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O famoso chef Chakall, o cozinheiro televisivo dos turbantes coloridos e sotaque latino-americano, ao melhor estilo portunhol, que a 5 de junho de 1972 nasceu na pequena cidade de Tigre (a 30 Km da capital Buenos Aires, Argentina) e recebeu dos pais o nome de batismo Eduardo Andrés López, revela à The Mag, by Flash! que, muito antes de outros colegas de profissão começarem a modificar os seus modelos de negócio, a caírem em depressões e bournouts ou até mesmo a fechar ou vender restaurantes por dívidas, desespero e ausência de margens de lucro, ele já tinha mudado a bitola dos seus negócios desde 2022. Vendeu metade dos espaços que tinha em sociedade. Deixou consultorias e 'fugiu da cozinha'.
A poucos dias de celebrar 54 anos, Chakall ri-se quando fala do facto de ser um chef muito pouco convencional, com o ego alinhado e sem peneiras. Faz revelações sobre si, e sobre a leveza e os pés na terra com que diz gerir a vida, factos que surpreenderão colegas, fãs do seu estilo , apreciadores da sua gastronomia, cheia de bons pratos de carne de qualidade, muitas verduras exóticas, combinações de especiarias e molhos com muito salero. "Quando comecei com tudo isto dos restaurantes era uma pessoa inteligente e no meio fiquei burro", começa por confessar, com um sorriso maroto, descrevendo o que o levou a fugir da rotina insuportável e do empobrecimento forçado da restauração: "Eu fazia catering [na sua empresa Cozinha Divina, fundada em 2001] e trabalhava quando tinha que trabalhar. Ganhava o que ganhava e estava tudo 'ok'. Entretanto abri o meu primeiro restaurante, lamentavelmente foi um êxito e achei que podia abrir dois, depois três e foi sempre a subir na quantidade".
Como não há bela sem senão, o excesso de fama e de confiança foi uma faca de dois gumes para o profissional que não quis estar destinado a ser cozinheiro – apesar de ser a quarta geração de uma família com raízes europeias ligada à restauração, inclusive filho de uma cozinheira –, ou até mesmo gestor no ramo da restauração. "Tinha o programa de televisão ('Sabores Divinos', SIC Mulher, 2008) onde ganhava dinheiro fazendo pouco. E de repetente o ego, que acho que já tenho bem controlado porque não preciso de provar nada a ninguém, sobretudo a mim próprio, fez-me querer ter um restaurante, depois mais outro...", reconhece, assumindo falhas e mostrando arrependimento: "Há quatro anos, nos meus 50 anos e por altura da pandemia da Covid-19, percebi que estava a gastar imenso tempo. Tinha muito stress e chegava ao fim do ano e os resultados eram ridículos. Um ano de lucro no restaurante equivale a um mês de trabalho só meu em outros projetos da marca Chakall. Percebi que era inútil".
O ANTIGO JORNALISTA QUE SE LIVROU DO EGO INFLAMADO E NÃO QUER HONRARIAS
Pesou na decisão de inverter silenciosamente, sem choradeiras, desesperos ou bandeiras de coitadinho, o trajeto que seguia na restauração, o facto de ter sentido que estava "a fazer coisas que realmente não valem a pena" e... a família, claro está. "Tenho quatro filhos (Noa, Leanne, Soluna, Zoel) e nos últimos anos prefiro gastar o meu tempo para estar com eles do que estar num restaurante", conta, revelando um facto pouco conhecido a seu respeito, até por aqueles que o seguem nos programas televisivos: "Venho de um meio completamente diferente. Sou jornalista de formação e exerci durante sete anos. Não tenho o bicho dos chefs de querer ser o melhor. Faço sim o melhor que posso, mas não tenho esse chip de tentar ser o melhor", comentário vindo do antigo jovem jornalista que depois de estudar jornalismo na Universidade de Salvador, em Buenos Aires, escreveu durante sete anos crónicas musicais para o diário 'El Cronista' e sobre temas musicais para a conceituada revista 'Rolling Stone'.
Chakall revela total descontração quando afirma não perseguir prémios, nem honras ou distinções. "Nunca me interessou as estrelas Michelin, interessa-me é viver. Sou gémeos de signo e portanto vejo sempre bem os dois lados das coisas. Está muito bem o trabalho mas há coisas que não interessam. O problema é quando trabalhas, dás tempo, és castigado porque não estás nos restaurantes e ainda é pior porque não tiras os lucros que poderias tirar. Então é melhor menos que mais. Diria que a pandemia foi o ponto de mudança em tudo para mim", reconhece.
O período entre 2020 e 2022, os anos negros das mortes às 'mãos' do vírus, em que teve de parar, foram fulcrais para que tudo mudasse. E havia um fator que poucos sabem, mas Chakall revela à The Mag, by Flash!. "As pessoas em Portugal não sabem o que eu faço, mas antes da pandemia fazia 150 voos por ano. Eu tinha um programa de televisão na China, na América Latina, na Alemanha e gravava programas em português, inglês e alemão. Cheguei a um ponto em que tive de dizer que já tinha feito tudo o que eu queria fazer. E mais, agora há que pensar o que queremos fazer. Agora quero viajar, não apanhar aviões", roga, afirmando querer assumir as rédeas da sua vida: "Posso ir um mês de viagem. Antes, muitas vezes, nem sabia quando voltava. Agora tenho as duas filhas mais velhas mais crescidas, tenho outro filho com mais de 18 anos. Tenho uma liberdade que não tinha".
