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Os maiores segredos de Carlos Paião, o autor de 'Playback'. Dos sucessos de Herman José ao mito de ter sido enterrado vivo

Trinta e oito anos após a sua trágica morte, está nas salas de cinema NOS o filme que retrata a vida e obra do cantor-médico. Na tela podemos ver o hiperativo compositor musical que escondia na perpétua brincadeira a timidez e a tristeza; o génio letrista que aos 30 anos deixou 300 canções; e o marido ternurento que tinha muitos sonhos com a sua mulher Zaida, mas que morreram "num segundo".
João Bénard Garcia
Carlos Paião
Carlos Paião

Remexer nas memórias, às vezes, traz enormes surpresas. E foi o que aconteceu quando Zaida Cardoso, viúva do malogrado cantor Carlos Paião, deixou o diretor musical do filme, Paulo Furtado (mais conhecido no meio artístico como 'The Legendary Tigerman') revisitar o espólio pessoal do artista. O objetivo? Trabalhar no conteúdo do filme 'Playback', um tribuno cinematográfico à vida e obra do cantor-médico, que morreu de forma trágica aos 30 anos de idade a 26 de agosto de 1988.

Zaida também colaborou estreitamente com o argumentista Mário Cenicante e com a equipa de produção. Partilhou memórias íntimas sobre o cantor e deu acesso ao seu espólio. Gravações e maquetes inéditas que Carlos Paião guardava em casa viram de novo a luz do dia. E é quando se descobre um tesouro. Um tema inédito: uma canção de amor pela cidade de Lisboa, mas com uma visão crítica sobre as suas mudanças... e isto pouco antes de 1988, imaginemos quantas temáticas para um álbum inteiro dariam hoje. Os criativos responsáveis pelo guião decidiram incluí-la no filme e por isso será agora conhecida como o novo tema de Carlos Paião, 'Lisboa Lisboa', 38 anos após o desaparecimento do seu autor. Mas atenção, esta não foi a única música inédita encontrada, em breve haverá mais surpresas.

VIÚVA FAZ REVELAÇÕES SURPREENDENTES SOBRE INTIMIDADE DO CANTOR

A também médica Zaida Cardoso foi o grande amor da vida de Carlos Paião. Conheceram-se no dia em que ele fez 14 anos e só se separaram quando ele morreu, de forma trágica, num acidente de viação em Rio Maior a 26 de agosto de 1988. "Deu logo para ver que ele era um rapaz muito alegre, muito brincalhão, que gostava de fazer partidas a todos os amigos. E a partir daí começamo-nos a conhecer melhor", testemunha a viúva, em 2025, numa entrevista gravada na sua residência para o programa de televisão 'Casa Feliz', na SIC.

O casal trocou alianças a 1 de abril de 1981, dois dias antes de partirem na comitiva portuguesa que representou Portugal no 'Festival da Eurovisão' desse ano em Dublin, na República da Irlanda. Paião tinha ganho com uma votação bastante expressiva (210 votos) o 'Festival RTP da Canção' com o tema 'Playback' e nem o penúltimo lugar na competição internacional, com apenas nove pontos, o desmotivou de seguir uma carreira como cantor. Estudava nessa altura Medicina, curso que terminará em 1983. Mas as cantorias falaram mais alto e o rapaz de Ílhavo, que nasceu nos hospitais universitários de Coimbra em 1957, trocou os estetoscópios e o "diga 33" por baladas e canções que apaixonaram uma geração. A viúva garante que foram mais de 300 temas escritos e compostos, portanto mais novidades poderão surgir no fundo de algum baú, do do cantor ou do de alguém a quem tenha oferecido ou cedido temas seus.

O HIPERATIVO MUSICAL QUE ESCONDIA A TIMIDEZ COM MEGA BRINCADEIRA

O filme que desde dia 6 de agosto está presente em mais de 50 salas de cinema NOS em todo o país vai ser o termómetro para realizador e produtores medirem se a febre de Carlos Paião ainda está ao rubro, como esteve durante a sua fugaz passagem pela cena artística nos anos 80 do século passado. "Ele respirava música, tudo servia para tocar, tudo servia para criar ritmos. Ele tinha as músicas todas na cabeça", revela Zaida Cardoso, que acrescenta ao discurso um lado mais privado do cantor, desconhecido do público que o amava: "Ele era extremamente alegre, mas era uma pessoa tímida. Aquela brincadeira, aquela alegria dele, a jovialidade ajudavam-no a disfarçar um pouco essa timidez. Às vezes parecia um miúdo pequeno".

Zaida Cardoso e Carlos Paião
Zaida Cardoso e Carlos Paião Foto: DR

A mulher com quem partilhou vida de casado durante sete anos, e muitos sonhos que se perderam a 26 de agosto de 1988, reconhece ter dele a melhor das memórias: "Tive o privilégio de me sentir profundamente amada, como todas as mulheres se deviam sentir um dia. Essa recordação tenho-a para todo o sempre". É por tudo isto junto que não se recusa a homenagear, sempre que lhe pedem, o amor da sua vida. Na mesma entrevista para o 'Casa Feliz', aceitou recordar o dia em que o marido partiu, durante uma viagem que tinha como destino um concerto das festas de São Genésio, em Penalva do Castelo, na Beira Alta.

