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Casas Reais

Do 'Tampongate' à Coroa: as virtudes e as sombras do rei Carlos III no centenário de Isabel II

No dia em que Isabel II celebraria 100 anos, a análise ao percurso de Carlos III: entre o escândalo sexual que quase destruiu a sua imagem e o perfil de um monarca culto e moderno que tenta agora redimir os "pecados" do passado.
Por Hélder Ramalho | 21 de abril de 2026 às 12:16
Do 'Tampongate' à Coroa: as virtudes e as sombras do rei Carlos III no centenário de Isabel II
Camilla e Carlos III
Carlos III e Camilla recebem casal presidencial no Castelo de Windsor
Os reis Carlos e Camilla
Carlos e Camilla
Camilla e Carlos III
Carlos III e Camilla recebem casal presidencial no Castelo de Windsor
Os reis Carlos e Camilla
Carlos e Camilla

Esta terça-feira, 21 de abril, a rainha Isabel II de Inglaterra celebraria o 100.º aniversário. A monarca britânica, falecida a 8 de setembro de 2022, reinou durante 70 anos, o reinado mais longo da história do Reino Unido. Em homenagem, o filho e atual rei Carlos III gravou um vídeo com uma emotiva mensagem. "Hoje, ao celebrarmos o que seria o centésimo aniversário da minha amada mãe, a minha família e eu fazemos uma pausa para refletir sobre a vida e a perda de uma soberana que significou tanto para todos nós", começou por sublinhar o monarca. "A promessa da rainha Isabel de cumprir o seu destino moldou o mundo à sua volta e tocou a vida de inúmeras pessoas na nossa nação", destacou ainda o soberano.

Na verdade, a vida de Carlos III acabou por ser, não só tocada mas, acima de tudo, condicionada pelo longo reinado da mãe, com décadas de espera para subir ao trono. Na revista espanhola 'Lecturas', a especialista em casas reais Pilar Eyre analisa as virtudes e os defeitos de Carlos III, um monarca que tem de construir o seu reinado "pedra a pedra" para superar um passado marcado por vários escândalos e pela sombra da mãe.

O percurso de Carlos ficou permanentemente marcado por um episódio que, atualmente, pareceria uma invasão de privacidade abusiva, mas que em 1989 abalou os alicerces da monarquia britânica: o 'Tampongate'. A gravação de uma conversa íntima entre o então príncipe de Gales e Camilla Parker Bowles revelou um lado até então desconhecido do futuro rei. Naquela noite de dezembro, Carlos confessava o seu amor desesperado, chegando a sugerir, num tom de brincadeira erótica, que gostaria de viver dentro das calças da amante. “Vais transformar-te num par de cuecas?”, brincou então Camilla. “Ou, Deus me livre, num Tampax. Que sorte seria a minha”, reagiu então o filho de Isabel II. E o escândalo acabaria por rebentar poucos anos depois, com a divulgação dos áudios por um rádioamador, que tinha captado a conversa inadevertidamente.

O escândalo, recorda a 'Lecturas', foi de tal ordem que Carlos chegou a ser vaiado nas ruas e Camilla foi agredida fisicamente por mulheres indignadas numa padaria. O próprio rei terá confessado recentemente a um biógrafo o peso dessa memória, temendo que, mesmo no momento da coroação, o público apenas se lembrasse desse episódio.

Contudo, Pilar Eyre destaca que o tempo permitiu uma recuperação da figura do monarca. Apesar das sombras do passado, Carlos III possui qualidades intelectuais que o distinguem claramente. Enquanto a rainha Camilla é descrita como uma "mulher do campo", muito semelhante a Isabel II no seu gosto por cães, cavalos e pela vida rural despojada de vaidades, Carlos apresenta um perfil mais sofisticado. Segundo a especialista, ao contrário da sua mulher, o rei é um homem "culto, literato, moderno de ideias, sofisticado, cosmopolita e um grande conversador". Esta densidade intelectual e o seu sentido de humor partilhado com Camilla formam a base de uma equipa que hoje enfrenta as responsabilidades da coroa com uma resiliência surpreendente.

A análise da revista espanhola sugere que o amor persistente entre Carlos e Camila, que sobreviveu a cinco décadas de obstáculos, divórcios e à trágica morte de Diana, acabou por se tornar a sua maior força. Citando Maquiavel, Eyre argumenta que os pecados cometidos na juventude podem impulsionar um rei a realizar grandes esforços para se fazer perdoar e ganhar o afeto do seu povo. Assim, no dia em que Isabel II celebraria o seu centenário, Carlos III parece estar finalmente a conseguir transformar a mancha do passado numa nova forma de reinar, construindo o seu próprio legado com a ajuda de uma mulher que, tal como ele, soube resistir à passagem do tempo e ao julgamento público.

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