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Sem tabus! Vamos falar de como engravidar e das dores do período: Patrícia Lemos é educadora menstrual e garante que não sabemos nada!

Acha-se uma "expert" no diz respeito ao seu corpo e ao seu útero? Desengane-se. Há todo um mundo feminino para explorar. Quer engravidar e não consegue? Já monitorizou o seu ciclo? Mede a temperatura todos os dias? Isto parece-lhe do século passado? Patrícia Lemos explica-lhe "tim tim por tim tim" o que pode estar por detrás desse gravidez tão desejada mas ainda não conseguida.
Carolina Pinto Ferreira
Carolina Pinto Ferreira
patricia lemos, círculo perfeito
patricia lemos, círculo perfeito

Aos 43 anos de idade, Patrícia Lemos tem um grande objetivo de vida: acabar esta jornada com a certeza que as mulheres conhecem o seu corpo e o seu ciclo menstrual. Há mais de uma década abriu as "portas" de um dos seus maiores projeto: o Círculo Perfeito, uma plataforma educacional sobre o ciclo menstrual e a fertilidade. Desdobra-se para tentar ajudar os pedidos de ajuda, muitas vezes, desesperado que lhe chegam e quanto maior fosse o ano, mais consultas teria por marcar. No Instagram é seguida por mais de 70 mil pessoas e é conhecida pela sua forma de escrita leve, direta e que deixa as mulheres a pensarem e a "olharem" para o seu útero. 

Mas, afinal, o que é que está mal? Atualmente as mulheres têm mais dificuldade em engravidar? Devemo-nos ou não agarrar à pílula como a "salvadora"? A famosa educadora menstrual revela (quase) tudo numa conversa com a FLASH!

Antes de mais, o que é uma educadora menstrual?

Mas, afinal, o que é que está mal? Atualmente as mulheres têm mais dificuldade em engravidar? Devemo-nos ou não agarrar à pílula como a "salvadora"? A famosa educadora menstrual revela (quase) tudo numa conversa com a FLASH!

É uma pessoa que disponibiliza informação, idealmente com base científica com fontes seguras e fidedignas e actualizadas, e talvez esta seja a parte mais importante, sobre o que é o ciclo menstrual. Nos últimos 20 anos a ciência tem devolvido muita informação em cima do ciclo menstrual e a forma como devemos olhar para ele. Esta figura da educadora menstrual surge para ajudar a construir novas narrativas, que na verdade têm mais a ver com o ciclo do que com a menstruação. Vem contrariar essa narrativa: não queremos focar-nos tanto no sangue mas como parte integrante do que o alberga, que é o ciclo. Estivemos focados no sangue ou para lhe dar superpoderes ou para tirar as mulheres da cena social. Um bocadinho para restringir movimentos e presenças das mulheres, justificando os seus humores e etc… Já sabemos que estão histórias da carochinha. As educadoras menstruais têm que vim com esta missão de dar o enquadramento de saúde para o ciclo.

Mas é importante perceber que não substitui um ginecologista…

Exactamente. É muito importante saber isso. É um acompanhamento até para os próprios médicos que continuam, alguns deles, desactualizados e a insistir que o ciclo menstrual não faz falta, que é uma maçada, que temos libertar as mulheres disso… O objectivo é das mulheres educarem-se e recolherem informações sobre aquilo que é "normal" para saber e poder ter informação do seu lado para que as ajudem a pré-diagnóstico.

O seu primeiro emprego foi como professora de inglês. Como é que surge esta necessidade de chegar às mulheres com este tema?