NOTÍCIAS DA SUA MORTE ABAFADAS POR OUTRA TRAGÉDIA COLETIVA

"A única lembrança má que recordo dele foi o dia do seu desaparecimento. Naquele dia o Carlos tinha saído de casa umas horas antes, sempre com as habituais brincadeiras dele. Despedimo-nos da maneira habitual, ele sempre com as festinhas e as palmadinhas dele. Foi buscar os técnicos de som e de luzes e eu fui trabalhar", recorda Zaida Cardoso, que, sem saber, estava a poucas horas de receber a notícia do "pior dia da minha vida". "Quando o meu pai me telefona a dizer que o Carlos tinha tido um acidente grave e que estava em estado grave, não me quis dizer logo o que tinha acontecido. Só quando cheguei a casa dos meus pais é que soube exatamente o que se tinha passado e que o Carlos tinha falecido. Todos os sonhos que queríamos concretizar acabaram num segundo", remata.

Carlos Paião viajava em direção ao Norte do País quando a viatura em que seguia colidiu violentamente de frente com um camião na Estrada Nacional 1, nas imediações da povoação de Amieira, Rio Maior. O embate provocou a morte imediata de Carlos Paião e do técnico de som Carlos Miguel Sousa. Um terceiro ocupante do veículo, também técnico, Jorge Esteves, sobreviveu ao desastre. Agora, não só Zaida, a família e amigos estavam de luto pelo desaparecimento do músico e compositor, mas um País inteiro ficou em choque com o desaparecimento tão precoce do génio musical.

Carlos Paião
Carlos Paião Foto: Cofina Media

As notícias da morte do icónico músico foram, contudo, abafadas por um outro episódio negro da nossa história coletiva: Um dia antes, na madrugada de dia 25 de agosto, um violento incêndio tinha destruído uma parte histórica do Chiado, na Baixa Pombalina, uma das maiores tragédias da cidade de Lisboa após o terramoto de 1755.

O BOATO DE QUE TINHA SIDO ENTERRADO VIVO AINDA PERSISTE

A cobertura mediática não teve por isso o impacto que se esperava, mas um mito, criado na sequência do trágico acidente do cantor, perdura até hoje no imaginário coletivo de quem conheceu Carlos Paião figura pública e o admirava como artista. Anos após a sua morte, quando o seu corpo foi trasladado para Ílhavo, a sua terra natal, surgiu um boato persistente, e dificílimo de apagar, de que Carlos Paião teria sido enterrado vivo.

A história foi inventada, mas o boato ganhou uma força gigante com o rumor de que, anos após o funeral, o caixão do cantor tinha sido reaberto para a trasladação das suas ossadas para outro cemitério e que quem assistiu teria ficado perplexo com o cenário macabro encontrado: Dizia-se popularmente que, ao abrir a urna, se tinha encontrado o esqueleto do artista virado de bruços e o interior da tampa do caixão completamente arranhado. Isto gerou a falsa teoria de que ele sofrera um ataque de catalepsia (um estado de paralisia que simula a morte física) no momento do acidente, tendo acordado já debaixo de terra. O rumor tornou-se tão forte que foi necessário a viúva do músico vir esclarecer a sua total falsidade, quase jurar que o marido teve morte imediata e foi autopsiado. Muitos populares não ficaram convencidos, ainda hoje acreditam na história.

NA SOMBRA DOS MAIORES SUCESSOS DE HERMAN JOSÉ

A mulher, figura sempre presente nos momentos em que a vida e obra do cantor é recordada – como agora, com o filme sobre a sua vida –, garante que Paião tinha "muitíssimo mais para dar" no que diz respeito à música e lamenta que da sua capacidade criativa só tenha ficado "a pontinha do iceberg". Se aos 30 anos o cantor-médico deixou 300 temas compostos, o que teria acontecido se tivesse chegado a Penalva do Castelo naquele e regressado são e salvo no dia seguinte? O autor de 'Playback', o tema satírico com o qual venceu o 'Festival RTP da Canção' em 1981, 'Pó de Arroz', uma balada de grande delicadeza poética e sentimental, 'Cinderela', o seu maior e mais icónico clássico romântico, ou 'Ga-Gago', uma canção satírica focada no humor e no jogo de palavras, teria certamente contribuído para o enriquecimento da música popular portuguesa contemporânea.

Carlos Paião
Carlos Paião Foto: Cofina Media

O que poucos sabem é que ainda hoje trauteiam temas orelhudos de outros artistas famosos que saíram da caneta e das cordas da guitarra ou das teclas do piano de Carlos Paião: 'A Canção do Beijinho', interpretada por Herman José; 'O Senhor Extra-Terrestre', ousadamente cantado por Amália Rodrigues; 'Trocas e Baldrocas', interpretada por Cândida Branca Flor; ou ainda o facto de Carlos Paião ter sido o cérebro musical por trás das músicas de sketch mais famosas do humorista Herman José como o 'Bamos lá, Cambada!', o hino de futebol escrito para a personagem José Estebes; ou ainda o facto de ter sido Paião quem compôs a totalidade do repertório do hilariante cantor Serafim Saudade, magistralmente interpretado por Herman José como sendo uma sátira aos falsos cantores românticos.

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