O que faltava saber: Maria Custódia Amaral, a mulher empática que sofria por amor e foi assassinada por confiar de mais
Amigos e familiares contam tudo sobre ela na hora do adeus: o casamento relâmpago com Miguel, o advogado pai do filho Bernardo. As paixões com homens violentos. As relações tóxicas. A fuga para a região Oeste na época do Covid-19. O desencanto com o isolamento no meio do campo e a vontade de mudar de casa. Tudo histórias de uma mulher que gostava de festa, do convívio com as amigas, que falava pelos cotovelos e nunca chegava a horas a lado algum.
O poeta francês Jean de La Fontaine
escreveu que "não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos
caminhos que escolhemos para fugir dele". A frase aplica-se, sem dúvida, à
morte trágica sofrida por Maria Custódia Amaral, de 54 anos, a filha
da conhecida atriz Delfina Cruz. A agente imobiliária, residente na Lourinhã, tinha uma relação tensa com José Pedro Sobreiro Branco, um homem 20 anos mais
novo. Tinha sido seu inquilino, amante e perseguia-a com mensagens ofensivas
enviadas para o telemóvel. Mas, mesmo assim, aceitou fazer uma visita para
angariação da casa que este, alegadamente, quereria vender. Foi morta no seu
interior, na manhã do dia 19 de janeiro, supostamente "por acidente",
na sequência de um confronto com o eletricista nascido em A dos Francos, uma
aldeia das Caldas da Rainha. Doze dias depois, o homem foi detido, acabando por
confessar o crime. Está em prisão preventiva.
Em menos de três horas, depois de
ter assassinado Maria Amaral na casa térrea que comprou em Paço, nas imediações
de São Bartolomeu de Galegos, na Lourinhã, em dezembro de 2024, e da qual agora
se quereria desfazer após ter terminado a relação com a namorada, José Pedro
meteu o BMW série 5 da mediadora para dentro do seu quintal. Depositou o corpo
desta na bagageira junto com uma pá. Deslocou-se em plena luz do dia até à
Lagoa de Óbidos, junto à Poça Pequena, entre a Aldeia da Lapinha e a praia do
Bom Sucesso, num acesso de terra batida a coberto de vegetação, cavou um buraco
e enterrou-a bastante à superfície. Passou pelas Caldas da Rainha, deixou o
telemóvel da vítima num segundo carro, que esta tinha estacionado nesta cidade, e
rumou a Peniche, terra onde trabalhava na empresa IDAL com a ex-namorada, uma
indústria conserveira do Grupo Heinz. Estacionou a viatura junto aos bombeiros
voluntários locais, saiu, dirigiu-se à central de camionagem e apanhou um
autocarro de volta para casa. E foi aqui que cometeu o erro que permitiu às
autoridades caçá-lo: Foi captado por câmaras de video vigilância a abandonar o
veículo da vítima.
Poucas pessoas sabiam da relação
amorosa que José Pedro tinha mantido com Maria Amaral na pequena propriedade
isolada que esta possuía em Casal Mulato, Moita de Ferreiros, na Lourinhã. A
vida dos dois cruzou-se quando José Pedro e a ex-namorada precisaram de um
local para viver enquanto a casa da aldeia de Paço, que o eletricista tinha
comprado com recurso a um empréstimo de 144 mil euros junto do Banco Santander
Totta, passava por um processo de legalização e pequenas reparações. Foi quando
viveram na mesma propriedade que o clique amoroso aconteceu. José Pedro traía a
então namorada mantendo um relacionamento com a senhoria, a mulher que matou um
ano e meio depois de se terem conhecido.
A vida amorosa de Maria Amaral, uma
mulher expansiva e bastante comunicativa, era uma autêntica montanha russa.