O meu caminho fez-se um bocado ao contrário. Ser professora foi mesmo o meu primeiro emprego com 18 anos. O Círculo Perfeito decorre do trabalho que estava a fazer na altura: trabalhava na área da Procriação Medicamente Assistida (PMA), no apoio terapêutico a casais que estavam a passar por processos de infertilidade. No meio disto tudo já tinha feito o mestrado em Estudos sobre Mulheres, outro em Saúde e Risco e aquilo que comecei a sentir é que havia uma desinformação de base nestes casais que funcionava como um fator ansiogénico, ou seja, eles cumpriam o protocolo que lhes era dado: tem entre 6 meses ou 1 ano para tentar engravidar e, se ao fim desse tempo não conseguir, começa-se à procura do que se passa. Muitos deles davam por si em processo de PMA que são muito exigentes a nível emocional, financeiro, físico… Comecei-me a questionar se houvesse informação sobre o que realmente é o ciclo menstrual podia ser fundamental. Existe aí o conceito de literacia do corpo, que me sai tão caro, e que é perceber realmente o que se passa no corpo das mulheres.

Exatamente por as mulheres não conhecerem o seu corpo e, por isso, muitas vezes, não conseguirem ter finais felizes no que diz respeito à fertilidade...

Venho para as questões da infertilidade, para os avanços da tecnologia ao serviço dos casais que não conseguem ter bebés e depois começo a regredir e a andar para trás: não se pode construir casas pelo telhado. Aquelas pessoas não conseguiam perceber o que lhes tinha acontecido. Pensei que a falta de literacia do corpo podia estar mesmo a aumentar os casos de infertilidade. Há coisas básicas: quando se toma a pílula não se tem o período, tem-se uma hemorragia de privação. Se chamarmos as coisas como elas têm que ser chamadas, será que as pessoas vão compreender que estão num caminho paralelo? Que é um sucedâneo. Isto não é bem uma paixão sobre a cena menstrual mas sim uma paixão pelo direito das mulheres à informação e autonomia e independência para decidir sobre o seu corpo.

É também uma luta feminista?

Sem dúvida. Se não se souber quais são as opções, elas não existem. As pessoas sabem que afinal não foram assim tão certinhas enquanto tomavam a pilula em termos de ciclo menstrual porque ele não existia? É dar estas informações às mulheres para serem elas a decidir o que querem fazer e que o possam fazer de uma forma consentida, informada e consciente.

Ou seja, as pessoas deixam-se "cegar" pelos conselhos dos médicos sem procurarem outras opções?

Quero que as pessoas percebam que o que resulta para uma mulher não tem que resultar para a outra. As mulheres percebem isso em termos de dieta, por exemplo, e quero que questionem exatamente o mesmo no que diz respeito à sua fertilidade e ao ciclo menstrual. As mulheres se não têm aquele padrão, de 1960, de 28 dias de ciclo, com uma ovulação ao 14º, é-lhes dada a pílula; se tem borbulhas, tem que tomar a pílula… Não é assim. Há coisas básicas: dormir as horas necessárias que o corpo precisa, comer de forma saudável, beber água, fazer exercício físico ou pelo menos movimentar o corpo. Se formos a ver, maior parte das pessoas não está a cumprir estas coisas.

"As mulheres se não têm aquele padrão, de 1960, de 28 dias de ciclo, com uma ovulação ao 14º, é-lhes dada a pílula; se tem borbulhas, tem que tomar a pílula… Não é assim."

É um mito ou é verdade que atualmente existe uma maior dificuldade em engravidar?

Temos poucos dados em Portugal comparativamente com outros países. Cá, os últimos números apontavam entre os 150 e os 300 mil casais. É muita gente. Mas depois a informação que temos é que sim, está mais difícil engravidar.

Porquê?

Por dois motivos: a idade dos casais. Estamos cada vez mais a ter bebés mais tarde, mas começo a notar que a situação se está a inverter aos poucos. Nas mulheres a idade impacta de forma muito direta e pouco misericordiosa. Em relação aos homens tem havido um declínio da qualidade do esperma na última década. Por outro lado, o estilo de vida que temos agora não tem nada a ver com o que tínhamos há 50 anos. Não vamos resolver isto com PMA mas sim com informação. Há tantas campanhas de sensibilização para o tabaco e não há campanhas de sensibilização nem para o sono nem para as questões da fertilidade. Quando há é: "se és jovem e queres ajudar, doa ovócitos" ou "congela os teus óvulos porque estás a ficar velha". Isto não é a prevenção de que eu falo. É garantir que toda a gente sabe o que tem impacto na sua fertilidade. As mulheres não fazem ideia e os homem também não.

