A poucas semanas de o Palácio de Belém abrir as portas a um novo casal presidencial, que ainda tanto pode ser António José Seguro com a mulher, Margarida Maldonado Freitas, como André Ventura com a esposa, Dina Nunes Ventura, a The Mag, by FLASH!, recorda quem foi o mais famoso, e único, até hoje, bebé presidencial. O menino fofinho que encantou os portugueses, muitos poderosos mundiais no período pós-Revolução dos Cravos e se pode gabar de ter andado de mão dada com um Papa carismático. Para isso vamos recuar a 20 de outubro de 1977, o dia em quando nasceu Miguel Neto Portugal Ramalho Eanes, o filho do então Presidente da República António Ramalho Eanes e da Primeira Dama Manuela.
COMO TUDO ACONTECEU...
O casal presidencial tinha acabado de se mudar para Belém quando Manuela Eanes descobre que está grávida de um segundo filho, depois de, a 5 de maio de 1972, ter dado à luz Manuel, o primogénito do então Major Eanes e da jurista. O casal de classe média alta estava ainda muito longe de imaginar o turbilhão que aconteceria em breve nas suas vidas. Passarão por uma Revolução a 25 de abril de 1974, onde Eanes só não participou diretamente porque foi mobilizado dois meses antes para Angola; pelo golpe comunista de 11 de março de 1975, um dia antes de se demitir do cargo de administrador da RTP; por um verão quente onde balas, bombas, expropriações e gritos eram quem mais ordenava; e depois por uma contra revolução, também ela democrática, a 25 de novembro desse ano, onde Eanes teve um papel fundamental.
Sete meses depois, a 27 de junho de 1976, Ramalho Eanes vence as Eleições Presidenciais, com 61,59% dos votos, e, aos 41 anos, a 14 de julho, torna-se o mais jovem Presidente da República de sempre e também o primeiro eleito por sufrágio universal democrático, numa das mais participadas Eleições de sempre. Com ele subiram a rampa do palácio naquele dia de verão a mulher Manuela, uma senhora esbelta e de esmerada educação e o pequeno Manuel, então com 4 anos. O palácio de Belém nunca tinha acolhido um Presidente tão jovem e com um filho tão pequeno e por isso Portugal vibrava com tudo: com esperança que a Revolução trazia, com a novidade da liberdade e com o frescura que o casal presidencial trazia ao povo e ao espetro político, ainda frágil e conturbado.
O BEBÉ MAIS FAMOSO DE PORTUGAL
O nascimento do bebé Miguel, em outubro de 1977, foi um acontecimento na altura e reforçou ainda mais os laços emocionais entre os portugueses e seu Chefe de Estado, sempre sério, e a sua Primeira Dama, a sempre afável Manuela. As primeiras imagens do menino ao colo dos pais no dia do seu batizado, a 28 de janeiro de 1978, deliciaram os leitores das revistas e jornais da época e foi notícia no único canal televisivo português de então, a RTP, onde Eanes desempenhou funções de diretor de programas após a revolução, e de onde saiu, a 12 de março de 1975 do cargo de administrador, acusado pela esquerda radical de ser um testa de ferro do deposto Presidente Marechal António de Spínola.
Apesar de ser considerado como um dos melhores chefes de Estado de Portugal no pós 25 de Abril, muito por força de ter garantido o sucesso e lançado as bases do Estado democrático, Ramalho Eanes nunca considerou os seus dez anos de 'governação' em Belém como 'o acontecimento' da sua vida, e nem sequer os inscreve entre os três mais importantes factos da sua história pessoal. Eanes costumava dizer que "um dos três acontecimentos mais importantes" da sua vida tinham sido os nascimento dos dois filhos e o encontro com a sua mulher. Da experiência presidencial nem uma linha, muito menos um parágrafo,... certamente por falsa modéstia.