Casou muito nova, com 20 anos, com Miguel, então um jovem advogado. Maria
Assunção, a tia por afinidade, ex-mulher de Manuel Cruz Neto, irmão da atriz
Delfina Cruz, conta como foi o enlace da sobrinha com Miguel, em 1992, na
Igreja de Santo António do Estoril, a mesma onde agora foi velada, nos dias 10
e 11 de fevereiro, antes da cremação. Segundo a mesma parente, o casamento
durou pouco mais de sete anos e acabou quando nasceu Bernardo, o filho único de
Maria Custódia. "O feitio dos dois não colava e cada um decidiu seguir o
seu caminho, ainda o Bernardo era bebé, mas tinham uma relação cordial",
assegura a tia.
AVENTURA NO OESTE APÓS COVID-19
Depois da separação, Maria Amaral
viveu ainda 22 anos em São João do Estoril, em Cascais, numa moradia que o pai
deixou à mãe junto à estação de comboios. Ali tinha o seu núcleo de amigos e
amigas, ali teve os seus relacionamentos, mas durante a pandemia do Covid-19
decidiu, em 2021, mudar-se para o Oeste e escolheu a Lourinhã como terra de
acolhimento. Comprou uma casa com jardim e um anexo nas imediações de Casal
Mulato, sem vizinhos e acessível apenas por uma estrada de terra batida.
Além de outros relacionamentos que
teve, um dos quais com um homem violento, às mãos de quem sofreu violência
física e psicológica, Maria Amaral vinha mantendo uma relação iô-iô com Valter,
um ora ex-namorado, ora amigo colorido, no fundo o último homem a vê-la com
vida naquela fatídica manhã. Uma amiga íntima da vítima contou à revista TV
Guia no dia do funeral que a relação entre ambos era tudo menos feliz, o que
até levou a que as duas amigas se desentendessem que e Maria tivesse sido
assassinada sem que as duas se reconciliassem: "Desconhecia os contornos
da relação da Maria com este assassino, que espero que não seja libertado e que
saiba que a cova que ele abriu ainda está aberta... mas sei que a relação dela
com o Valter (o ex que foi tomar o pequeno almoço com ela poucas horas antes do
seu desaparecimento) era muito, mas muito tóxica, muito violenta. Ele fazia-lhe
muito mal e passavam a vida a pegar e despegar. Aqueles dois não podiam estar
juntos."
Enquanto a Polícia Judiciária (PJ)
apertava Valter em interrogatório - o namorado que era ex mas continuava a
relacionar-se com Maria -, José Pedro, tinha metido baixa no trabalho na IDAL e
ficou quase duas semanas fechado na sua moradia da rua Principal, em Paço.
Segundo um dos vizinhos do eletricista, "a última vez que o vimos, já
sozinho, sem a namorada que o tinha deixado uns quinze dias antes, foi no dia
das eleições (Presidenciais), a 18 de janeiro, na véspera de fazer aquele
preparo à rapariga. Até o vimos dar 20 euros para as Festas de São Brás, o
santo da nossa aldeia", contam. José Pedro colocou inclusive o seu Renault
Clio bordeaux no quintal da sua propriedade e quase não saiu de casa durante os
dias após o desaparecimento de Maria Amaral. Dia 31 de janeiro, de manhã, foi
visitado pelos inspectores da PJ que o detiveram. A sua casa foi de imediato
alvo de peritagens, constatou-se haver vestígios de sangue, cabelos e pele que
se corresponderiam ao DNA de Maria Amaral.
Apertado pelas autoridades,
percebendo que não tinha como escapar, José Pedro acabou por confessar o crime,
que afirma ter ocorrido "por acidente" e deu a localização precisa
onde se encontrava enterrado o corpo da agente imobiliária. A PJ acionou de
imediato os serviços dos Bombeiros das Caldas da Rainha que, pouco depois das
18 horas, tinha em sua posse o cadáver em adiantado estado de decomposição da
vítima. Terminava assim, de forma trágica, um mistério que durou 12 dias.
