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João Rendeiro. A fantástica história de Maria de Jesus Matos, a esposa que o ex-banqueiro deixou para trás quando fugiu à justiça

Viajou para Inglaterra em meados de setembro e de lá fugiu num jacto privado para um destino incerto. Em Portugal, amarrada aos credores, João Rendeiro deixou a mulher, com quem casou há 49 anos na Murtosa. Dela diz que é uma "mulher extraordinária". E tem mesmo de ser. Chama-se Maria de Jesus e bem pode rezar a todos os santos pelo inferno em que o marido a deixou: GNR a bater-lhe à porta, credores a morderem-lhe os calcanhares a pedirem indemnizações e o julgamento da opinião pública. Isto, enquanto o marido poderá estar à sombra de uma palmeira, num destino tropical, a beber uma margarita.
João Bénard Garcia
João Bénard Garcia
07 de outubro de 2021 às 23:12
Quem é a mulher que o banqueiro João Rendeiro abandonou em Portugal
João Rendeiro e Maria de Jesus
João Rendeiro
João Rendeiro e Maria de Jesus
João Rendeiro
João Rendeiro
João Rendeiro e Maria de Jesus
A Quinta Patiño, em Cascais
A moradia de João Rendeiro na Quinta Patiño em Cascais
João Rendeiro
João Rendeiro
João Rendeiro e Maria de Jesus
João Rendeiro
João Rendeiro e Maria de Jesus
João Rendeiro
João Rendeiro
João Rendeiro e Maria de Jesus
João Rendeiro
João Rendeiro
João Rendeiro
João Rendeiro

O ex-banqueiro falido João Rendeiro, de 69 anos, fugiu da Europa num jacto privado, no final de setembro, para destino incerto, para não cumprir uma primeira pena de 5 anos e meio de prisão efetiva, depois de ter sido condenado num processo pela prática de vários crimes de falsificação informática e de falsificação de documento.

Rendeiro fugiu, deixou uma carta a explicar as razões porque se recusava a entregar-se à justiça, mas, para trás, deixou pendurada, com todos os problemas no colo, Maria de Jesus da Silva de Matos Rendeiro, também de 69 anos, a mulher a quem fez juras de fidelidade e amor eterno há 49 anos, a 8 de agosto de 1972, em frente às famílias e amigos de ambos, na igreja paroquial de Santa Maria da Murtosa, nos arredores de Aveiro, a terra natal dela e a terra de origem dos pais dele.

Com o marido em fuga, Maria de Jesus ficou a viver sozinha com os cães do casal no famoso lote 81, a mansão multimilionária que o ex-banqueiro comprou, há 16 anos, na Quinta Patiño, um condomínio de luxo nos arredores de Cascais.

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A mansão de João Rendeiro, na Quinta Patiño Foto: arquivo

Apesar de serem raras as suas aparições, a SIC divulgou esta semana um vídeo de telemóvel de um traseunte onde se vê Maria de Jesus a ser abordada, junto aos portões do casarão, por uma patrulha de militares da GNR que, em vão, tentam notificar o marido, ou quem se responsabilizar por ele, no sentido de o encaminhar à prisão, fazendo assim cumprir um mandado judicial que determina o cumprimento da primeira de três penas de prisão a que Rendeiro já foi condenado em tribunais de primeira instância.

ELA GUARDA AS OBRAS DE ARTE

Maria de Jesus disse aos guardas que o marido se ausentou por "motivos de saúde", mas a verdade é que a deixou para trás, com o "menino no colo". Pior, segundo o advogado Paulo Sá e Cunha, Maria de Jesus é, neste momento, a fiel depositária de todas as obras de arte valiosas que pertenciam ao Banco Privado Português (BPP) e que não podem ser alienadas, por estarem arrestadas para saldar dívidas aos credores do banco.

As notícias dos últimos anos também não a isentam na totalidade nas várias responsabilidades que o marido tem para com os credores lesados pela falência do BPP.

Os dados vindos a lume, depois da queda do BPP - que foi construído e destruído por João Rendeiro -, indicam que Maria de Jesus será a beneficiária de contas bancárias no valor de seis milhões de euros, que o companheiro terá depositado em offshores em nome da antiga secretária e tradutora da família Mello.

As autoridades suíças já tinham enviado aos procuradores do Ministério Público (MP) que investigam a queda do BPP dados sobre várias transferências bancárias de João Rendeiro, ao longo de vários anos, para empresas offshore da mulher. Além da Suíça, existem movimentações bancárias para outras empresas, também em nome da Maria de Jesus, mas radicadas em Singapura e no Dubai que também levantaram suspeitas de cumplicidade sobre a esposa do ex-banqueiro.

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João Rendeiro com a mulher, Maria de Jesus Foto: arquivo


O MOTORISTA BARRIGA DE ALUGUER

Mais. Recentemente, em abril de 2021, os responsáveis pelas investigações descobriram que Florêncio de Almeida, o motorista do casal Rendeiro, comprou um apartamento de luxo na Quinta Patiño, aquela onde moram os patrões, por 1,15 milhões de euros, imóvel cujo usufruto cederá, pela módica quantia, à mulher do ex-banqueiro, podendo esta lá viver ou até mesmo arrendar a casa.

Segundo documentos do processo-crime a que a SIC teve acesso, em dezembro de 2020, num contrato-promessa de compra e venda com eficácia real, Florêncio de Almeida promete alienar o usufruto do apartamento, por cerca de 201 mil euros, à mulher de João Rendeiro.

