“Desde que te conheço que não tenho olhos para mais nenhuma outra mulher, milagre que só tu poderias fazer, tornar realidade e alegria.”
O excerto foi escrito por António Lobo Antunes e faz parte de um conjunto de cartas apaixonadas enviadas pelo autor à primeira mulher, Maria José Xavier da Fonseca e Costa – e que seriam publicadas após a morte desta – durante o tempo em que interrompeu a sua formação em psiquiatria e foi recrutado para o exército de forma a cumprir o serviço militar, partindo para a guerra em África. Antes disso, porém, decidiu casar-se com Maria José, um amor da juventude, que havia conhecido na Praia das Maçãs e lhe arrebataria o coração. “Eu quis casar-me porque achava que ia morrer e queria deixar um filho ou uma filha”, admitiu. Quando partiu para Angola, em 1971, um ano depois do casamento, a mulher estava grávida da primeira filha, que Lobo Antunes soube ser uma menina entre um cenário bélico. “Soube que ela tinha nascido por telegrama, letra a letra.”
Teriam duas filhas - Maria José e Joana - e, apesar do divórcio, seis anos depois do enlace, conta-se que os destinos dos dois terão ficado para sempre ligados por uma bonita amizade. Quando se separou, Lobo Antunes ainda não tinha publicado o primeiro livro e foi nesse caos de uma nova vida, no seu apartamento de solteiro, no Monte Estoril, que terminaria 'Memória de Elefante', a estreia na ficção, depois de dezenas de manuscritos que o próprio assume ter deitado para o lixo, por não estarem ao nível daquilo que desejaria.
“Já tinha escrito uns dez ou 15 antes, ia tudo para o lixo. Na altura, vivia sozinho num apartamento minúsculo no Monte Estoril e tinha o vício do jogo. Saía do consultório e ia direto ao casino [do Estoril]. Não tinha dinheiro, gastava tudo na banca francesa. E escrevia sempre, mas a maior parte do que escrevi acabava no lixo, na figueira do quintal dos meus pais. E esse, não sei porquê, não deitei fora. Mas ninguém o queria. Foi o Daniel Sampaio que andou com ele de editora para editora durante dois anos. Eu continuava a escrever. Quando ele saiu, já tinha feito ‘Os Cus de Judas' (1979), estava a acabar ‘O Conhecimento do Inferno' (1980). Depois uma editora pequenina, a Vega, aceitou o livro", contou ao 'Público' sobre aquele que seria o início de um percurso brilhante, que muitas vezes o surpreenderia.
Não que Lobo Antunes não tivesse consciência do seu talento – afirmou que em Portugal ninguém escrevia como ele – no entanto, à vaidade por vezes sobrepunha-se a insegurança de quem acha sempre que o que escreve pode ser melhorado e que era capaz de mais.
"Lembro-me que quis fazer o lançamento de 'Memória de Elefante' e estavam o editor, uma empregada da editora e eu. Em 'Os Cus de Judas' já havia uma multidão. Os meus irmãos diziam-me: “Na praia está toda a gente a ler 'Memória de Elefante'.” Não estava preparado para aquele sucesso e fiquei desconfiado. O que terei feito de mal para as pessoas gostarem do livro?”
OS ÚLTIMOS AMORES DO ESCRITOR
Foi já durante o esplendor da sua carreira de escritor que se apaixonaria pela segunda mulher, Maria João Espírito Santo Bustorff Silva, em 1981. Dois anos depois, dava as boas-vindas à terceira filha, Isabel. Sobre o enlace, e oficialmente, não se sabe ao certo quando terminou, uma vez que em 2008, correram rumores de que teria reatado o casamento com a antiga ministra da Cultura. Nesse mesmo ano, o autor escreveria a crónica 'As Mulheres Têm Fios Desligados', em que retratava a forma como os homens terminavam, por norma, relacionamentos amorosos, e na qual parecia retratar-se. "Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto. Fui [espero que não muitas vezes] rasca". No entanto, no seu mais profundo íntimo, acreditaria sempre no poder do amor e do casamento. "Casamento para mim é casamento, fidelidade, amor, almoçamos fora ao domingo, termos as nossas coisas, com respeito, a meio da semana, sem palavrões nem palmadas, um suspiro aqui e ali, decente, e fica o trabalho feito até à quarta-feira que vem, cada um dorme para seu lado e pronto", escreveu.
Prova desta crença, em 2010 estava a casar-se com aquela que viria a ser a sua última mulher, Cristina Ferreira de Almeida, então diretora da revista 'VIP', por quem se apaixonou perdidamente e com quem se casaria apenas três meses após o início do namoro. A jornalista estaria a seu lado até ao fim, em tantos bons momentos, mas principalmente quando a saúde lhe faltou. E foram muitas as ocasiões. Por essa altura, tinha acabado de recuperar de um cancro nos intestinos, em 2007, e viria a enfrentar mais dois, nos pulmões, antes do derradeiro, que lhe ceifou a vida, aos 83 anos.
"Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé, dúzias de histórias de criaturas que passaram por isso que tu tens agora e estão ótimas. Recuperando aos poucos da anestesia vou dando-me conta de que um bicho horrível em mim, ratando, ratando. Dois sentimentos opostos: Vou lutar, não vou lutar", escreveu numa das suas crónicas, descrevendo que essas batalhas e o confronto com a perspetiva de uma morte quase certa lhe deram um novo olhar para a vida. "Continuei sendo o mesmo. Mas há coisas de que de repente comecei a gostar muitíssimo. O sol, por exemplo, um dia de sol, um dia bonito, o facto mesmo de estar aqui. Estar vivo é um privilégio, um acaso e um privilégio."
Esses anos, de uma renovada consciência do privilégio que é estar vivo, foram vividos ao lado de Cristina, a presença serena na vida de Lobo Antunes, que começava a assistir ao seu próprio declínio, que lhe roubaria, nos últimos anos, o maior prazer e paixão que sempre teve na vida: a escrita. "Agora penso: 'Se deixo de escrever o que é que faço?' Ponho-me a ler... Leio oito horas por dia. Ao fim de uma semana estou farto de ler. O que é que eu vou fazer? Tenho medo de escrever porcarias. De não ter sentido crítico. Os escritores que vivem muito tempo começam a fazer porcarias e não percebem... tenho medo que me aconteça isso. (...) Tenho muito medo de começar a repetir-me. É inevitável", afirmava numa das suas últimas entrevistas.
A confirmação de um quadro de demência chegava em outubro de 2024 e era sentida como enorme tristeza por um País que se habituou a ler e a idolatrar António Lobo Antunes. A “demência (...) que o foi invadindo”, acentuou-se “no confinamento da pandemia de covid-19”, confirmava o amigo e jornalista João Céu e Silva, admitindo que o escritor passou a viver numa espécie de “exílio da realidade”, em que mergulhou até ao fim da sua vida.