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Há um novo Poeta da Cidade. Chama-se Pedro Freitas, escreve, declama e assume: "Sou talvez um produto do romantismo"

Com o Dia Mundial da Poesia, a celebrar-se a 21 de março, a The Mag esteve à conversa com 'O Poeta na Cidade', um jovem talento que se quer tornar um nome "inevitável" na literatura portuguesa
Célia Esteves
Célia Esteves
Pedro Freitas, Poeta da Cidade
Pedro Freitas, Poeta da Cidade Foto: dr

Não quero um inverno frio

nem ver a neve n’outra pessoa.

Quero um verão eterno, bravio,

a tua presença no sol quente e tardio

numa sala no alto da madragoa.

Quero sorrir-te à beira-cama,

beijar-te à beira-mar,

ser teu, de manhã, sem pijama,

beirar-me do teu corpo – desarmar

essa chama que me enlouquece.

És corpo de mulher – ardente

horto onde semeio o meu crer.

num sopro és átomo e eu, crente,

sou outro – metafisicamente

duas metades do mesmo ser.

O poema chama-se 'Sofá para o Tejo' e a autoria é de Pedro Freitas, jovem poeta, que daqui a menos de duas semanas, a 31 de março, completa 24 anos, e ontem apresentou em São João da Madeira, o seu primeiro espetáculo intitulado Metafisicamente d'outro Mundo, com inspiração em Ela, Metafisicamente d'outro Mundo, o seu primeiro livro de poesia.

'Ela, Metafisicamente d' Outro Mundo', de Pedro Freitas
'Ela, Metafisicamente d' Outro Mundo', de Pedro Freitas

"Lembro-me de escrever poemas para a minha avó tinha sete, oito anos."

Autor do site O Poeta da Cidade, o estudante finalista de Ciências da Linguagem – Linguística começou cedo a escrever. "Lembro-me de escrever poemas para a minha avó tinha sete, oito anos. Escrevia para a minha mãe, para a minha namorada. Na altura, as mulheres da minha vida. E depois, à medida que fui crescendo com os desenvolvimentos emocionais, mas também físicos, fui descobrindo outras formas de interpretar a poesia. Nomeadamente, com o pai do Sam The Kid, o Napoleão Mira, que foi uma das minhas grandes inspirações. Ele mostrou-me a arte de dizer poesia e comecei a fascinar-me pelo mundo da declamação. E a partir daí, foi uma questão do tempo passar, trilhar o meu caminho e hoje estamos aqui", conta à The Mag, Pedro Freitas.

Nessa altura, surgiu também o seu canal no Youtube. "Queria começar a fazer alguma coisa e, sempre tive esta noção, se calhar um pouco egoística de mim próprio, mas nunca quis deixar que outras pessoas apostassem sem que eu apostasse em mim e esse canal foi uma tentativa de perceber se há aceitação para o que faço", adianta o jovem poeta, que escreve e declama a poesia que escreve.

E para inspiração tudo serve, não há um momento. "Quando sinto algo, ou acontece algo, que sei que poderá vir a provocar o desejo de escrever tento anotar o que quer que tenha sido essa ação, sentimento ou o que quer que seja que tenha despoletado isso. E, só mais tarde, num exercício de recapitulação daquilo que senti, é que volto a pegar e tento escrever", revela o artista, que se apresentou a si, e ao seu talento, ao mundo, aos 18 anos, quando participou no concurso da RTP, Got Talent.  Foi a sua estreia frente às câmaras.

"Precisava de provar que aquilo que escrevia tinha valor para as outras pessoas e essas pessoas estavam dispostas a pagar isso."

Nessa altura, já tinha começado a escrever o livro, inspirado numa relação que teve, que lançou em dezembro último e que já vai na sua segunda edição. Também o site O Poeta na Cidade foi criado quando decidiu que iria publicar o livro. "Já tinha este desejo de escrever um livro há muitos anos e já o andava a escrever há muitos anos. Começou em 2014 e sempre disse que o iria publicar acontecesse o que acontecesse, e há um ano decidi que já tinha passado tanto tempo e que já andava a escrevê-lo há tantos anos que decidi levar a ideia a fundo e fechar o livro, e passei uns meses a tentar encerrar o livro e quando o fiz, em agosto do ano passado, decidi que ia publicá-lo por minha conta. Uma vez mais usei aquela minha ideia de que se eu não estou disposto a apostar em mim, não posso estar a pedir a outras pessoas que o façam e nesse sentido decidi que ia publicar o livro sozinho", recorda, certo de que tomou a decisão certa. "Precisava de provar a mim próprio que aquilo que escrevia tinha valor para as outras pessoas e essas pessoas estavam dispostas a pagar isso", confessa o poeta que vendeu 600 exemplares em menos de dois meses. "E agora já tenho a segunda edição também e estou a vender muito bem para uma pessoa que é independente e está a fazer tudo sozinho", refere orgulhoso.

Pedro Freitas, Poeta da Cidade
Pedro Freitas, Poeta da Cidade Foto: dr

Confiante de que vai conseguir conquistar as camadas mais jovens para o mundo da poesia, Pedro Freitas decidiu que não queria uma apresentação formal do seu livro e por isso criou um espetáculo musical. O primeiro aconteceu ontem em S. João da Madeira, mas outros se seguem.

"Esta questão do amor, e tudo aquilo que roeia a parte sentimental, é algo que me fascina bastante e sobre a qual escrevo muito"

"Ser só poeta, passar a minha vida toda só dependente da escrita é pouco para mim. Sinto que tenho mais valências do que só a escrita, e ainda por cima tenho esta outra vertente que muitos outros escritores não têm, que é o dizer poesia, dizer textos, ter jeito para o fazer. Portanto, é uma questão de aliar as duas coisas. São duas coisas que trabalham muito bem em conjunto, portanto pretendo fazer disto vida, pretendo aliar a todo um outro conjunto de atividades que rodam todas à volta da poesia, como o mundo do espetáculo. Quero tentar quebrar um pouco o paradigma da forma como encaramos a literatura e a arte como coisa muito formal e muito fechada em si própria. Quero tentar abrir os horizontes daquilo que se pode fazer com um livro, daquilo que se pode fazer com a poesia" confessa Pedro Freitas que apesar de confessar que tudo lhe serve de inspiração, o amor está sempre em primeiro lugar.

"Talvez tenha um padrão, sou talvez um produto do romantismo. Sou um romântico, daquele romantismo às vezes bacoco", revela o artista, salientando ainda: "Esta questão do amor, e tudo aquilo que rodeia a parte sentimental, é algo que me fascina bastante e sobre a qual escrevo muito."

E qual a palavra favorita do poeta? "Inevitável é talvez a minha palavra favorita", diz Pedro Freitas convicto que daqui a dez anos "já é tempo mais do que suficiente para me tornar uma figura inevitável da literatura, da forma como encaramos a arte, a arte literária, a arte poética, esse é o meu maior objetivo".    

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