O antigo gestor de fortunas é agora procurado no país e no mundo e longe vão os tempos em que o casal passava necessidades e chegou a não ter dinheiro para a reparação mecânica de um Fiat 128 velho que João Augusto e Joana Marques, os pais de João Rendeiro, ofereceram ao casal como prenda de casamento.

No livro "João Rendeiro - Testemunho de um banqueiro", da autoria da jornalista Myriam Gaspar, o homem que, desde a década de 80 do século passado, se movimentou com grande à vontade na alta finança nacional e internacional, conta todas as dificuldades por que passou ao lado da sua Maria. Aliás, refere-se a ela sempre como "a Maria".

SEM DINHEIRO PARA CASA PRÓPRIA

Ambos casaram com 20 anos. Ele não tinha trabalho certo e era ela, e os pais dele, quem, em Lisboa, asseguravam a gestão das contas domésticas. "O acordo era eu estudar e ela segurar as pontas", relata na obra, explicando que demoraram dois anos até Rendeiro ser monitor no ISEG e o casal conseguir arrendar "uma boa casa de renda alta" no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, perto da casa dos pais dele.

Sobre a mulher, João Rendeiro confessa na biografia: "A Maria foi sempre uma companheira extraordinária. Trabalhou em várias empresas até 1999, ano em que parou para me poder acompanhar nas sucessivas viagens que fazia por causa do BPP" e relata também histórias de duas amizades muito especiais entre vizinhos no mesmo bairro. "Eu e a Maria éramos amigos do Manuel Pinho e da mulher. Íamos à sua casa, onde o Eduardo Ferro Rodrigues fazia discursos inflamados", discursos que o motivaram a ir assistir a comícios do PS no pós-25 de Abril "com a Maria".

Ao longo do escrito, João Rendeiro vai sempre contando os estados de espírito da mulher com quem casou há 49 anos e com quem nunca teve filhos.

"A Maria ficou muito triste quando fui fazer o doutoramento em Inglaterra e ela não pode ir logo"; "a Maria sofreu bastante com o bombardeamento do semanário 'O Independente'" quando começou a erguer as bases do BPP, dando sempre a ideia que ela foi uma das artífices da construção da marca 'João Rendeiro, gestor de finanças pessoais de confiança'.

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João Rendeiro Foto: arquivo


SEM VERGONHA DE CHORAR

O que o ex-banqueiro não esquece, e até revela ter chorado, foi o episódio que viveu ao lado da sua Maria no dealbar do século XXI. "2001 foi um ano difícil para mim em termos pessoais. A Maria descobriu que tinha um cancro da mama. Ela já suspeitava mas não me confidenciou nada. Deixou correr o tempo até achar que não podia esperar mais. Quando soube, a minha reação foi dizer-lhe para se acalmar e que juntos íamos vencer a doença".

Só que o homem forte da banca privada de então tremeu e pensou no fim. Dela e dele. "Dei depois por mim a pensar que se a Maria morresse, eu também queria morrer". E explica: "Conhecemo-nos desde pequenos, começámos a namorar aos 17 e casámos com quase 21. Foi sempre a minha companheira. Não me envergonho de dizer que muitas vezes chorei por causa do que a Maria teve de passar. Até quando a Maria já não tinha cabelo continuava bela".

João Rendeiro diz que o cancro da mama da mulher o fez mudar a forma de encarar a vida. "Um par de anos depois de isto te acontecido, dei por mim a pensar que há mais vida para além do dinheiro e procurei desenvolver outros interesses". 

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João Rendeiro com a mulher, Maria de Jesus Foto: arquivo


A TRAGÉDIA DE JEREMIAS

Bem, quando os leitores da sua biografia esperavam algum gesto filantropo ou caritativo do ex-banqueiro, eis que quem se adianta nas linhas do texto descobre um lado telúrico e até inusitado do magnata da finança. "Eu e a Maria, em especial a Maria, adoramos animais, um dia apareceu-nos em casa um pardal que se habituou a comer da boca da Maria, pensava que ela era a mãe dele. Chamámos-lhe Jeremias e ele voava à solta pela casa, só que um dia morreu", conta pesaroso.

Sem a amizade e o carinho de Jeremias, João Rendeiro achou que tinha de acabar com a solidão e a tristeza de Maria de Jesus e fez-lhe uma surpresa. "Comprei à Maria uma cadelinha Yorkshire Terrier que ela batizou de Boneca", desvenda.

A vida do casal estava, porém, prestes a mudar, com a ida de Lisboa para a mansão da Quinta Patiño. "Quando nos mudámos para Cascais, a Boneca ganhou a companhia da Schnauzer Matilde e de Gastão, um vira-lata apanhado na rua. Transformaram-se num trio inseparável", confessa, com satisfação.

MARIA GARANTIDA, FAMÍLIA QUE SE LIXE

Sem herdeiros diretos, João Rendeiro reflete na sua biografia autorizada sobre o futuro da sua então grandiosa fortuna, hoje reduzida a divídas dos credores.

"Quero assegurar, em qualquer circunstância, uma situação confortável para a Maria e ajudar um pouco os sobrinhos, sobretudo os que pretendam singrar nos estudos. O grosso do meu património será doado à sociedade e não herdado pela família. Tenho a convicção de que não faz sentido dar a terceiros toda a criação de valor que acumulei ao longo dos anos", remata.
































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