"Cá, os últimos números apontavam entre os 150 e os 300 mil casais [com dificuldade em engravidar]. É muita gente."

Quais são os conhecimentos base que as mulheres deviam ter?

O mais explicado são estes 28 dias de menstruação, com uma ovulação a meio e com o objetivo de fazer bebés num dia. A educação menstrual serve para desconstruir isto tudo. A educação menstrual acompanha o corpo. Se dorme mal, anda stressada, não descansa como deve ser, faz pouco exercício físico, se come muito ou muito pouco, se está doente, se levou uma vacina: é normal que o ciclo menstrual se altere na forma como se apresenta. Uma coisa tão básica como anti-inflamatórios não esteróides pode atrasar a ovulação, por exemplo. Não temos que deixar de tomar medicamentos mas perceber que estes podem alterar o nosso ciclo, logo a nossa ovulação pode atrasar e, consequentemente, a menstruação também. Perceber que o ciclo menstrual é um barómetro do que acontece na nossa vida no imediato. É um retrato da saúde geral: se tem um ciclo menstrual que está muito irregular, muito longos, hemorragias muito abundantes, dor ou coágulos, há alguma coisa que se passa e que tem que ser investigada! Se podemos solucionar isto tudo com a pílula? Podemos mas não estamos a solucionar nada. Só diminui ou trava a sintomatologia mas não se consegue perceber o que se passa.

Então, onde fica a contraceção hormonal?

Faz imensa falta. Nunca o objetivo foi que a PMA deixe de acontecer ou que a contraceção hormonal não esteja disponível. A questão é garantir que as pessoas têm opções e que percebem quando as escolhem ou quando elas fazem sentido. A informação que tem que vir de base é: o que é o ciclo menstrual? De que maneira ele se estrutura? Que coisas impactam nele? E qual é a expressão, neste momento da minha vida, do meu ciclo?

Uma das suas grandes batalhas é acabar com esta receita da pílula, que cada vez mais serve "para toda a gente"...

Há pessoas que têm consequências por causa da toma de contraceção hormonal e que pensamos que não existem. Há factores de risco que devem ser mencionados logo no início no diagnóstico de uma rapariga: questionar se há algumas doenças na família, por exemplo. Se há uma miúda que começou a tomar a pilula e tem cefaleias ou se sente mal disposta e com a pilula continua com vómitos, se calhar temos que olhar para contraceção hormonal e tentar perceber o que se passa. Se for a um centro de saúde e só houver uma pilula disponível, todas as miúdas vão levar a mesma. A questão é: Quer tomar a pilula para quê? Porque não quer engravidar? Ok, mas está numa relação fixa? Tem só um namorado? Caso tenha mais é importante mencionar que então também tem que usar um preservativo para prevenir as DST’s. A minha grande duvida é essa: então, toma lá um comprimido, tem o problema resolvido? Não tem nada!

Porque as DST's também podem influenciar no momento de tentar engravidar?

Uma das principais causas complicações das DST’s é o impacto que podem ter na fertilidade das mulheres. Muitas deixam arrastar inflamações pélvicas, por exemplo, porque não tiveram a informação certa e não recorreram a tempo a um médico e porquê? Porque a única preocupação era não engravidar, quando na verdade a preocupação tem que ser a salvaguarda da sua integridade física e da sua infertilidade.

"A questão é: Quer tomar a pilula para quê? Porque não quer engravidar? Ok, mas está numa relação fixa? Tem só um namorado? Caso tenha mais é importante mencionar que então também tem que usar um preservativo para prevenir as DST’s. A minha grande duvida é essa: então, toma lá um comprimido, tem o problema resolvido? Não tem nada!"

Há também um regresso aos métodos naturais

Há um recuperar mas muito mais informada e atualizada. Temos que entender que os métodos naturais ou aquilo que quisermos chamar a essa monitorização do ciclo ou compreensão da fertilidade da janela fértil, neste momento, apresenta uma vantagem de podermos fazer o uso de métodos barreira que não estavam disponíveis no meu tempo áureo e glorioso dos métodos naturais de fertilidade.

