Se nos dias que correm as polémicas parecem ter pavio curto, sendo rapidamente substituídas por outras, no caso de Cristina Ferreira assistiu-se a um fenómeno inverso. O País continua a seguir atentamente a controvérsia acerca das declarações da estrela sobre consentimento e o caso da jovem violada em grupo. "Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele: ‘’Não quero mais?”, foi a questão da apresentadora e que na passada segunda-feira conheceu um novo capítulo, com Cristina a ser recebida no Jornal Nacional, com honras de grande entrevista.
Mais nervosa do que o habitual, a apresentadora tentou deixar clara a sua posição acerca de abusos e feminismo, mas o facto de ter recusado terminantemente pedir desculpa deixou um sentimento agridoce em muitos, que acreditavam que a diretora da TVI perdeu uma oportunidade de ouro para se redimir. "Não foi um comentário, foi uma pergunta dirigida a uma comentadora. Eu quero perceber o que se passa na cabeça de quatro jovens que não respeitaram aquela rapariga", tentou justificar, mas não convenceu toda a gente.
Se nas redes sociais, a apresentadora agradeceu o carinho recebido, a verdade é que publicamente, e pela primeira vez, se assistiu a um fenómeno peculiar. As críticas transpuseram a fronteira das redes sociais e chegaram a figuras mediáticas, que não tiveram medo de dizer o que pensam e chamar a atenção para o facto de Cristina não ter agido bem, o que melindrou o rosto da TVI, que na entrevista não deixou de abordar o assunto. "Colegas meus decidiram fazer os seus posts, dizendo aquilo que achavam de mim e dizendo aquilo que achavam do meu carácter", começou por dizer.
"Confesso que achei assustador. Primeiro: muitos deles não convivem comigo, não sabem quem eu sou e não veem o meu trabalho diariamente. Depois: não posso proclamar a empatia quando uma pessoa que quer escrever e julgar-me desta forma não pega no telefone – temos todos acesso aos telefones uns dos outros – e me diz 'Explica-me. Foi o quê? Porque disseste aquilo? Porque o disseste desta forma'?", apontou a apresentadora do 'Dois às 10' e do 'Secret Story'.
QUEM ENFRENTOU CRISTINA?
A mágoa de Cristina prende-se com o facto de as críticas terem chegado dos mais variados colegas, muitos deles com peso real na sociedade. É o caso de Catarina Furtado que, apesar de ter começado por lamentar a onda de ódio que o caso gerou, não deixou de dar um enorme puxão de orelhas à apresentadora da TVI, lembrando a tal responsabilidade social inerente a quem é seguido por milhões de pessoas e que tem um papel importante em questões fraturantes da sociedade.
"Errar em direto acontece, já errei muitas vezes. Pedir desculpa e tentar fazer melhor é sempre uma opção, para a pessoa, para a estação. Mas o que considero importante sublinhar é que o que foi dito (e outras frases do mesmo género em situações diferentes ao longo dos anos) veio de um lugar onde não existe de facto a noção do impacto absolutamente nocivo que pode ter a formulação de uma pergunta", reiterou Catarina, conhecida por ser uma acérrima defensora dos direitos das mulheres.
"Não é intencional, é estrutural. Há uma postura machista que é abraçada por muitas mulheres, que se dizem não feministas, e é de facto grave quando esse discurso é normalizado, porque isso contribui e muito para a banalização do crime, da violência, da desigualdade de género, e em última instância, da misoginia que grassa na chamada manosfera (machosfera)", acrescentou.
"Comentar assuntos seríssimos de cidadania e direitos humanos exige preparação, leitura de informação fidedigna e verificação de estudos. Há mais de 25 anos que me debruço sobre estas matérias que nos dizem respeito a todos e a todas nós, que implicam um exercício diário do questionamento, quer como Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações para a População quer como fundadora da associação Corações Com Coroa", concluiu Catarina, que de forma séria deu voz à indignação geral.
Também Joana Marques, com uma pitada de humor mas a falar muito a sério, não deixou de comentar a polémica. "A Cristina tem esta relação complicada com a liberdade de expressão e percebo até que, às vezes, me interessasse limitar a liberdade de expressão até para ela... era-lhe muito útil tendo em conta a quantidade de vezes em que diz coisas que saem ao lado. Era bom que não pudesse falar tanto. Muitas vezes, acredito que, mesmo sem querer, não se apercebe das coisas que está a dizer e da gravidade que podem ter e é como se ela estivesse a falar uma língua e nós outra". "Faz-me lembrar aquelas pessoas que entram na auto-estrada em contramão e pensam que os outros estão todos ao contrário. A Cristina Ferreira está a viver um momento desses", exemplifica.
Mas não se ficou por aqui. De Nuno Markl a Bruno Nogueira, até Iva Domingues não deixou de dizer o que lhe ia na alma, o que terá certamente beliscado a sua amizade com Cristina Ferreira que, com toda esta polémica perdeu uma aura de imunidade que o seu estatuto de super-estrela lhe havia conferido. E nem o silêncio do diretor-geral José Eduardo Moniz abonará a seu favor, como a ausência de uma posição a revelar certamente mais do que mil palavras.