Os recentes conflitos do Médio Oriente com Irão no centro dos ataques israel-americanos tem levantado a possibilidade de um regresso da família do antigo Xá da Pérsia que desde a revolução islâmica, em 1979, foi obrigada a exilar-se. A antiga imperatriz, Farah Diba, instalou-se em Paris, enquanto o filho, o príncipe-herdeiro, Reza Pahlavi, optou por fixar residência nos Estados-Unidos, mais concretamente nos arredores de Washington, em Maryland.
Nas ruas de Teerão e um pouco por todo o país, o povo fala cada vez mais em Reza Pahlavi. Um regresso da dinastia poderia significar o fim de um regime opressor e tão castigador, acredita grande parte da população iraniana, em especial as mulheres que tanto têm sofrido às mãos deste regime. O nome do príncipe herdeiro – que tinha apenas 18 anos quando o seu pai, Mohammad Reza Pahlavi, conhecido como Xá da Pérsia, foi deposto - é hoje visto como o símbolo de um país livre e moderno. Mesmo que há mais de 40 anos não tenha voltado a pôr os pés no Irão, Reza reúne grande consenso dentro e fora das fronteiras iranianas. Caso a história tome um rumo diferente, os Pahlavi poderão ser os protagonistas da tão ansiada transição para a democracia.
E estará o príncipe herdeiro disposto a deixar a sua vida, tal como a conhece, para trás e retornar ao país que considera a sua verdadeira pátria? Reza Pahlavi já respondeu. Em janeiro último, o filho mais velho do Xá da Pérsia em declarações ao jornal francês ‘Le Figaro’ não mostrou quaisquer reservas em fazer as malas e regressar ao Irão. Garante estar preparado para tomar o lugar do seu pai. “Por 40 anos, sempre mantive os mesmos valores e as mesmas posições. Apesar da lavagem cerebral e das tentativas do regime islâmico de macular o meu legado histórico”, sublinhou o príncipe exilado.
Mas a segunda questão que se levanta é saber se a família o apoiará caso este desafio – que se advinha difícil e até muito arriscado – se vier a efetivar? Será que a mulher, a advogada Yasmine Pahlavi, terá vontade de o acompanhar e deixar a vida confortável que tem em Washington? De facto, a jurista tem assumido um mediatismo imenso nos últimos tempos, pois todos reconhecem que ela é – e será – uma figura determinante na história do Irão, caso o regime islâmico venha a ter o seu tão ansiado fim.
Também a família de Yasmine foi obrigada a fugir do país aquando a revolução islâmica apesar de na altura não existir qualquer ligação à Família Real. Os pais da atual princesa fixaram-se na cidade de São Francisco, também nos Estados Unidos. Foi ali que cresceu e se fez mulher. Do Irão ficaram apenas as recordações de uma infância feliz.
O seu caminhou cruzou-se com o do príncipe herdeiro – oito anos mais velho – apenas em 1985. Terá sido amor à primeira vista, pois casaram no ano seguinte, em Greenwich, no Connecticut. Ela era uma jovem de apenas 17 anos e ele um ilustre estudante de Ciência Política, de 25 anos. A falta do pai – o Xá da Pérsia morreu em 1980 já no exílio – terá precipitado este casamento. Não se pense, contudo, que este casamento tão precoce colocou um ponto final nos sonhos de Yasmine. É a própria Farah Diba – mãe de Reza Pahlavi e sogra da jurista – que o afirma na sua página oficial: “A sua entrada para a família real não alterou as aspirações pessoais da princesa Yasmine.”
E ao olhar para o seu percurso percebe-se que assim foi de facto. Aquela que poderá vir a ser a nova imperatriz do Irão, já com a aliança de casamento no dedo, licenciou-se em Direito e doutorou-se em Jurisprudência na Universidade George Washington. A vida privilegiada não a afastou do mercado de trabalho tendo sido contratada pelo departamento jurídico do Banco Mundial, em Washington. Anos mais tarde dá um outro rumo à sua carreira. Veste a beca de advogada e começa a trabalhar no ‘Children’s Law Center’, uma organização dedicada a fornecer representação legal a crianças abusadas, negligenciadas ou a viver em centros de acolhimento.
Ter uma carreira dedicada aos que tanto precisam não afastou Yasmine do que estava a acontecer no Irão. A princesa – talvez pelo seu estatuto – manteve-se sempre muito atenta ao povo iraniano. Tanto que é descrita na sua página oficial como “uma figura conhecida em manifestações nas quais se junta aos seus compatriotas exilados para expressar a sua solidariedade ao povo iraniano e ao seu desejo por liberdade e democracia.” As fotografias em que se vê a princesa nas ruas com a bandeira do Irão nas mãos atestam esta sua faceta solidária e defensora de um país “livre e laico”.
Sempre com a sua pátria no coração, em 1991, a princesa Yasmine aceita criar a Fundação das Crianças do Irão, uma organização que assume o financiamento de cuidados médicos para crianças necessitadas. É evidente que o príncipe herdeiro não poderia estar mais orgulhoso da mulher com quem divide a vida há 40 anos e que é mãe das suas três filhas: Noor Zahra, Iman Laya e Farah Mitra. A mais velha também já é apontada como a mulher certa para um dia ser a imperatriz de um Irão livre e democrático... sucedendo ao pai, que a acontecer será mais uma figura de transição.
Mas voltemos à princesa Yasmine que em 2018 viveu um dos seus piores momentos ao ser-lhe diagnosticado um cancro de mama. Foi a própria que o contou nas redes sociais. Uma mensagem vista como mais um desafio ao regime islâmico que silencia tudo o que tenha a ver com as mulheres e a sua saúde: “Queridos amigos, aproveito esta oportunidade para vos contar que fui diagnosticada com cancro da mama. É um momento difícil, mas inspiro-me na força e na coragem das mulheres do Irão. Espero poder partilhar mais sobre a importância de consciencializar as pessoas sobre o cancro e saúde da mulher em geral. A cirurgia será amanhã de manhã. Manter-vos-ei informados”, escreveu no Instagram.
Os tempos da doença parecem estar completamente ultrapassados com Yasmine e mostrar-se cada vez mais combativa e empenhada em que o Irão tenha um futuro sem opressão. Perante os últimos acontecimentos políticos, a princesa optou por se mostrar mais ativa do que nunca. Destemida, tem feito várias intervenções públicas contra o regime tal como também tem acontecido com a sua filha mais velha. Ainda numa entrevista recente ao ‘New York Post’, a princesa Noor afirmou: “É nossa responsabilidade não desviar o olhar”. Esta será, garantidamente, a posição de toda a Família Real que não descarta a possibilidade de regressar ao Irão e assumir as responsabilidades que foram interrompidas em 1979.