Como assim?

Ou seja, ninguém obriga a ser abstinente – depende dos métodos e da forma como são ensinados – mas, no meu método, no Círculo Perfeito, é ensinar de forma secular, democrática e aberta a toda a gente sem pendor religioso, e portanto podem escolher não ficar abstinentes na altura que está fértil. Desde os preservativos internos aos externos, dos femininos ou masculinos; há uma pílula do dia seguinte na eventualidade de alguma coisa não correr bem e há ainda o acesso, se tudo o resto falhar, a uma interrupção voluntária da gravidez, feita de uma forma apoiada e com um enquadramento que há 40 ou 50 anos não tínhamos. Cada pessoa tem que saber em cada ciclo onde é que está. Dá imenso trabalho? Claro, mas escovar os dentes também. Mas aquilo que dá de volta é tanto…

E as luas? Há pessoas que ainda vivem muito agarradas à influências que as luas podem ter no ciclo menstrual.

É uma narrativa que cola muito bem com as questões das mulheres porque a lua tem fases, temos ciclos, essas coisas todas… Sabemos que ao nível do consciente estas histórias são as que marcam. Sabemos que o ciclo lunar não tem nada a ver com o ciclo menstrual, o que me vale um número de haters. Entendo, é uma narrativa que é muito apelativa porque é muito bonita. Mas pensar que isso vai sanar os problemas de saúde menstrual ou de fertilidade, é completamente romântico.

Entretanto, apareceu aqui outro perigo: o das aplicações de telemóvel que dizem controlar a fertilidade e ajudar a conseguir uma gravidez…

É, porque de repente desenvolveram-se apps sem atualizar a informação que temos e lá voltamos nós para os 28 dias e as ovulações a meio do ciclo. Portanto, 1987 telefonou e quer-te de volta. De onde é que retiramos benefícios dos anos todos que passaram? De todos os estudos que se fizeram? Lá está, com o conhecimento percebe-se quais são as aplicações que se seguem pelas informações que lhes dás ou aquelas para quem tu "estás a falar" e não te ouvem e estão a dizer o mesmo a ti e a outras mulheres. Nunca se escolheria um namorado com esta base, não é? Que está a dizer o mesmo a uma mulher e a todas as outras que não se conhece.

A Patrícia lida diariamente com mulheres desesperadas, cujo maior sonho é engravidar e não conseguem. Como é que se gere estas emoções?

Cada vez mais acredito que se não fosse a estrutura que tenho enquanto terapeuta dificilmente as coisas funcionaria como funcionam no Circulo Perfeito. Cada vez menos, e isso é muito bom, sou a última hipótese que essas pessoas procuram. Cada vez mais há miúdas novas a pararem, lerem e a começarem a monitorizar o seu ciclo e isso emociona-me. Nunca pensei ter miúdas jovens a chegarem até mim com esta informação. Mas tenho muitas pessoas que chegam até mim porque já tentou tudo e não conseguiram engravidar ou porque já não querem mais continuarem a tentar. Também há quem já tenha baixado os braços à procura de respostas externas e só querem perceber como é que isto funciona. Há pessoas que querem sessões para ontem porque já têm 42 anos e eu não tenho e dificilmente chegam a uma sessão comigo porque o tempo de espera tão grande que elas raramente esperam. Tenho pessoas que desistiram da PMA e algumas delas vêm fechar o ciclo com o seu corpo. Por um lado é um luto. Por outro, há pessoas que vêm e engravidam. Isto não é milagroso, dá trabalho.

Tem noção de quantas pessoas conseguiu "engravidar" nos últimos tempos?

Sim! Tenho 4 ou 5 pessoas que já tinham estado em procriação medicamente assistida e que neste momento têm bebés do Círculo Perfeito na barriga. Em 2020 terminei com 93 gravidezes. Este ano, a 29 de Setembro recebi o 62º positivo. Este ano tenho tido menos gente para engravidar, a pandemia teve um efeito de pausa para muitos casais.

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