José Pedro era considerado na
aldeia de Paço como um homem pacato, de poucas falas, que apenas ia à
localidade dormir, comprava gás na mercearia da aldeia e tomava um café no bar
da associação recreativa local. Na aldeia de A dos Francos, nas Caldas da Rainha,
onde nasceu e onde ainda reside a sua mãe, José Pedro, que em criança e
adolescente jogou futsal, é considerado como um homem "muito
sossegado". "Não o vejo há mais de um ano, mas a imagem que guardo
dele é a de um rapaz sossegado, muito reservado e que não dava muita
conversa", adianta Carlos Carvalho, dono do café da aldeia, que
acrescenta, rematando: "Sei apenas que ele é eletricista, que trabalhou
numa empresa aqui da aldeia que entretanto fechou e que foi procurar uma vida
melhor fora daqui. O que as pessoas sussurram aqui no café pode ou não ser
verdade e por isso não vou adiantar o que ouço."
Durante as cerimónias fúnebres da
malograda agente imobiliária os amigos comentaram com a revista TV Guia que a
filha de Delfina Cruz se preparava para colocar à venda a moradia onde residia
na Lourinhã. "A Maria sentia-se muito isolada naquela casa. Não tinha
ninguém à volta, ficava longe do trabalho dela, o filho quase nunca lá estava
com ela e a casa é grande. Ela dizia-nos que só queria encontrar uma casa com
jardim para ter os cães, que eram a paixão dela", revela uma amiga da
falecida que, mesmo morando num apartamento, já se ofereceu para ficar com
Topac, o cão de raça pitbull com cinco anos de Maria: "Vai dar-me muito
trabalho domá-lo porque ele não deixa que qualquer pessoa se chegue a ele, mas
vou conseguir. O Bernardo (filho de Maria Amaral) não quer ficar com ele e não
o vou deixar ir para um canil."
Quem no funeral estava destroçado e
desorientado era Bernardo, o filho único de Maria Amaral, sempre amparado pelo
pai, Miguel, um advogado lisboeta. O jovem de 26 anos viveu 12 dias de angústia
e desespero após o desaparecimento da mãe. No dia 20 de janeiro, depois de se
saber que Maria Amaral tinha desaparecido, o seu filho deslocou-se para a
Lourinhã para tratar dos cinco cães, guardar a casa, acompanhar as buscas pela
mãe e contou quase de imediato com o apoio presencial do pai.
UMA MULHER DEMASIADO EMPÁTICA
Quem está em choque com a morte
macabra da sobrinha é a tia Maria Assunção, que a descreve com "um ser
cheio de vida". "A Maria era muito engraçada. Nunca conseguia chegar
a horas a lado nenhum, arranjava as desculpas mais estapafúrdias, chegava
sempre atrasada mas para ela estava tudo bem. Quando ia à minha casa e eu
estava a cozinhar para comermos ela falava e falava e não se calava. Não era
aborrecida, tinha muita graça e todos gostávamos dela. Saía um bocado ao pai,
que era militar. A mãe era mais tranquila", conta, com saudade.
A facilidade em confiar nos outros
e o seu excesso de empatia acabaram por lhe ser fatais. Apesar de saber que o
homicida José Pedro tinha por si uma obsessão que expressava em mensagens no
telemóvel, algumas bastante abusivas, como veio a constatar a PJ ao abrir o
dispositivo, Maria aceitou o pedido do ex-inquilino para lhe fazer uma
pré-avaliação para venda da pequena moradia que este tinha comprado em Paço em
2024. A agente imobiliária nunca imaginou o desfecho. Os amigos não perdoam
José Pedro Sobreiro Branco e a expressão de raiva no rosto e não acredita na
tese de morte acidental. Revoltados, questionam os factos: "Uma pessoa que
mata acidentalmente tem logo uma pá à mão, consegue escolher o local onde vai
enterrar o corpo, cava o buraco e em três horas deixa o carro em Peniche e
volta para casa de autocarro?..."