questão do tempo passar, trilhar o meu caminho e hoje estamos aqui", conta à The Mag, Pedro Freitas.

Nessa altura, surgiu também o seu canal no Youtube. "Queria começar a fazer alguma coisa e, sempre tive esta noção, se calhar um pouco egoística de mim próprio, mas nunca quis deixar que outras pessoas apostassem sem que eu apostasse em mim e esse canal foi uma tentativa de perceber se há aceitação para o que faço", adianta o jovem poeta, que escreve e declama a poesia que escreve.

E para inspiração tudo serve, não há um momento. "Quando sinto algo, ou acontece algo, que sei que poderá vir a provocar o desejo de escrever tento anotar o que quer que tenha sido essa ação, sentimento ou o que quer que seja que tenha despoletado isso. E, só mais tarde, num exercício de recapitulação daquilo que senti, é que volto a pegar e tento escrever", revela o artista, que se apresentou a si, e ao seu talento, ao mundo, aos 18 anos, quando participou no concurso da RTP, Got Talent.  Foi a sua estreia frente às câmaras.

"Precisava de provar que aquilo que escrevia tinha valor para as outras pessoas e essas pessoas estavam dispostas a pagar isso."

Nessa altura, já tinha começado a escrever o livro, inspirado numa relação que teve, que lançou em dezembro último e que já vai na sua segunda edição. Também o site O Poeta na Cidade foi criado quando decidiu que iria publicar o livro. "Já tinha este desejo de escrever um livro há muitos anos e já o andava a escrever há muitos anos. Começou em 2014 e sempre disse que o iria publicar acontecesse o que acontecesse, e há um ano decidi que já tinha passado tanto tempo e que já andava a escrevê-lo há tantos anos que decidi levar a ideia a fundo e fechar o livro, e passei uns meses a tentar encerrar o livro e quando o fiz, em agosto do ano passado, decidi que ia publicá-lo por minha conta. Uma vez mais usei aquela minha ideia de que se eu não estou disposto a apostar em mim, não posso estar a pedir a outras pessoas que o façam e nesse sentido decidi que ia publicar o livro sozinho", recorda, certo de que tomou a decisão certa. "Precisava de provar a mim próprio que aquilo que escrevia tinha valor para as outras pessoas e essas pessoas estavam dispostas a pagar isso", confessa o poeta que vendeu 600 exemplares em menos de dois meses. "E agora já tenho a segunda edição também e estou a vender muito bem para uma pessoa que é independente e está a fazer tudo sozinho", refere orgulhoso.

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Pedro Freitas, Poeta da Cidade Foto: dr


Confiante de que vai conseguir conquistar as camadas mais jovens para o mundo da poesia, Pedro Freitas decidiu que não queria uma apresentação formal do seu livro e por isso criou um espetáculo musical. O primeiro aconteceu ontem em S. João da Madeira, mas outros se seguem.

"Esta questão do amor, e tudo aquilo que roeia a parte sentimental, é algo que me fascina bastante e sobre a qual escrevo muito"

"Ser só poeta, passar a minha vida toda só dependente da escrita é pouco para mim. Sinto que tenho mais valências do que só a escrita, e ainda por cima tenho esta outra vertente que muitos outros escritores não têm, que é o dizer poesia, dizer textos, ter jeito para o fazer. Portanto, é uma questão de aliar as duas coisas. São duas coisas que trabalham muito bem em conjunto, portanto pretendo fazer disto vida, pretendo aliar a todo um outro conjunto de atividades que rodam todas à volta da poesia, como o mundo do espetáculo. Quero tentar quebrar um pouco o paradigma da forma como encaramos a literatura e a arte como coisa muito formal e muito fechada em si própria. Quero tentar abrir os horizontes daquilo que se pode fazer com um livro, daquilo que se pode fazer com a poesia" confessa Pedro Freitas que apesar de confessar que tudo lhe serve de inspiração, o amor está sempre em primeiro lugar.

"Talvez tenha um padrão, sou talvez um produto do romantismo. Sou um romântico, daquele romantismo às vezes bacoco", revela o artista, salientando ainda: "Esta questão do amor, e tudo aquilo que rodeia a parte sentimental, é algo que me fascina bastante e sobre a qual escrevo muito."

E qual a palavra favorita do poeta? "Inevitável é talvez a minha palavra favorita", diz Pedro Freitas convicto que daqui a dez anos "já é tempo mais do que suficiente para me tornar uma figura inevitável da literatura, da forma como encaramos a arte, a arte literária, a arte poética, esse é o meu maior objetivo".    

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