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Coração de ouro. A vida de dificuldades de Bruno Fernandes na Maia, o respeito pela mãe e o valor que ainda hoje dá ao dinheiro

Cresceu com medo de que a mãe, empregada de limpeza, se sentisse diminuída ou fosse tratada com menos respeito e hoje garante que isso ainda é um pensamento que tolda a sua vida e se reflete na forma como trata o próximo. Mundialmente conhecido, Bruno Fernandes admite que não se consegue separar das suas origens humildes.
Rute Lourenço
Rute Lourenço
28 de maio de 2026 às 20:28
Bruno Fernandes posa ao lado da mãe
Bruno Fernandes posa ao lado da mãe

Bruno Fernandes ganha hoje 18 milhões de euros por ano, é um dos jogadores mais acarinhados do Manchester United e da Seleção e todo o dinheiro que recebe permite-lhe viver uma vida bastante desafogada e diferente da que tinha quando era um miúdo na Maia. No entanto, aos 31 anos, e apesar de todas as mudanças que fariam dele um atleta mundialmente famoso, o português admite que na sua essência não se alterou assim tanto e que mantém a base dos tempos em que, com a mãe a trabalhar nas limpezas, vivia com dificuldades, reforçando que estes são valores que faz questão de passar para os dois filhos, Matilde e Gonçalo.

A minha mãe trabalhava como empregada de limpeza. Nunca quis que a tratassem mal ou desvalorizassem o trabalho que ela fazia”disse no podcast 'The Diary of a CEO', de Steven Bartlett, acrescentando que isso se reflete na forma como os filhos lidam com os outros. "Por exemplo, tenho uma funcionária que trabalha na minha casa. Não permito que os meus filhos lhe falem mal. Não permito que os meus filhos digam: 'Agarra nisto, põe no lugar'".

"Disse-lhe isto no primeiro dia de trabalho: 'Se algo não está no sítio certo, obviamente quero que limpes, quero que ponhas as coisas no lugar, quero tudo isso, mas não quero que os meus filhos digam: 'Arruma isso' ou 'Põe isso no lugar'. Não. Se quiserem alguma coisa, podem pedir, mas, antes de mais, têm de ser respeitadores. Se não conseguem, têm de te pedir, mas com respeito. Mas se for algo que eles consigam fazer, tu tens de fazer com que eles o façam. Não do género 'faz tu', explica-lhes como o fazer, mostra-lhes o caminho para eles aprenderem'", explicou.

Bruno Fernandes revelou ainda que essa é uma espécie de legado da sua história de vida, nomeadamente a preocupação que sempre teve para que a mãe não se sentisse diminuída pelo trabalho que desempenhava. "É assim que me comporto com as pessoas que trabalham comigo, tem muito a ver com a minha história, de não gostar de o ver com a minha mãe. Eu não estava nas casas, obviamente, não sei se tratavam bem ou não a minha mãe, a minha mãe nunca me disse que as pessoas para quem ela trabalhava a tratavam mal. Portanto, acho que me fez compreender que, se não quero isto para a minha mãe, não o farei com outras pessoas."

Um comportamento que já vem de trás e que Bruno fez questão de manter ao longo do seu percurso profissional, qualquer que fosse o palco onde jogasse. "No Sporting, tentei dar-me com toda a gente. As pessoas que trabalham na cozinha, que tratam da relva - elas trabalham para ti. Tens de ser grato e isso passa por dizer um olá. Não há motivo para as desprezar, porque elas estão ali para trabalhar para ti".

O APOIO DA SUA GRANDE PARCEIRA DE VIDA

Bruno Fernandes começou cedo a trilhar um percurso de sucesso que acabaria por o levar para longe da vida de dificuldades por que passou na Maia. Mas quando conheceu aquela que viria a ser a sua mulher, Ana Pinho, ainda estava muito distante de cumprir o sonho de se tornar um jogador conhecido internacionalmente. "A Ana está comigo nesta viagem desde que tínhamos 16, 17, 18 anos. Conhecemo-nos como adolescentes, e, quando começámos a andar, não estava a ganhar dinheiro nenhum como jogador de futebol... E ela tinha um bom trabalho, como árbitra de futsal, aos fins de semana", já partilhou, acrescentando que, na altura, era Ana quem lhe pagava tudo.

"Ela fazia três ou quatro jogos de seguida no sábado, e nós íamos sempre aos cinemas, aos domingos. Pessoalmente, não tinha muito dinheiro na altura, portanto, a Ana era quem pagava os meus bilhetes no cinema e o mesmo se aplicava aos jantares. Até na pizzaria, ela tinha de pagar", contou aquele que, entre os colegas, é visto como um coração de ouro, o que até já demonstrou publicamente em diversas situações.

Em Inglaterra, é comum vê-lo em gestos solidários, sobretudo para com os mais novos, e durante um voo para Portugal, acabou por tornar-se num herói improvável ao salvar um passageiro que se estava a sentir mal.

"O Bruno foi à casa de banho na retaguarda do avião durante o voo. De repente, ouvimos um grito a pedir ajuda. (...) Ele estava a segurar um homem que parecia estar a desmaiar. Não sabemos se chegou a ficar inconsciente", partilharia uma outra passageira.

"Membros da tripulação correram para ajudá-lo. Havia um lugar vago na parte de trás no qual o Bruno ajudou o homem a sentar-se. Ele ficou a assegurar-se que o passageiro estava bem, durante cinco ou dez minutos. Depois, voltou ao seu lugar, mas sem chamar atenções para si mesmo", acrescentou, dizendo ainda: "A não ser quem soubesse já de partida, ninguém iria adivinhar que era alguém conhecido, se é que me entendem".

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