Nos primeiros meses no cargo, Eanes ainda resistiu a mudar-se com a família para o então desconfortável Palácio de Belém, junto ao Tejo, mas decidiu habitá-lo quando percebeu os riscos inerentes ao facto de a sua moradia no Bairro da Madre de Deus, em Lisboa, ter porta direta para a rua. O país ainda estava efervescente com os ímpetos revolucionários e isso levantava questões complexas de segurança, numa fase bastante sensível da nossa democracia. É então, já em Belém, que se dá o nascimento que mudou por completo a vida nos corredores da vetusta residência oficial dos Presidentes, a mesma onde eram recebidos Reis e Chefes de Estado de todo o mundo. Os Eanes chegaram mesmo a ser comparados ao Kennedy americanos (John e Jacqueline) no primeiro mandato nos anos 70, pela vivência familiar, e depois em relação ao casal Reagan (Ronald e Nancy) nos anos 80, pela seriedade devocional e carisma impostos por Eanes e Manuela na função.
Desde pequenino, e até que aos 8 anos, quase 9, quando deixou o palácio onde nasceu e cresceu, Miguel Eanes conviveu com a nata da liderança mundial dos anos 70 e 80, décadas governadas por líderes carismáticos do século XX. Ainda bebé esteve ao colo da rainha Sofia de Espanha e mais crescido privou bastante com os monarcas vizinhos; com 4 anos e meio andou feliz e contente de mão dada com o Papa João Paulo II; aos seis privou bem de perto com os reis da Bélgica, Balduíno e Fabiola, e com quase oito foi estrela na visita oficial que os pais fizeram à China e tem, para mais tarde recordar, fotografias e vídeos a caminhar na Grande Muralha daquele país milenar. Miguel somou, em apenas oito anos, mais convívio com reis, rainhas e princesas, Presidentes, primeiros-ministros e diplomatas de todo o mundo que visitavam o pai em Belém, do que alguma vez poderia imaginar. Já Portugal vibrava com o irrequieto Miguel que, pequenino, corria pelos corredores do Palácio, nos jardins e era descrito como brincalhão e irreverente, um estatuto típico dos irmãos mais novos, sem o peso da primogenitura.
AS FÉRIAS INESQUECÍVEIS E VIDA DISCRETA
A ligação de Manuel e Miguel ao mar ficou bem expressa nas únicas férias que o Presidente Ramalho Eanes conseguiu fazer, do princípio ao fim, durante os seus dez anos de mandatos, em 1983. Há registos fotográficos de Miguel a brincar com o pai dentro de água no mar calmo da Foz do Sado, a andar a cavalo com o pai e o irmão Manuel nas encostas da Arrábida. Miguel acabaria anos mais tarde por desejar mares mais revoltos e surfar nas suas ondas. Em adolescente, este filho de um militar austero usou cabelo grande 'à surfista', com formato de tigela e as inevitáveis madeixas loiras, algo que era aceite pelo pai com alguma parcimónia.
Num programa de televisão apresentado por Manuel Luís Goucha e Teresa Guilherme, o jovem de 15 anos aceitou, bastante nervoso, descrever a sua relação com o pai. Dele disse: "O meu pai é um homem que me tem transmitido, ao longo da vida e da educação, valores que são essenciais: responsabilidade e companheirismo", assumindo que o patriarca Eanes brincava com ele e com o irmão Manuel, sempre sem desfazer a imagem de seriedade publicamente cultivada pelo progenitor.
Depois de a sair de Belém, 9 de março de 1986, Miguel só voltou a ser notícia quando se casou, em julho de 2006, numa igreja em São Domingos de Benfica, Lisboa, com a jovem engenheira ambiental Sílvia Romeiro. O "até que a morte vos separe" foi dito pelo padre Vítor Melícias, amigo pessoal da família Eanes, e depois o novo casal só voltou a ser notícia quando foi, em 2009, pai de António, e mais tarde de Madalena, a caçula dos netos do General.
Quarenta anos depois de ter deixado de ser o habitante mais novo e um dos mais acarinhados pelo público do Palácio de Belém, Miguel tem 48 anos, é técnico farmacêutico na Farmácia Alcochete, no Outlet Freeport, mas também já atendeu muitos fregueses na Farmácia Nacional, na Quinta do Parreirinha, na Bobadela, e na Farmácia Colombo, no maior centro comercial de Portugal. A mulher, Sílvia, trabalha há 23 anos como engenheira de qualidade, saúde e ambiente na petrolífera Galp, depois de se ter licenciado em engenharia ambiental na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. São um casal discreto e quem os vê na rua nem sonham ser filho e nora dos mediáticos e considerados António e Manuela Ramalho Eanes.