ADEUS RESTAURANTES. A FECHAR NEGÓCIOS DESDE 2022, SEM QUEIXAS OU ALARIDO
Mas atenção que Chakall não despejou restaurantes pela borda fora do seu portfólio, e avisa. "Ainda tenho restaurantes mesmo meus. Meus tenho seis restaurantes em sociedade. No Luz (Estádio da Luz, Lisboa) e no Fuel (Monte Gordo, Algarve) sou só consultor. Vendi seis restaurantes e deixei uma consultoria que não me interessava nos últimos quatro anos e estou mais focado em outras coisas. Não tenho tempo para restaurantes. Tenho uma linha de produtos meus para supermercados. Consultoria tenho mas não tanto. Já não aceito tanto consultorias, praticamente também não as faço. Com o Continente sou chef oficial da marca. Tenho parcerias com o Continente como tenho com outras marcas", descreve sucintamente, dando alguns exemplos do que fechou, como e porquê: "O El Bulo Social Club (Marvila, Lisboa), vendi-o porque o senhorio tinha vendido os dois espaços a outro senhorio e este queria abrir outra coisa. Depois de eu ter tirado quase todas as coisas perguntaram se estava interessado em continuar. Para mim já tinha passado o momento e disse-lhes que não fazia qualquer sentido".
Além deste caso, a lista de restaurantes fechados, vendidos ou as parcerias encerradas somam-se e seguem, tal como nos referiu: "Fechei o Refeitório, era consultor num restaurante em frente ao Coliseu dos Recreios. Deixei de ser consultor num restaurante no Porto que era o Zapata, que depois foi vendido. Tinha um restaurante na Lourinhã com a minha irmã chamado West 23, acabámos a exploração há um mês, já não é nosso", destacando o que ainda vai mantendo na sua esfera de influência de restauração: "Entre restaurantes próprios e consultorias são nove. Tenho o Luz e o Fuel, o La Panamericana. Vendemos os locais nos shoppings das empanadas, mas continuamos a fornecer as empanadas para outros clientes, continuamos com a marca e tudo".
E porque razão o chef Chakall deu esta volta de 180 graus aos seus negócios, inteligentemente antes dos tempos em que os colegas aparecem nas notícias pelas piores razões do desespero. "O que estou a fazer é mudar sobretudo o modelo de negócio. Não tenho tempo. Quando fiz 50 anos decidi escolher o meu tempo de uma forma diferente. Nem foi bem repensar a vida, é perceber que se está a perder tempo. Trabalhar um mês, lidar com empregados para tirar um dinheiro pequeno, pagar muitos impostos", lamenta, confessando o que o desespera: "Um dos meus principais problemas é que não fujo aos impostos. Como não fujo aos impostos e pago a todos os empregados absolutamente em branco e não há dinheiros por fora, é um problema. Porque pagares tantos impostos, a carga é tão elevada e pesada que acabas por tirar muito pouco dinheiro".
LUCROS NA RESTAURAÇÃO COMPROMETIDOS NÃO SÃO SÓ PROBLEMA NACIONAL
Instado pela The Mag, by Flash! a revelar dados concretos do que aflige a maioria dos chefs, como Vítor Sobral, Rui Paula ou Ljubomir Stanisic, que têm vindo a público acusar o governo e as sua políticas fiscais, o chef luso-argentino fala, com dados concretos: "Tive quebras de lucro superiores a 50% em média nos últimos cinco anos. A subida de preços dos produtos muitas vezes são trespassados para o preço final ou se são isso faz subir o valor do preço cobrado ao cliente. Não posso pagar o ordenado mínimo porque ninguém trabalha por aquele ordenado. Para mim não é um problema encontrar pessoas para trabalhar, o meu problema é mantê-los. Tenho sempre pessoas que querem trabalhar comigo nos projetos, mas depois a carga de impostos que tenho de pagar é inacreditável".
Chakall alerta para o facto de que os custos elevados e a carga fiscal alta não são um drama exclusivamente nacional. "Atenção, isto não é só um problema de Portugal. Já tive restaurantes na Alemanha e é demais. A subida dos preços de todos os produtos primários. Se aumentas os preços das refeições para acompanhar o preço dos produtos base não tens ninguém nos restaurantes. Esse é o problema. Quando faço uma oferta de 50% tenho o restaurante cheio. Se faço uma promoção no 'The Fork' aparecem pessoas, mas o problema não é esse: o problema não é o restaurante, é o preço final para as pessoas", denuncia, acrescentando outro fator que afasta os clientes dos restaurantes: "Os ordenados das pessoas também não subiram comparativamente aos preços das coisas. É uma realidade europeia terrível, não é só de Portugal. A Argentina inclusive está com esses problemas, tenho lá amigos com restaurantes. As pessoas que vivem nos países acham que é um problema apenas do seu país, mas não é".
O popular chef que em tempos correu Portugal de Norte a Sul numa carripana com a sua cadela Pulga, exemplifica o drama que vive, deixando salvaguardas quanto à realidade dos seus colegas: "Não posso falar pelos outros, e também não me estou a queixar, mas a minha margem de lucro hoje em dia é de 5%, fazendo bem as coisas e controlando os custos ao pormenor. Antes da pandemia era 25 ou 30%", revela, deixando um exemplo para reflexão: "Vamos imaginar que, para quem tem um restaurante que faturas 1,5 milhões de euros por ano e pagas 500 mil de impostos diretos e indiretos. Se eu ganhasse 500 mil euros estava feliz, mas tenho sorte porque pago 500 mil euros ao Estado e consegues tirar 50 mil para ti. Não vale a pena".